segunda-feira, 30 de julho de 2018

Cinco poemas de Sílvia Palaia


Foto: Maria Doval Ballet


A poesia de Silvia Palaia


Silêncios

transbordada de silêncios estico as lembranças e escondo a tristeza embaixo do meu travesseiro bebo o elixir da esperança apanho meu sorriso na gaveta e guardo na bolsa amanheço. seis horas e quatro minutos.

*

Jura de Amor Eterno

prometo me manter descabelada de alegria prometo fingir que você não é a companhia que eu mais gosto prometo fingir que você não me faz falta. prometo não lhe contar que penso em você, antes de dormir prometo não lhe contar que penso em você, antes de acordar prometo enamorar-te enquanto enrolar seus dedos em meus cachos. prometo enamorar-te enquanto coubermos, sem transbordar.

*

O tempo

manter no tempo os sussurros parar o minuto da alegria compartilhada olhar para o ponteiro, do velho relógio da parede, e ser cúmplice do tic-tac silencioso, da madrugada ardente, dos beijos trocados em segredo da noite esquecida. do copo de leite. do pano cobrindo o fogão. do amor desembrulhando. da vida da gente.

*

La Llorona

vem, a porta está aberta vem, a mesa está arrumada: dois pratos. vem, deixei a melhor cadeira pra você. vem, fiz sua comida predileta (sem cebola) vem, o vinho é tinto, encorpado na temperatura que você gosta vem, chavela canta la llorona a voz é grave e melancólica (compramos o cd no méxico, lembra?) a casa azul: quase casamos por lá eram tantas cores... vem, o aroma está ótimo você sentirá do portão: cravo e toque de manjericão vem, o número é o mesmo a senha: abraço assim que o portão abrir já sabes o que fazer em frente: são dezenove passos vem, meu amor, depois a comida esfria a cantora cansa o vinho estraga vem, meu amor a vida não espera.

*

Maio

era noite
num maio qualquer
depois em julho
me alimentou de ternura
acariciou meus talentos
embebedou meus temores
e foi
disse que não cabia nos meus abraços
em julho
me envolveu com seu casaco
de veludo
matou meu frio
e foi
disse que seu tempo era curto
pros meus beijos longos.
meu corpo bastardo
apertado na cama,
do quarto dos fundos,
que me reservara
e minha alma sufocada
pela falta de luz
no corredor de teus olhos.
abri a janela
em setembro
e deixei a primavera entrar
desde então
não cabes no meu quarto
da frente,
nem em minha cama macia
onde deita um coração
encantado
que tem costurado seu sonho
ao meu.

*

Epílogo

I
hoje me olhas
com ar de desprezo
esquece do amor,
esconde o desejo
II
no meio da noite
na mesa de canto
o nosso lugar
te olho de lado
me chama pra perto
me faz suspirar
III
parado no poste
me olhava partir
gritou o meu nome
voltei apressada
é noite, morena
me leva pra casa.
IV
e nas noites sombrias
te espero calada
no sonho te vejo
te toco e te beijo
desperto assustada
e na cama vazia
quem tanto eu queria
não está ao meu lado.





Sílvia Palaia é meu nome. Tenho 54 anos de intensidade e rebeldia. Sou socióloga e historiadora – com especialização em Historiografia e Cultura. Minha vida quase todo tempo foi pra explicar. Minha fala é minha ferramenta de luta e de amor. Escrevo porque é o que faz sentido na minha vida. É minha outra fala. A da alma em estado bruto. Também sou mãe do Pedro e do André e mulher do Heitor – companheiro da maturidade, da arte e da vida.  


terça-feira, 17 de julho de 2018

Borboleta - a menina que lia poesia, resenha crítica por Leila Míccolis






ARES, MARES E ROCHEDOS

 por Leila Míccolis



“Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”.

Rubem Alves


Não é de hoje que a autora é fascinada por borboletas: em 2009 tive o prazer de prefaciar o livro de Chris Herrmann intitulado Voos de Borboleta – haicais leves, como um bater de asas; no entanto, o adejo deste inseto colorido em Borboleta – a menina que lia poesia é completamente outro: pertence a alguém que, presa em um casulo fatal, vive extraindo do mundo das leituras a sua força, coragem e determinação diárias.



