quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

OITO PERGUNTAS A PENAS, com JOSE COUTO


José Couto é professor de geografia, história, filosofia e sociologia. Pós-graduado em Educação Ambiental no Centro Universitário La Salle. Cursou como aluno especial os cursos de Literatura Brasileira e o Educação na área de Estudos Culturais na UFRGS, e o mestrado em Educação Ambiental na FURGS. Publicou "A Impermanência Da Escrita", poesias, 2010. Editora Alcance. Participou de diversas Antologias de poesias, crônicas e contos em diversos livros e periódicos da imprensa cultural do País. Escreve semanalmente no jornal O Alvoradense sobre poesia. Lançará em breve o livro "O Soneto de Pandora", poesias. Além da obra autoral, o poeta também abre espaço para divulgar novos talentos e obras de já consagrados escritores.
E-mail: jrobertocouto@ig.combr - Blog: http://oalvoradense.com.br/opiniao/josecouto



O Templo*

eu penso no hálito de gim e café frio
do solitário cafetão sifilítico
quando vejo a magreza das meninas
contabilizando minguados michês
de seus corpos ocres de não tempo

eu penso no odor do liberal
em sua singela sinceridade
distribuindo moedas
nos semáforos do tempo interrompido

um desolhar de revés
tempo desassossegado fluindo indo in

eu penso no êxtase de jimi rendrix compondo little wing
o ácido no pico exercendo a não liberdade
quando ouço um acorde dissonante ou iluminado
transmutando-nos em seres delicados altruístas
ressignificando perversas desumanidades

eu penso em charles baudelaire
alucinado de ópio e insight desfigurado
reescrevendo a modernidade
"é que nossa alma arriscou pouco ou quase nada."
quando escrevo o que minha anima inspira
nessas horas onde o tempo germina
auroras luminosas de nossa impermanência

um desolhar de revés
tempo de sincronicidade
relâmpagos dissipando-se em silêncios

José Couto

*Inspirado no poema “Púlpito”   de Joelma Bittencourt






BAP1: Fale das suas preferências de leitura e quais foram/são suas maiores influências?

José Couto: Leio de tudo. De gibis a clássicos da literatura universal. Difícil dizer as maiores influências. A soma. A bagagem, extraída dessa outra percepção da realidade. Literatura é esse mergulho, na dimensão mais sutil de humanidade. Assim como toda arte, trata-se de um encontro enriquecedor, verdadeiro, de onde emerge o melhor de cada ser. Para não parecer tão vago, então fico com cinco momentos na trilha, que zeraram, reiniciaram os passos. As Flores do Mal, de Charles Baudelaire. O Jogo da Amarelinha (Rayuela), de Cortázar. Los conjurados, de Jorge Luis Borges. Grande Sertão Veredas, João Guimarães Rosa e Poema Sujo do Ferreira Gullar.

BAP2: Como surgiu e se desenvolveu o projeto do livro “O Soneto de Pandora”?

JC: O Soneto de Pandora são cinquenta poemas que escrevi e reescrevi nesses últimos dois anos. O livro está pronto, esperando uma editora. Uma obra com importantes participações. Capa e prefácio do artista plástico e escritor Artur Madruga. Orelhas das Poetas Lourença Lou e Joelma Bittencourt. Revisão técnica do poeta Antônio Torres. Contra capa do escritor Clóvis Malta, dos poetas Wander Porto e Rossyr Berny. Tive o privilégio de ouvir a opinião de alguns leitores, aos quais submeti os originais do livro antes de dá-lo como terminado, com liberdade para subtrair, acrescentar, sugerir.

BAP3: “Professor de geografia, história, filosofia e sociologia”... Em que medida a formação humanista contribui para a criação de uma literatura crítica e reflexiva?

JC: “Este é o mundo em que vivemos, banal e delirante, mas onde se torna cada dia mais clara a necessidade de despertar e cultivar o que há de humano no homem.” (Ferreira Gullar) Primeiramente. obrigado por observar essa qualidade em minha poesia. A poesia e a literatura pode e deve ajudar a humanizar novamente os homens. Acredito que minha formação acadêmica contribuiu para isso, porque somos o resultado de nossas bagagens. As experiências. A poesia tem sido historicamente o antídoto para os excessos de perversas desumanidades, da opressão, das desigualdades, para o bem ou para o mal. Mas não é fundamentalmente esse seu papel. Porém, a poesia tem ajudado a refletir e questionar essas inquietações. Não há nada mais complexo e obscuro que a alma humana. E é aí que a poesia pode contribuir, iluminando, revelando, fazendo repensar e potencializando a capacidade do homem de sentir e se reconhecer na desumanidade do outro. Que também é a sua própria. Pode ser, mas também são abstrações. Não tenho certeza de nada. Ainda estou tentando melhorar-me, que também pode ser um caminho de fugir do umbigo e da torre de cristal.

