terça-feira, 18 de abril de 2017

Homenagem ao João (Baptista da Costa Aguiar)

Cerimônia do Adeus




A morte nos visita e o João foi embora com ela, depois de prolongada tristeza.

De nada adiantaram solicitações de trabalho pelo Facebook, durante os últimos meses: o silêncio fingido acabou por mantê-lo esquecido e doente.

Sebastião, o cunhado Antônio, as irmãs e mais alguns amigos serviram-lhe de conforto; pouco.

João foi um dos melhores amigos e o melhor dos designers, ao menos ao que me consta, por trabalhos desde o primeiro em 1963, ao desenhar a capa do livro de contos “abecedário”, editado 50 anos depois; os desenhos de corpo inteiro do livro de poemas, “Ópera Bufa” (2007) e do ensaio fotográfico, “Desmedida Segurança – a prisão dos réus absolvidos” (2009), inédito; palpitante nas artes do “Dicionário de Direito de Família”, lançado em 2013; no projeto gráfico do coletivo “Sobre Lagartas e Borboletas” (2015) e, por fim, capista de minha narrativa, também inédita: “Brás – fábricas mortas” (2016); por fim, logomarcas do Tubapbooks e do escritório Zago E Lagrasta.

Mas, João era um “Senhor... - em seu receituário de chef de cozinha e barman - ... Prendado”, ao promover regabofes entre amigos à mesa farta ou no “Star City”, nas feijoadas de sábado ou de qualquer dia; reminiscências do “Barquinho” da Av. Santo Amaro, com Dácio Aranha de Arruda Campos e seguidores, nas incontáveis doses de “caipirinhas”.

Desde os idos de 60, é certo, João sempre amou biritar e ser o conversador de excepcional verve e irrepreensível humor.

Maior glória foi receber o primeiro autógrafo da vida de João, em seu livro  Desenho gráfico  que narra a trajetória do Artista, desde as capas, logotipos (Cia. das Letras e seus selos e letrinhas), além da belíssima campanha publicitária de Luiza Erundina, Prefeita de São Paulo etc. 

João não tergiversava: em tudo ele era aquilo, aquilo mesmo que ele contava, seja no contato, na família ou na política, sem arredar unha de convicções ou teimosias e no amor aos netos.

Vai-se o amigo João e choram rimas - ainda que contra sua vontade - de que tudo continue numa grande festa no céu, ou no primeiro balcão em que ele ancorar aos bebericos e espalhar, estrepitoso, gargalhadas.

Saudade imensa, é tudo...

Caetano Lagrasta






  

    

terça-feira, 4 de abril de 2017

OITO PERGUNTAS A PENAS com NEUZA LADEIRA


Neuza Ladeira nascida em Belo Horizonte, artista plástica, aquarelista apurada, poeta. Casada, mãe de duas filhas. Amante das artes e das montanhas. Autora de Opúsculos e Poética Caderno 1. Autodidata, estuda Foucaut e Schopenhaeur. Integra como Fundadora o Movimento Poesia na Praça,na Pampulha, em Belo Horizonte, MG,Brasil. Ilustra vários livros de poesia para o selo Anomelivros e outros também seus. Realizou várias exposições inidviduais de telas correlacionadas à sua Poesia. Ainda muito jovem, Neuza lutou pelas liberdades democráticas. Foi prisioneira política de 1970 à 1972 em quatro estados brasileiros, na época da Ditadura militar. Sua experiência de vida reflete-se sobremaneira em seus versos

Links:



Sou eu uma bomba

Lapidada
Em um aparelho
De cabeça para baixo
Mãos e pés amarrados
Sou eu uma bomba
Aniquilada pelo inimigo
Que insiste
Em matar o que não morre

Sou eu uma bomba
Solta na vida
Tendo que sobreviver
Num mundo hostil

Sou eu uma bomba
Explodindo na palavra
Uma pólvora fugaz


NL






BAP1: Quando surgiu a arte em sua vida?

