quarta-feira, 29 de maio de 2019

Fábricas mortas, um comentário




Acabei de terminar a leitura do livro Fábricas mortas, de Caetano Lagrasta (Desconcertos, 2018). Na verdade, levei mais tempo para terminar do que achei que levaria. A leitura em si, é ágil - o livro tem 263 páginas, divididas em cinco capítulos. Lento, fui eu. Mas eu sinto que precisava apreciar o livro, assim como me senti obrigado a colocar no papel, pelo menos, uma parte das coisas que pensei. Este texto está longe de ser uma crítica, não sou habilitado para tanto. É mais um comentário, um desassossego.

Preciso dizer logo no começo que é primeira vez em minha vida que eu conheci o autor de um romance que li  ou seria a primeira vez que li um romance de alguém que eu conheço? Não é uma questão idiota, o que veio primeiro. No caso, eu posso dizer que conheci Caetano antes de conhecer o livro, e isso teve um impacto que eu não esperava em minha leitura. Como separar o autor de sua obra? Até hoje, tudo que eu tinha lido de pessoas que eu conheço, eram textos curtos, ou poemas. Todos abertamente autobiográficos: eu conseguia reconhecer as situações, algumas tinha até presenciado. Num romance de fôlego assim, supus  de forma tola - que o fato de inventarmos personagens, histórias, seus passados e futuros, pudesse se desvencilhar do que conhecemos do mundo. Hoje sei que isso não é possível; nem desejável. Escrever é um ato íntimo, mesmo que seja a história dos outros. Colocamos no papel, de certa forma, aquilo que somos, seja implícita ou explicitamente. Conheço Caetano de longas conversas ainda que não há tanto tempo quanto outros que também leram o livro, mas conheço - e pude reconhecer muitas das coisas que ele me contou ali, nos detalhes de cada personagens.

Isso me deu uma alegria e uma angústia. A alegria era poder pensar que as coisas que estavam acontecendo ali, as coisas que eu lia, eram histórias reais. A angústia era pensar que tudo que eu estava lendo ali poderia ser uma história real. Fábricas mortas não é um livro fácil de ler. Não porque a leitura seja difícil, mas porque a história de São Paulo é difícil. O livro se passa aqui, percorrendo várias décadas do século XX. Mas dizer o clichê que o autor nos leva a fazer uma viagem pela cidade seria diminuir o livro. Nós entramos na casa dos personagens, no seu cotidiano, vemos seus medos, acompanhamos as violências que praticam e que sofrem. Tive a oportunidade de perguntar algumas vezes ao autor o que era verdade e o que ele havia inventado para o romance e, muitas vezes, a resposta me perturbou. A sensação de que eu poderia encontrar Herculano - e que de certa forma, poderia conversar com ele, trocar figurinhas, perguntar do Juventus e da Rua Javari - me alegra tanto quanto me assusta a possibilidade de encontrar seu irmão farmacêutico e os colegas que o acompanharam em tantas violações de direitos humanos. Eles podem estar no mesmo vagão de metrô que eu, esperando na mesma fila de banco, todos esses torturadores que a anistia ampla, geral e irrestrita impediu de ser entregues à Justiça.

A história de São Paulo é difícil, é assombrosa, mas precisa ser dita, e isso torna para mim Fábricas mortas um livro importante. A pensata ao fim do livro: “quanto mais acumulo experiência no ofício da escrita, mais me dou conta de que não existe nada tão interessante como a verdade”, de William Zinsser, atesta isso. Trata-se de um ficção que brota da verdade, de realidade crua de sangue e pedra da metrópole. A foto na orelha do livro, da infância do autor passada no Brás, indica, no mínimo, que Caetano sabe - e sabe bem - do que está falando.

Se eu tivesse de recomendar o livro, diria que a verdade que ele traz, tem gosto de fel. E, em tempos como estes que vivemos, prová-la é antes de tudo uma atitude política.

Rodney da Silva Amador
São Paulo, 28/05/2019



sou do interior de São Paulo, Tremembé, me formei professor de história em 2014 e vim morar na Capital para continuar os estudos e trabalhar. Hoje eu faço Ciências Sociais na USP e sou professor em cursinho popular. Tenho 24 anos.