sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Tales of Tales, por Caetano Lagrasta





O que faz a cabeça do lidador do Direito funcionar?

Seria só a injustiça? Pensada ou imaginada... e só.

Sem esquecer o que Tales Castelo Branco sempre enfatiza: tem ainda que ser com “arte e ofício”, o verdadeiro exercício da Advocacia. E neste liceu de artes e ofícios vai ele a lembrar além das angústias e percalços o de colocar-se cada um em seu lugar (até mesmo na mesa de audiências) e nunca deixar esmorecer a educação e o tratamento que a todos é devido.

Lógico que, no diário, especialmente desde os idos e lidas em alguma das ditaduras que infestaram e infestam o país, colocou os abusados e abusos judiciais e militares em seus devidos lugares.

Quando, depois de mais, ou menos, 50 anos a serviço da Justiça, encontramos um tanto de minha memória no livro do Tales Castelo Branco; juro, tenho vontade de recomeçar. E parece que meu filho ouviu tal perjúrio e assim como ele, eu também não consegui parar e fui obrigado, gostosamente, a voltar a aprender, neste início, de Advocacia a obedecer. Mas, onde estava mesmo? Ah, nos tales of Tales.

Lindeza, desde o começo, pegar e manusear, cheirar e dedilhar obra e papel nem de vulto, nem de peso, obra singela na paginação jornalística da Migalhas. O primeiro sentir é da memorabilia, sem estranhamentos, desde os ouvidos desassinados (lastimavelmente traduzidos pela tradição como orelhas – orelhas que nada ouvem, mas que, por impressionadas, contam) e a perpassar por introduções de dois amigos consumados: o Antônio Cláudio e o José Carlos Dias, o elogio sem jaça e sem pedido de licença, verdadeiras escavações de jazida, a desenterrar essa preciosa vida de jurista.

E, para primeiro susto, a origem cearense, de onde emerge das angústias e arrepios do Sertão, quando nada, Rachel de Queiroz e seu “O Quinze” - ops, e já estou eu a perder-me de novo – por entre sóis inclementes e gado morto, além de algumas crianças, óbvio – a gente nordestina esmigalhada e humilhada que, nem por isso, acaba por dar vulto às injustiças e a fazer honra à torrente de memória na dignidade do jurista.

Se nos fosse dar tamanho e compostura, faríamos a análise ponto a ponto, capítulo a capítulo, como pretendiam cronistas ou críticos, bem velhinhos, por demais formalistas e parnasianos, mas a tanto não irá me ajudar engenho e arte, poupando os leitores destes garranchos de uma viagem monótona e sem lustro.

Nesta alegria passarinheira de encontro com o jurista e amigo, sem trocas de confetes ou serpentinas, meu espírito de burguês paulistano, não há que não mencionar Mário, o de Andrade, eis que desde há muito Tales aqui pontifica e pontificou, para lembrar que a vida do Advogado dedicado à face Penal da atividade humana, em momento algum se escapa de ser Poeta ou homem da Literatura.

Nada a assustar, pois que a lide criminal está envolta nos maiores mistérios da injustiça, da Arte e ... – não se assustem – do sentimento e da dor. Assim, cito o Poeta, pois ridículo seria estar a citar o próprio Autor e a encher estas páginas de verdades já escritas:

O defeito da arte é mesmo transportar os maiores horrores da humanidade e da Terra pra um plano hedonístico, tão contemplativo e necessariamente diletante, que a gente está chorando na leitura e não sofre nada.

Dizer de suas lutas, tristezas, vitórias ou desencantos seria repicar nos críticos ou resenhistas de feira ou feriado. O que se pretende e incentiva é a leitura desse resumo de uma vida de Advogado, sempre dedicado ao combate das injustiças e dos julgamentos arrevesados que só a vesguice das ditaduras e dos maus juízes ou dos golpistas de plantão permitem, impor sofrimento maior a um povo de há muito desvalido.

O maior mérito dos tales do Tales reside na capacidade de indignação, maior dos apanágios de qualquer dos lidadores do Direito, mas que é a marca a ferro e fogo do Advogado criminalista, ainda especialmente nestes dias que correm.

Meu melhor abraço a você, Tales Castelo Branco, homem de ao menos dois séculos.