Neuza Ladeira: Desde que nasci fui rodeada de arte. Fui para o Rio de Janeiro e tomei um chá de modernidade. Nasci com os olhos embaçados, quatro graus de miopia, os detalhes inexistiam para mim. As personas eram imagens surreais. Então imaginava; montava a cena e ali estava a pintura. Eram quadros singulares, como uma fotografia guardada. Até hoje me lembro de não enxergar o A, E, I, O, U. Dirce, a professora, observou a deficiência e foi à casa de meus pais dizendo: “Levem esta menina ao oculista”. Minha vida mudou aos dez anos quando usei o meu primeiro óculos, vi tudo geométrico. Espaço e forma me laçaram. Nessa época desenhei muito. Depois me encantei com a poesia, decorava poemas. Um deles, em francês, eu declamava no colégio. Arrumei um diário e escrevia minhas intenções. Fui criada com pessoas inteligentes, modernas leitoras. Tinha um mundo só meu onde aprendi o que uma mulher devia saber. Mas fiquei tímida diante dos meus dons por longos anos.

BAP2: O início: literatura ou artes plásticas? De qual maneira uma arte alimenta a outra na sua engrenagem?

NL: Sempre fui fascinada pela literatura. Sempre amei as palavras, a sua integração, a dedução, o instante da inspiração. A pintura surgiu na infância, mas ficou adormecida. A poesia veio primeiro e eu nunca desisti. Uma intuiu a outra.

BAP3: Fale de seu primeiro livro ´Opúsculos´, de como ele surgiu e de sua temática.

NL: “Opúsculos ” é um livro de poemas com versos livres. Minha linguagem dos opúsculos cumpre sua real função. Une epifania e condução mágica das palavras. Este livro foi a expressão que dei às minhas impressões, trilhando pensamento seguido das premissas do verso. Foi o melhor lançamento de livro já visto com umas quatrocentas pessoas. Paguei o livro no lançamento e ficou lindo! Todos os poetas declamaram. Tivemos música, acordeon, dança. Foi um mágico sarau.


BAP4: Você sofreu as consequência da Ditadura no Brasil. Foi presa e torturada. Fique à vontade para contar como tudo começou.

NL: Por uma ideologia na qual acreditava, vi a coisa mais feia do mundo que é homem ferindo homem. Na prisão, seres violentos massacravam, matavam todos que sequestravam. Fui torturada pelo violento Delegado Fleury. Ele me bateu e me pressionou tanto que implodi.

BAP5: Arte e resistência podem chegar a ser sinônimos?

NL: Para mim, a arte é a mais notória resistência. Homem mais comum, integrado ao comum, ao vagabundo. Ela está aí resistindo ao tempo em sua atualidade. Sim, arte e resistência são sinônimos.

BAP6: A prisão e a tortura podem se constituir numa forma de arte que não seja engajada?

NL: Arte em toda a sua dimensão pode e deve estar engajada. Tortura é crime. Temos que denunciar.

BAP7: Qual o olhar da Neuza de hoje sobre a poesia social e revolucionária do século XX?

NL: Vivi em uma época na qual a arte denunciava através de músicas, poesias, pintura etc. Chico Buarque e tantos outros, com sua arte consciente e poética revolucionaram. Era uma época de boca calada e o murmúrio era a poesia. Canções como “Caminhando e Cantado” de Vandré estavam inseridas naquele contexto. O teatro participativo, com peças como “Liberdade, liberdade”, “Morte e vida Severina” e tantas outras cumpriam seu papel no país e pelo mundo. Músicos implodiam com suas músicas carregadas de poesia e denúncia. A poesia do século XX foi muito participativa.

BAP8: Você é apreciadora da natureza, artista plástica, poeta e leitora. Fale de suas leituras preferidas, como por exemplo, a filosofia.

NL: A seguir, listo alguns livros que li e gostei. Há muitos outros, mas destaco esses. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes \ André Comte-Sponville Schopenhauer \ Decifrando o enigma do mundo \ Marie-José Pernin Nietzsche \ Vontade de Potência \ O Poder do Mito \ Joseph Campbell Cem anos de solidão\ Gabriel García Márques A companhia dos Filósofos \ Roger-Pol Droit Antologia de Fernando Pessoa.




__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli