domingo, 26 de março de 2017

Porque aqui: tudo acontece




Antes de eu lhe pronunciar o nome
Ele não era
Mais que um simples gesto
A Flor, kim Tchun-su


Reflito sobre sua escolha, enquanto me preparo para prefaciar este livro de poemas. Ela ainda não sabe, mas enquanto folheio suas páginas, busco pela Virginia. Aquela. Um pouco da que eu já encontrei pelas ruas de São Paulo... A Virginia do próprio passado...  Ou a outra, em seus comentário-armadilhas de posts no Facebook.

Nessa hipótese de leitura, eu me desassossego; em seu livro, a Virginia que nasce de palavras em verso são muitas (“... tida como autista, disléxica/ traduzia diferente o mundo/ de maneira poética”). vi e/ou vi é feito de inúmeras possibilidades que, somadas, se transformam em experiências de linguagem diversas.

Armada com o melhor dom, a autora lança ironia para desconstruir o óbvio. A poesia em que “importa menos/o hiato da sílaba”, transita com inteligência pela desordem e se arrisca, entre a dor e o humor, até encontrar na voz feminina, seu coro de resistência. A vida - encarada de frente.

Hoje eu acordo/ com aquela tontura/da dispersão”... “e então eu fico bem/endireito a postura/e finjo que sei tudo de cor”.

Por saber que não existe melhor oportunidade, desfruto nestas páginas dos mistérios do verbo, do feitiço das bruxas, suas diabruras: “anjo que é anjo, flutua/eu só aprendo quando despenco/de grandes alturas”.

Mulher só chora... dizem. Virginia é o desmentido. Em tudo eu/ tudo elas/tudo nós, o lamento ganha com a distância do estranhamento: “não se tira de letra, com sorte, certa passagem, certa carência/ no amor e na arte, uma essência/ amar-te na morte”.

Nesta aflição, a poeta aumenta o torque:

no interior
vivia Berta, a puta, que no bordel
exalava certa fragrância de ausência
e as ignorâncias gozavam:
"vai lá com a Berta!"
e no sacolejar
enquanto seu íntimo era vasculhado
sua alma escapava do corpo
e um dia ele se foi atrás dela pela janela
do último [an]dar

Há, nesta última parte, um esgar de consciência, uma ressaca de fim da festa – porque é assim que a vida acontece: com seus humores/amores/dores/nomes/dissabores...   

minha labuta é em silêncio
quase uma clandestinidade

A poesia de Virginia é só dela. Sem ancoragem, sem demora, porque “não há espaço para ocupação”...  Ainda assim, ao prefaciar seu livro, eu me abasteço de água fresca: copo sobre pedra escaldante.

Fim.

Adriana Aneli  


Nenhum comentário:

Postar um comentário