BAP4: Como você vê as novas tendências da poesia contemporânea?

JC: Com otimismo. Me encanta a variedade de vozes poéticas em circulação hoje nas redes sociais. Para a literatura e particularmente à poesia, é benéfico esse ciclo luminoso de exposição, tendências, encadeamentos e de renovações literárias. Obviamente existe a questão da permanência e impermanência. Porém, isso é uma demanda do tempo e seu poderoso filtro. O cenário mundial de crise, por qual passamos, também é favorável. Sabemos que historicamente são esses momentos de rupturas, de quebra de paradigmas, que surgem as transformações, as mudanças necessárias. Assim repensamos outras possibilidades, capazes de medir o homem e sua humanidade em uma outra dimensão de unicidade de ser, em harmonia consigo e com o outro. Vivenciamos uma lei desmesurada do ego. Não que o ego seja ruim. Mas se você só enxerga através dele, estaguinou. E não há nada pior que a inércia para a literatura e para a evolução.

BAP5: Qual o papel do poeta na sociedade?

JC: "E é suficiente, para o poeta, ser a má consciência do seu tempo." (Saint-John Perse)
Acredito nisso!

BAP6: E qual o papel das redes sociais nessa história?

JC: De facilitar a aproximação. As trocas de experiências. Dar visibilidade às várias vozes poéticas e literárias em ebulição. Tenho dois projetos literários prontos, realizados a partir das redes sociais. "Breves considerações poéticas, sobre arte em exposição de Artur Madruga" é um catálogo poético com as obras do artista plástico e escritor, onde convidamos cinquenta poetas com perfis nas redes sociais, para que cada um fizesse uma releitura poética de um quadro do artista. Depois registrasse o poema releitura em vídeo ou áudio para participar do catálogo e da exposição multimídia, que acontecerá provavelmente ainda este ano. Estamos aguardando parcerias. Esse trabalho ficou belíssimo e também aguarda a oportunidade de um registro permanente em livro.
No outro projeto, organizamos uma antologia poética com os melhores poemas das redes sociais, publicados no jornal O Alvoradense, na coluna de poesia que edito há três anos. Com o título "100 poemas desconcertantes e uma canção inexorável ( à maneira de Pablo Neruda) " com notas biográficas e bibliográficas dos participantes, além de um estudo introdutório dessas novas mídias onde circula essa nova poesia brasileira. Nele tentamos traçar um perfil desse novo leitor. Também aguardando parcerias para publicação.

BAP7: O que o motiva a, num mundo tão preocupado com o próprio umbigo, abrir espaço para divulgar novos talentos?

JC: Tenho um poema com esse tema.

Antena

Reverberações fragmentadas
Das incertezas. És antena sensível
Do vir a ser, do indizível, da intrincada verdade
Oca. O muito pouco
Se excessivo, a não palavra desconstruída.
Dizer minimamente, raridades.
Em tempos de louvações, eloquentes elogios
Ao umbigo. A partícula de Higgs
Nos subjuga e revela:
eu e você leitor, ilusões.

E o poema, brilho de uma estrela
Que não existe mais.

José Couto

Porém, meu mantra é o poema O CINZA de Paulo Hecker Filho

Se a verdade pode nos iludir, a glória excessiva pode se revelar uma prisão. Então, apostei na dúvida e na soma de todas as partes. Somando, dividimos percepções e experiências. É da natureza do poeta ser o contraponto, trilhar na contramão. Se a maioria está olhando para seu próprio umbigo, vamos experimentar outros olhares. Outras possibilidades na visão. Olhar muito de perto atrapalha, confunde. É preciso criar perspectivas, ampliar horizontes. Se você realmente deseja enxergar vai precisar criar alternativas, sair da sua zona de conforto. Comecei dividindo com meus irmãos poetas meu espaço no Jornal O Alvoradense, para que também pudessem expressar suas artes e verdades. Não sei se esse é o melhor caminho. Porém, o retorno tem sido gratificante e maravilhoso.