Caetano Lagrasta Neto

Caetano Lagrasta Neto é jornalista, juiz, escritor; colunista da Revista Plural, colaborador do Tempestade Urbana,  advogado, mediador e árbitro das Câmaras da CIESP/FIESP e CAMITAL.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

ESPERANÇA... por Nida del Guerra Ferioli





Linda palavra... No idioma italiano diz-se speranza, do latim sperantia. Seja em que língua for, o fato é: o que nos interessa é ter sempre esperança.

Sim! E não importa se somos jovens, estamos na meia idade ou já somos anciães, devemos manter nossa esperança.

Ela nasce no início de uma atividade esportiva, artística ou literária quando procuramos fazer o melhor, e está na pessoa de meia idade que labutou muito na vida: a esperança em dias melhores, com mais possibilidades financeiras, sonhos de belas viagens; grandes aberturas na carreira. Nós que chegamos a ser avós e bisavós a encontramos nessas criaturinhas crescendo e nos dando muitas alegrias.

Viver com esperança ao chegar aos 18, aos 40... mais um dia, mais um e ultrapassamos os 90 anos, com a enorme satisfação de já ter vivido a grande alegria de ver netos formados e realizados.

Agora é a vez de assistir minhas bisnetas conquistando seu espaço nesta linda jornada chamada vida. Elas também terão suas batalhas e delas sairão vitoriosas para se tornar adultos realizados e muito felizes.

Este o nosso augúrio – a grande esperança de (e em) nós todos neste próximo 2017 – que tudo se realize...


Beijos, Nida.


NIDA DEL GUERRA FERIOLI (95) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014); 

Professora de italiano; Autora do livro “Vivendo a Vida”. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

OITO PERGUNTAS A PENAS, com ANA ELISA RIBEIRO

Foto de Rafael F. Carvalho


Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte, nascida em 1975. É bacharel e licenciada em Letras, com mestrado e doutorado em estudos linguísticos pela UFMG. Atua como professora e pesquisadora do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais há mais de dez anos. Publica livros há mais de duas décadas. Entre seus volumes literários mais recentes estão: "Anzol de pescar infernos" (poesia, SP, Patuá, 2013, semifinalista do prêmio Portugal Telecom), "Meus segredos com Capitu" (crônica, Natal, Jovens Escribas, 2013, semifinalista do prêmio Portugal Telecom), "Xadrez" (poesia, BH, Scriptum, 2015), "Beijo, boa sorte" (contos, Natal, Jovens Escribas, 2015) e "Por um triz" (poesia juvenil, BH, Editora RHJ, 2016). Em 2016, produziu e encenou a performance literário-musical "Só, com anzóis", juntamente com a poeta Adriane Garcia e o músico Paulo Sérgio Thomaz, no Sesc Palladium, em Belo Horizonte. Junto com o poeta Bruno Brum, é curadora da coleção Leve um Livro, que distribui livros gratuitos de poetas contemporâneos em Belo Horizonte, com apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Seu texto inédito "Álbum" acaba de ganhar o Prêmio Cidade de Manaus, de âmbito nacional, na categoria Poesia. 


entre livros da coleção Leve um Livro, em sua casa, foto de Rafael F. Carvalho

Um poema de Ana Elisa Ribeiro apresentado em performance do SESC,
ainda não publicado em livro:

DA ESCRITORA

Já a metade
da minha vida
passei nesta lida

com letras,
papel, projeto,
poemas, falida.

Já a metade,
conforme contei
outro dia.

E prestes já
a contar
mais da metade,
em breve,

estimando,
quem sabe,
que, ao cabo,
pareça
ter sido
leve.


performance no Sesc - foto de Clarisse Antunes
autografando no lançamento do livro juvenil Por um triz - foto de Rafael F. Carvalho


BAP1: O seu relacionamento com a literatura é antigo. Quando a poesia bateu à sua porta?

