domingo, 26 de fevereiro de 2017

De princesas e sombras


 "A cada dia respiro o pó do outro dia"


Sombras, sempre dúplices: existem sombras quando o sol poente atravessa folhas e se esparrama no chão.

Moro, (não aquele dos processos e sentenças; o das condenações vesgas e turvas sombras más) declina histórias, mulheres e spleens – às custas de Baudelaire e um tanto de cheganças ao sexo e aos goles – na sensação de incompletude, a beirar ao trágico, quando não à farsa.

Mas, “existem praias tão lindas e cheias de luz”, onde criança espera encontrar a “princesinha do mar” e lá se vai ele... De um Rio de Janeiro tão distante dos americanenses ou paulistanos... à casa de um velho tio, tão pesado que jamais se imagina ir, dentro dos 40 graus da cidade e “vive a murmurar/só a ti Copacabana eu hei de amar”. Táxi tomado, desapoitam da Lapa à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sem tugir ou mugir, por entre suores, bufos e spalanzanis: navegantes!

A criança que em qualquer um nunca morre, desce do táxi com olhos brilhantes, ao sol sem ver as sombras dos oitis, mulheres, biquínis, a adivinhar princesinhas ou putinhas; na praia, areias murmuram, esperando a longa caminhada pelo avenidão de portugueses ladrilhos, a imaginar o aluguel da cabine: vestir o calção e mergulhar num mar gelado de esperança e luz...

Mas, o cansaço do tio, arfando e com a camisa toda ensopada, chega-se:

- Está vendo este prédio?

- Sim, responde Moro (por todas as crianças), aflito.

- Pois é, daqui até o fim é tudo igual, vam’bora!

E o táxi, nem bem faz a curva, passageiros retomam o trajeto melancólico ao Jardim de Alah.


Caetano Lagrasta, livre-inspirado em “Alameda das Sombras”, de Marcelo Moro (Ed. Scenarium, 2016), no Carnaval de 2017.







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