O CINZA
Paulo Hecker Filho

Eu sempre preferi esta névoa sem névoa,
este ar enfim humilde como o humano.
Me diz mais do que a chuva,
a chuva hostil, mas doce de se olhar,
a chuva forte, que embriaga beber.
Me diz mais do que o sol,
cuja glória excessiva nos obriga a outra glória.

Eu sempre agradeci no fundo mais ao cinza,
como quem se surpreende com uma dor que alivia.
Me atrai com a sonhadora força de um pecado,
e quem sabe é um pecado, o pecado mortal...
Ó cinza, ó puro cinza, que és o tempo sem tempo,
o tempo enfim sem tempo,
tão macio como a morte.

BAP8: O brasileiro lê pouco, dizem as estatísticas. Na sua opinião, este quadro pode ser revertido? Como?

JC: Antes de finalizar gostaria de manifestar minha gratidão a vocês, Chris e Adriana, pela possibilidade desse pertinente e prazeroso colóquio, e a generosidade da acolhida e ajuda na divulgação dos meus versos. Acompanho e admiro o trabalho de vocês e nunca imaginei que um dia pudesse estar aqui.
Penso não haver saída possível sem investimentos maciços na educação, a multiplicação de bibliotecas públicas, o barateamento e o acesso ao livro, principalmente nas camadas economicamente mais carentes. O incentivo material e apoio às manifestações das artes populares. A arte autêntica que surge espontaneamente como espelho da alma de seu povo. A tocha ardente a iluminar. A que indica o caminho longínquo a ser percorrido, que a literatura pode romper no tempo e espaço com sua permanente capacidade de nos transmitir ressurreição, transmutação e sabedoria.

__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli

11 comentários:

  1. Parabéns, BAP, pela entrevista com o grande poeta que é José Couto. Abraços!

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  2. muito bom! José Couto é um grande poeta e divulgador da poesia contemporânea e merece todo o destaque! parabéns! Excelente entrevista!

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    1. Obrigado Lazará! Sempre uma alegria tua visita e comentário!

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  3. Excelente entrevista! José Couto me paralisou com tanto conteúdo de qualidade em uma entrevista/depoimento tão poéticos, que a sua leitura nos dá a exata dimensão do prazer estético em lê-lo. Quando pensamos que já tivesse dito tudo, ele novamente nos surpreende com um depoimento revelador de seu lirismo. E isso impulsiona, emociona e incentiva a todos nós, os que se iluminam com tanta luz sobre nossos dedos, para que não percamos o olhar criativo da escrita quando tentamos achar a folha em branco para produzirmos em meio a escuridão e caos em que vivemos. Parece deixar claro o que o nosso amigo em comum, Paulo Bentancur dizia: a única salvação é escrever. José Couto é definitivamente um "grande poeta".

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  4. Excelente entrevista! José Couto me paralisou com tanto conteúdo de qualidade em uma entrevista/depoimento tão poéticos, que a sua leitura nos dá a exata dimensão do prazer estético em lê-lo. Quando pensamos que já tivesse dito tudo, ele novamente nos surpreende com um depoimento revelador de seu lirismo. E isso impulsiona, emociona e incentiva a todos nós, os que se iluminam com tanta luz sobre nossos dedos, para que não percamos o olhar criativo da escrita quando tentamos achar a folha em branco para produzirmos em meio a escuridão e caos em que vivemos. Parece deixar claro o que o nosso amigo em comum, Paulo Bentancur dizia: a única salvação é escrever. José Couto é definitivamente um "grande poeta". Artur Madruga.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Jose Couto é um apaixonado pela literatura, sua sensibilidade o leva a necessidade de ampliar com seus criativos métodos , este horizonte literário servindo a uma grande maioria de pessoas, incentivando, poetas e leitores a interagir com mais veemência neste mundo mágico e necessário da leitura.Mestre Jose Couto é a prova de que o seu sonho tem a dimensão do seu querer ." Literatura para todos" este é o lema deste mestre incansável e movido ao sonho de ainda ver um País que lê. Deixo minha admiração e minha gratidão, por presenciar e conhecer, este coração que fabrica sonhos.Abraços mestre Jose Couto

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