Por não conter diálogos, a leitura deste livro podia tornar-se cansativa, logo nas primeiras páginas. Porém, com delicadeza e sensibilidade, a autora consegue nos prender até o final, e acompanhamos com grande interesse o crescimento interior de Maria Rosa, uma jovem que vai da mudez à fala, do isolamento à plena interação com as outras meninas-moças internadas no mesmo local hospitalar que ela, capaz de viver cada dia como se fosse o primeiro e o último de sua existência e de celebrar a vida da forma mais intensa possível dentro das circunstâncias limitadoras de seu precário estado de saúde. Maria Rosa nos lembra, a todo instante, o inestimável valor da poesia, dos livros, da solidariedade, da beleza, do diálogo, da amizade e do amor, sutilmente enfatizando a ideia de que, em nossa travessia, o mais importante é a própria caminhada, o modo como a percorremos.

 


Um romance que se transforma simultaneamente em um livro de viagens, com a jovem borboleteando os jardins da cidade natal de seus autores preferidos, para descrever as diferentes cores locais; em reflexões, sob o formato de poesia, fazendo com que questionemos comportamentos cotidianos: “Despreconceito / é a compreensão do outro na gente”; e também se apresenta como um diário, oferecendo ao leitor a intimidade de uma adolescente que, apesar da adversidade, vai metamorfoseando-se e desabrochando-se a cada novo aprendizado, sem perder sua inocência e pureza. Uma literatura polimorfa, portanto, por conter em si múltiplas propostas estéticas.

Que reverbere, em nós, a principal mensagem da obra, alicerçada na impermanência e na transitoriedade da vida, visando não o hedonismo imediatista tão comum em nossa época, mas sim a percepção de cada minuto como uma dádiva em prol de nosso aprimoramento ético, moral, intelectual, mental e físico. 




A personagem principal ama as borboletas porque identifica-se com seus voos; mas eu a vejo também nos mares, não como uma arraia-borboleta, mas como uma determinada espécie de ostra, a princípio fechada em sua concha, mas que, com o passar do tempo, fixa-se a uma rocha fazendo dela o seu sustentáculo – Maria Rosa e Rocha –, transformando sua dor em pérola (pois não há pérola sem sofrimento), e oferecendo ao mundo a mais preciosa joia gerada em seu âmago, em seu íntimo, em suas entranhas. 



* Leila Míccolis é Mestra, Doutora e com Pós-Doutorado em Letras/Teoria Literária (UFRJ), pesquisadora, escritora de livros, TV, teatro e cinema.


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O livro pode ser adquirido aqui:
https://livrariapatuscada.m.minhalojanouol.com.br/borboleta-a-menina-que-lia-poesia-de-chris-herrmann-351681/p

Cinco poemas de Angela Zanirato



A poesia de Angela Zanirato



Medusa

os cabelos de Medusa
crescem até hoje
em silêncio
cobra coral
cobra d'água
cobra da morte
víbora
naja
em seus olhos ofídicos
um mar vermelho de corais
chispas de fogo
ferida antiga
pedra

Medusa me fez trocar de pele
tirou meus trajes
vesti couraça
modificou meu olhar
para a luta

os cabelos de Medusa:
-rios de liberdade
onde se aprende a rasgar mordaças
e nunca mais parir algemas.
Transversalidade

há quem se preocupe em dar pontos
no descosturado
-eu não!
preciso dos esgarços
dos restos de linhas
do mal acabado

- o que sou eu neste instante
senão um princípio do verbo?

tudo que se quer perfeito
tem um fim

bem dito os desajustados
estão sempre começando
bem dito os verbos irregulares
e suas rebeldes radicais
bem dita a corola do algodão
que cismou ser flor

bem dita mão calejada
que tece fios da memória
em novelos cujos dramas
pesam mais que seus gramas

bem dita essa transversalidade
que me atravessa
tira meu eixo
e meu ângulo.

*

Galhos

me dizem:
- forte!
mal sabem que não carrego minhas malas
recheadas de desespero e desistências
mal olham para meus braços / galhos podados
olham para meus olhos rajados
para minhas unhas de garras
para meu lombo cicatrizado

me dizem:
- forte!
mal escutam meu coração descompensado
aquele grito calado
aquele sono agitado
escutam meu discurso/ censurado
minha ideologia desfraldada
minhas palavras declamadas

me dizem:
- forte!
minha luta interna
nunca foi fotografada
nunca pichei meus medos
nos muros das minhas entradas
nunca desenhei minhas fugas
nas barras das minhas saias
nunca pintei meus dilemas na cara
em maquiagens sofisticadas

me dizem:
- forte!
me digo humana!