Ana Elisa Ribeiro: Meu relacionamento com a literatura é antigo e forte. Mesmo quando eu tento me safar dela, ela me chama de volta. Tenho 41 anos e mais da metade deles foi vivida às voltas com textos literários, publicações, eventos, etc. Muita persistência, não? E resistência. Comecei cedo, escrevendo só para mim, na máquina de datilografar emprestada pelo meu pai. Eu devia ter uns 15 anos. Publiquei pela primeira vez ali pelos 19, em um zine - Vitamina Rock - produzido por jornalistas de BH que eu não conhecia pessoalmente. Um deles é o Wagner Merije, escritor e agitador. Então veja que não sei viver de outro modo. O resto é a trajetória custosa de quem escreve, publica, é mulher... nesta seara, de quem lida com mudanças sociais e mercadológicas, etc. Então conto aí mais de vinte anos de atividade, por isso fico tão irritada quando me tratam como "jovem", "iniciante", "novos". Mas fazer o quê? 

BAP2: A experiência de professora e pesquisadora exerce algum tipo de influência na sua obra literária? Como é esta relação?

AE: Não sei se exerce. Minha produção literária é anterior à minha vida de professora e pesquisadora. Além disso, corri da literatura como área de estudo. Sou linguista aplicada. Minha praia acadêmica é completamente outra. Nem dá pra levar livros literários nos congressos de que participo. É um malabarismo conciliar as duas coisas. Mas dá certo. Um pouquinho de sensação de vida dupla, mas é disso que eu gosto. Fui fazer Letras na universidade por motivos diferentes. Não era pra ser escritora. Ser escritor nunca dependeu disso. Minha vida de professora, se eu pensar bem, sufoca um pouco minha vida de escritora. No entanto, esta é sustentada por aquela, em larga medida. Eu morreria de fome como escritora. Mas o preço é alto para conseguir fazer as duas coisas. Normalmente, a gente trabalha em condições meio precárias e sem reconhecimento - até na família há quem torça o nariz, machistas de plantão, especialmente entre as mulheres, etc. Então é tarefa que não acaba mais, tarefa que come tempo. O tempo de escrever fica parecendo um luxo ou um favor. Às vezes é até mal visto. Tipo: "essa mulher está meio à toa. Tá até publicando poesia!" Não foi apenas uma vez que ouvi coisas do tipo: "Onde você arranja tempo para escrever poesia?" ou "Ah, você estava descansando então!". Era pra dar raiva, mas me dá só um cansaço meio preguiçoso. Escritor não é um lance levado a sério por estas bandas. Imagina escritora?

BAP3: Fale do seu primeiro livro. O que motivou a escrevê-lo? Como você o vê hoje?

AE: Meu primeiro livro chama-se "Poesinha". É um volume bege e laranja, pequeno, publicado em 1997, na coleção Poesia Orbital, na comemoração dos 100 anos de Belo Horizonte, cidade onde nasci e onde provavelmente morrerei. Eu tinha 21 ou 22 anos. Foi um convite de uma amiga, na época irmã de um namorado. Ela é jornalista e poeta, a Luciana Tonelli. Foi uma interlocutora fantástica. Eu quis participar, tive o apoio financeiro do meu pai (que não curte literatura), pedi ajuda à minha então professora de literatura Myriam Ávila para a seleção dos poemas. Eu tinha centenas deles esperando para serem xingados, mexidos, elogiados. Myriam foi atenciosa, generosa e entregou os poemas para a mãe dela, a Laís Corrêa de Araújo, uma poeta mineira importantíssima. Eu não tinha a menor noção disso. A Laís é que selecionou, mandou uma cartinha comentando cada texto. Eu obedeci, na maioria dos casos. E publiquei. Foi legal estar naquela coleção, ter alguma visibilidade. Acabei conhecendo muita gente por causa disso. Mas ainda estávamos longe da existência das redes sociais e da internet rotineira. Depois fui publicando, encorpando as coisas, participando da vida literária de BH, à minha maneira.

BAP4: Como surgiu a ideia da coleção Leve um Livro? Quais serão os próximos passos?