*

Seco

não é qualquer tábua
que me salva
não me prego em qualquer cruz
choro a seco
tudo que costura feridas
dispenso
não esterilizo nem o pensar
todo corte será história
toda lágrima engolida será memória
toda dor será fotografia
não maquio cicatrizes
a vida exige crueza
luvas cirúrgicas?
são só vaidades...

*

Rosa da resistência

planto uma rosa vermelha
que resista à maçã da bruxa
deixada na calçada
planto uma rosa vermelha
que resista à clorofila dos cabelos platinados
que floresça no cano das botas
estoure a boca do fuzil
planto uma rosa vermelha
que vá para a luta
armada de seiva
que não esqueça seus motivos
assim como a roda viva não esquece sua engenharia
planto uma rosa vermelha
e que o jardineiro jamais seja acusado
de decepar as próprias mãos na poda
rosa vermelha
que enfeite celas
peito de prostitutas
bancos de sangue
de sêmen
acampamentos
e feiras da lua
planto uma rosa vermelha
e não me preocupo com o ângulo
da fotografia
só com sua rota
de colisão com os fascistas
planto uma rosa vermelha à prova de balas
de tropas de elite
de canhões
uma rosa chumbo liberta
onde as mãos que a busquem
pela ânsia do encontro
nunca estejam satisfeitas.

*

Elegia a pedra

poesia, poesia
conta qual a primeira vez
que a palavra pedra te rondou?
foi a pedra pensante de Wallace Stevens?
ou a pedra viúva de Mallarmé?
a pedra queimada de Aleksandr Blok?
a pedra poética de Ósip Mandelstam?
a pedra –ferro de Hilda Hilst?

poesia, poesia
tuas pedras doem a cada verso
meu coração calcificado
asas amputadas
lírios desossados
este olhar pétreo
constrói muros
dorsos dobrados
pedra sabão

poesia, poesia
tuas pedras
mostram o caminho
dos voos
dos vasos
dos vales
dos ecos
dos gritos das mulheres apedrejada

poesia, poesia
mostre a ultima pedra do poema :
-ensina a caminhar em pedras brutas.








Angela Maria Zanirato Salomão é professora de História, Pós-Graduada pela UNESP de Assis e pela UEM, Maringá. Participou do Mapa Cultural Paulista versão 2015/ 2016, onde foi classificada para a fase final na modalidade conto. Participa da Associação de Escritores e Poetas de Paraguaçu Paulista- APEP. Tem poemas publicados em três Antologias: “Um olhar Sobre” coletânea da APEP em 2014, “Filhas de Maria e Valentim”, 2015 e “Um Olhar Sobre”, coletânea da APEP 2017.  Possui poemas publicados  nos sites Blocos Online , Parol , Movimiento Poetas del Mundo, Antologia do Mapa Cultural Paulista edição 2015/2016, versão e-book, Revista de Ouro, Revista Ver-O-Poema e InComunidade.










terça-feira, 10 de julho de 2018

Borboleta - a menina que lia poesia, de Chris Herrmann, resenhado por Nic Cardeal




PORQUE BORBOLETAS TAMBÉM SÃO POETAS DE VENTANIAS E ESPERANÇAS

 Por Nic Cardeal



BORBOLETA – a menina que lia poesia é o mais recente livro escrito e publicado por Chris Herrmann (São Paulo: Patuá, 2018), que conta a história de uma menina órfã de 14 anos, que vive sua adolescência em um hospital.

Maria Rosa vê o mundo pelas lentes da poesia, das ‘viagens’ que faz a bordo da sua ‘asa de borboleta’ chamada imaginação, dos livros que vai devorando em sua imensa sede de vida, já tão pouca e tão fina... Como bem dito por Adriana Brunstein, na primeira orelha, “(...) os livros que emprestaram os olhos à Maria Rosa, para que ela pudesse ser ovo, lagarta e pupa, mas jamais adulta. Não no sentido que conhecemos (...)”.

A menina é conhecida como Borboleta porque, ainda tão pequenina, já costumava correr atrás das borboletas. Maria Rosa não fala desde que teve um sonho, aos 7 anos, do qual não se lembra – quem sabe emudecida por tantos traumas - perdeu os pais no curto espaço de um ano, quando tinha apenas 3 anos -. A menina navega em universos paralelos cujo barco é a poesia. A descoberta de uma leucemia leva Maria Rosa, aos 14 anos e depois de 11 anos vivendo em uma creche - "uma casa para crianças sem família" -, a ter de ir morar em um hospital, para tratar da doença, tendo de encarar nua e cruamente a situação: “(...) Lá as outras crianças têm o mesmo diagnóstico que eu: câncer. Não é uma palavra bonita, é? Não entendo porque faz parte do horóscopo. A pessoa compra uma revista para saber da sua sorte e dá de cara logo com o quê... Câncer! Chega, não aguento mais ter de escrever essa palavra. Já basta ouvi-la com frequência por aqui (...)” (2018, p. 27). A 'menina-borboleta' logo de início se pergunta, de forma poética: “Com quantos tons se retoca a vida de uma borboleta?” (2018, p. 9). 

A autora delineia os caminhos de Maria Rosa mesclando a trajetória da narrativa com poesias, enquanto também intercala situações ‘reais’ da sua personagem na luta contra a doença, com suas ‘viagens’ pela Floresta Amazônica: “(...) Luas e aventuras se passaram que eu nem sei contar. Só sei que houve um dia onde a minha história, ainda que adormecida em meus sonhos, começou. Minha mãe, uma jovem borboleta que já carregava nas cores suaves das asas o peso de uma metamorfose sofrida, alimentava-se e ocupava-se da beleza da bromélia. Meu pai, sempre muito distraído, atrapalhou-se todo na viagem entre dois canteiros e resvalou a asa direita no musgo da folha verde da árvore gigante. De repente, viu-se caído sobre a bromélia vizinha a que pousara minha mãe. Esta riu-se toda do desastrado. Meu pai, um meninão-borboleta de asas bem coloridas, primeiro ficou ruge, mas logo em seguida não resistiu e gargalhou também. Então veio o silêncio formando uma brisa exótica que não surgia apenas daquele jardim. Meus pais estavam – para a minha fortuna ou não – de alma ruborizada e asas caídas! (...)” (2018, pp. 15/16).

Desse lugar que raramente pode sair, a menina viaja nas asas da 'borboleta-imaginação', sempre nutrida por livros, visitando cidades, lugares, descobrindo poesia, poetas, encantos de outras terras: “(...) Você me perguntaria como é possível descrever um lugar que eu nunca estive. Estive sim! Apenas de uma forma diferente de você. Os olhos, peguei emprestado dos livros. As asas, da borboleta (...)” (2018, p. 21). 

Depois de passar mal pela primeira vez, a adolescente é levada para o hospital. A descoberta é trágica: “(...) Fiquei esperando o teto desabar na minha cabeça a qualquer décimo de segundo. E ele desabou. Eu tenho Leucemia. Não voltarei mais para a creche. Se tiver sorte, viverei mais uns seis meses. O hospital é o meu novo casulo maior (...)” (2018, pp. 23/24). 

Maria Rosa precisa se acostumar com seu novo ‘lar’. Sente saudades das crianças da creche, das conversas com as mãos, os olhos, os ouvidos, sorrisos e abraços. Sente dores de corpo e de alma. Seu grito é silencioso: “(...) será que existe remédio para a desesperança? (...)” (2018, p. 25):
Maria Rosa é transferida para a ala de crianças com câncer, um lugar onde, segundo ela, a tristeza é bem camuflada. Renova-se em energia e esperança, volta a ler, a fazer suas ‘viagens’ imaginárias por lugares nunca vistos. Comemora seus 15 anos entre as novas amigas do hospital, com bolo de aniversário e borboletas artesanais. A alegria passageira traz um presente inusitado e permanente: Maria Rosa volta a falar, dizendo “muito obrigada!” A felicidade é geral: “(...) O novo casulo maior abriu meus horizontes literalmente. Devolveu-me a voz (...)” (2018, p. 34).