AE: A coleção Leve um Livro é um projeto de dois curadores: eu e Bruno Brum. Ele é poeta mineiro, mas mora em São Paulo há alguns anos. Quando sentamos para conversar sobre a L1L, ele ainda morava aqui, agitava, editava. Bruno ficava incomodado com esse lance de "poesia não vende" ou "não gosto de poesia". Ele achava - e ainda acha - que as pessoas não curtem poesia porque têm poucas oportunidades de conhecê-la. Daí pensamos em livros para distribuir de graça pela cidade. Não é um projeto escolar, nem com público fechado. É um projeto aberto, poesia na livraria e no café, mas também na rodoviária, na estação do metrô, no Uai (nosso Poupa Tempo). Então entramos no edital do fundo de cultura da Prefeitura de BH e aprovamos o primeiro ano. Executamos com sucesso o Leve um Livro 2014-2015. Entramos de novo para a segunda temporada. Aprovados. Estamos finalizando a execução 2016. E entramos de novo, tudo ao mesmo tempo agora, para 2017. Aprovamos. Já estamos na gráfica com os primeiros meses do ano que vem. É muito trabalhoso, demora a ser reconhecido, mas o resultado tem sido muito legal. Tem burocracia pra caramba, muito risco, mas vamos finalizar. Não entramos novamente em editais. Estou cansada. Mas ainda temos algumas ideias para pensar. O projeto, contando as três temporadas, terá distribuído, em dezembro de 2017, 180 mil livros de poesia contemporânea, de 73 autores diferentes (eu e Bruno fizemos um livro duplo). O próximo passo é recuperar o fôlego.

BAP5: Livros didádicos Versus literários. Relações e/ou realizações diferentes?

AE: Não cheguei a escrever propriamente livros didáticos. Até comecei um projeto, em 2000, mas não deu certo porque a Saraiva comprou a editora Formato, na época, e desistiu dos projetos em andamento. Dancei nessa. Escrevi livros paradidáticos, já que têm sido usados como apoio ao ensino. É o caso de "Com H ou sem H", em parceria com a Zoé Rios (editora RHJ) e de "O e-mail de Caminha" (RHJ, 2014), que as escolas têm adotado quando tratam da Carta de Caminha. Outros livros que publiquei são técnico-científicos, isto é, relatam pesquisas e contribuem para a formação de professores. É isso. Faz parte da minha carreira acadêmica. Realizações diferentes, certamente, mas eu quis e quero muito as duas. Meu tesão é escrever.

BAP6: Qual dos seus poemas é o mais autobiográfico?

AE: Difícil dizer... a maioria deles pode ser autobiográfico e não ser. Há sempre muita performance no que está ali. Não foi exatamente daquele jeito, mas é preciso parecer que sim. E começo a me preocupar mais com as palavras para que o poema exista, e menos com o que está dito. Poemas de traição geralmente são verdade. Quem nunca? Bom, talvez este, à página 46 do meu livro de 2015, o "Xadrez", pela editora mineira Scriptum, seja o mais profundamente biográfico:

Meu pai

Eu já quis ser como você
quando eu crescesse.
Eu não fui. Eu fui outra.

Eu fui, ainda assim,
muito de você:
o que eu escolhi
e o que eu não pude controlar.

O resto é puro amor.

BAP7: Concursos de Poesia, Contos e Crônicas. Você, que venceu concursos literários, o que aconselharia a quem tem esta aspiração?