A partir de então a vida, ainda que triste diante das dores da doença, traz novas esperanças ao coração da 'menina-borboleta', por meio da voz que se faz ouvida. Maria Rosa sente o mundo muito mais colorido com a prática do diálogo, das conversas com sua melhor amiga no hospital, a menina Márcia. Maria Rosa conversa, lê, escreve, e seu pequeno mundo no quarto do hospital vai ficando muito maior. Mas a vida em um hospital também traz surpresas tristes, já esperadas... A menina Míriam, também internada, faz a 'viagem sem volta': “(...) De repente, o frio. Não aquele que desejávamos para refrescar o dia, mas o frio que não foi convidado. O frio que faz um buraco na alma da gente. Hoje não quero viajar. Miriam partiu e não poderemos mais sorrir com ela. Talvez haja um adeus que mora dentro da gente aqui no casulo maior. Mas ele não se pronuncia, não se explica. É um nada que se engasga na garganta da gente e que é, ao mesmo tempo, necessário. Deveríamos estar preparados para ele. Na verdade, nunca estamos (...)” (2108, PP. 43/44).

“Adeus,
Por onde anda você?
Quem o inventou?
Quem o convidou?
Quem o entendeu?”
(2018, p. 44)

Maria Rosa faz reflexões sobre sua vida, comparando-se e se sentindo uma genuína borboleta, em todas as suas fases de curta vida: ovo, larva, pupa e idade adulta. Lembra do poeta das miudezas, Manoel de Barros, viaja imaginariamente até Cuiabá, sua cidade natal. A menina também reflete sobre a solidão das pessoas nas grandes cidades, sobre a falta de compartilhar as pequenas desimportâncias que nos fazem mais humanos, sobre os medos e a doença que atinge a todas as crianças naquele casulo hospitalar, porque “(...) não há muito o que esperar (...)”, embora ela própria entenda que “(...) se há medo, há também asas capazes de nos fazer flutuar e sobrevoá-lo (...)” (2018, p. 51).

“O medo e as asas.
O medo é um ser invisível,
feito de um material pesado
e olhos cabisbaixos.
As asas, visíveis ou não,
são tão leves
que abraçam um céu
com olhos de plumas
que apontam rumos.”
(2018, p. 51)

A vida vai seguindo rumos inesperados naquele pequeno pedaço de mundo e Maria Rosa descobre que seu amor por sua amiga Olívia é correspondido. Um amor que ultrapassa as fronteiras da amizade, transformando-se em profunda alegria. Mas a vida também traz momentos difíceis, com os efeitos colaterais da quimioterapia, em que o corpo e a alma prostram-se cansados e entregues. Mas Maria Rosa insiste em acreditar muito mais no amor do que na dor: 

“(...) Amor
– asas sutis
que não se enquadram
em explicações
de ordem.
Sentir explica toda
a desordem".
(2018, p. 75)

Maria Rosa amadurece muito cedo porque a vida lhe exige um alto preço de compreensão das coisas do mundo, das coisas de fora e de dentro, de desapegos urgentes, imensos, de costurar em finos fios os horizontes tão poucos que se estendem bem diante da sua vida que urge, que ruge, grita, esperneia, acalma, e ainda encontra linhas de remendar alheias esperanças e consolos: "(...) Amizade/é aquela via de mão dupla/que não necessita de carros,/mas de asas e corações" (...) (2018, p. 83). Porque a vida - toda a vida - sempre é por um fio, às vezes meada, novelo, carretel, às vezes corda grossa, comprida, às vezes cordão de amarrar imensas tempestades anunciadas e desmedidas, às vezes tênue linha que vai subindo aos poucos céu acima, feito papagaio, pandorga ou pipa, até que o fio se solte, se rompa - e finalmente voe solta - à procura de horizontes outros no vertical azul do caminho onde estrelas também sonham o sonho justo do infinito...

Esse livro é todo feito de asas. A todo momento você se depara com asas. De borboletas. Da imaginação. Dos bons sonhos da menina Rosa. De poesia. Das suas próprias asas, enquanto lê. Esse livro é todo feito de amor. De dor e de esperança. De tantos pesos desmedidos e de aéreas levezas. Feitas de asas. Porque "(...) só as coisas pequenas cabem na leveza da alma (...)" (2018, p. 120)

Esse livro é sobre eu e você. E borboletas. Porque borboletas também são poetas de ventanias e esperanças.

Recomendo muito esse voo!

Borboleta - a menina que lia poesia