AE: Não venci tantos concursos e nem participei deles em profusão. Deixo editais passarem, tenho preguiça da burocracia, fico sem tempo para preparar o material, fico sem material inédito suficiente,  etc. Depois do zine Vitamina Rock, venci um concurso de uma rádio e do jornal Estado de Minas, quando tinha 19 anos. É claro que isso dá um gás na gente. Depois não participei de muita coisa. Nunca acho que minha poesia, minha voz, minha dicção são de ganhar prêmios. Tem um lance incômodo ou pouco alinhado à poesia que ganha prêmios. Acho um investimento meio ingrato ficar com expectativas em premiações, embora elas devam existir e sejam importantes. Há muitas pessoas que ganharam visibilidade - além da grana - depois de prêmios. Prefiro correr atrás de publicar, como sempre fiz. Devo ter concorrido no prêmio do governo do estado de Minas Gerais uma vez e talvez outra no Cidade de Belo Horizonte. O "Xadrez", ainda sem esse nome, estava em algum deles, não ganhou, então publiquei. Teve várias resenhas, foi bacana. Fui júri de prêmios várias vezes, isso me deixa ainda mais consciente do que precisa rolar para alguém ganhar. É um mecanismo complexo e sério, na maioria das vezes. E tem esse lance dos tipos de concurso: alguns são para obras inéditas e outros são para livros publicados. No Brasil, temos de tudo. Meus livros "Anzol de pescar infernos" (poesia, Patuá, 2013) e o "Meus segredos com Capitu" (crônica, Jovens Escribas, 2013) ficaram como semifinalistas do prêmio Portugal Telecom (hoje, Oceanos) ao mesmo tempo. Foi ótimo. Mas é diferente. A editora faz a inscrição, a gente fica à espera de algum reconhecimento, seja isso o que for. Depois "O e-mail de Caminha" ganhou um selo do acervo básico da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - a FNLIJ -, que é bem importante. Agora um inédito meu ganhou o prêmio Cidade de Manaus, na categoria poesia. Chama-se "Álbum" e vou ver ainda o que fazer com ele. É um livro em que mudei de dicção para atender ao projeto delicado de falar de fotografia. Adorei fazer. Estava pronto, quando pintou o edital do concurso. Mandei brasa. E deu certo. É claro que isso me deixa feliz, mas ainda há um longo trajeto para a publicação e o ciclo desse livro, que pode dar com os burros n'água, sempre. Há concursos respeitados, como o Jabuti, no qual nunca entrei. A taxa de inscrição é meio cara e acho um absurdo o autor ter de arcar, mesmo quando tem editora. Tudo bem que as editoras costumam ser pequenas e não têm muitos recursos, mas é chato, especialmente se a edição for bancada pelo autor também. E depois, quando vejo os resultados, sempre penso que fiz bem em ficar quieta. Dar conselhos é inútil. O que posso dizer pra quem está realmente começando... é que trabalhe muito. Trabalhe, faça, publique (hoje tá fácil). Conheça gente, mas não seja oportunista. Leia muito. Informe-se sobre o que está rolando hoje, mas tenha o bom senso de conhecer o passado, no cenário. Não entre em modinhas, se quiser ter vida longa na literatura. Mas trabalhe. Se for menina, trabalhe em dobro e resista.

BAP8: Caminhos da Educação no Brasil. Além da ordem política, o que deveria mudar, na sua opinião?

AE: Educação é um negócio muito amplo. Se estamos falando de escola, há muito o que melhorar mesmo, a começar por entendermos que esse espaço deveria ser público, gratuito e bom para todos, ricos e pobres. Nosso problema não é só o pobre ter uma escola ruim. É o rico não entender que a escola pública também deve ser dele. Cheguei a viver a época das boas escolas públicas municipais e estaduais. Era um orgulho estudar em uma delas. Mas não eram tão acessíveis quanto são hoje. Infelizmente, as coisas se resolvem de um lado, e se ferram de outro. Meu filho precisa estudar na mesma escola que o filho da faxineira e do grande empresário. Mas ainda não sacamos como isso pode funcionar. Somos um país preconceituoso, excludente, segregador, onde distinguir-se é bonito. Quanto à forma como a escola funciona, temos outro problema. Tempos fragmentados, conhecimento fragmentado, incomunicação, pais/mães que acham que escola é um lugar neutro, divino, mitológico. Enfim... escola é lugar de discussão, de debate, de ideias, de diversidade. Mas não dá... já fui demitida por adotar Paulo Leminski na sétima série, em escola privada. A gente vai desistindo... A formação de professores precisa ser melhor, mas também as condições de trabalho, o salário, os tempos de capacitação. Um mestrado muda MUITO a cabeça de um profissional do ensino. Há dezenas de prefeituras e estados que proíbem professor de estudar. Capacitação... só se for na marra e na pobreza. E não é falta de projeto do governo federal (pelo menos do anterior...). As pessoas precisam pagar contas, e muito mais do que isso. Enquanto acharem que escola tem de funcionar só na missão e no amor, me desculpe, mas não tenho paciência. Você precisa de uma sala equipada, de computadores, de uma banda larga decente, de um gabinete onde atuar nas suas orientações, com seus alunos, de uma sala de aula arrumada, de um auditório legal onde levar convidados e conhecimento para dentro dos muros da escola. Não tenho nada disso, por exemplo, e trabalho em uma escola pública de destaque. Meu ódio diário precisa ser controlado. Há um discurso sobre cultura que é pura maquiagem. Nem vou comentar... Difícil, não? É nadar contra a maré o tempo todo. E depois ainda me perguntam pra que serve a poesia... pra sobreviver, ora! Enfim, só escolhi coisas difíceis, não? Rá! Haja bom humor. 




__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli