terça-feira, 22 de novembro de 2016

POKER CARDS ON FIRE

Impressões:
Damas de Espadas & Valetes de Ouro - Memórias Embaralhadas
por Adriana Aneli




Pois é disto que se trata em Damas de Espadas & Valetes de Ouro: instantâneos do cotidiano, independentes, mas que parecem encadeados, como capítulos de uma história ainda mais densa que vai ganhando detalhes e personagens à medida que se desenvolve. Mas é uma viagem que não acaba.”
Luiz Vita & Lurdinha Garibaldi

Cinco dias de férias. Escolhi praia. Porque em férias de azarado sempre chove, pensei logo em carteado. Não jogo cartas. Coloquei na mala um livro de contos do baralho.

A experiência de Leonel Prata (2009) se repete em 2016 no coletivo Damas de Espadas & Valetes de Ouro – Memórias Embaralhadas (Ed. MGuarnieri). Pelo apurado projeto gráfico de Marcílio Godoi – que assina também a carta-capa – escritores e ilustradores desfilam em catorze pares.

Também o destino atuou na composição das duplas artísticas: as damas e os valetes se encontraram por sorteio... Alea jacta est!

Um fio condutor compõe cada página: espectros de memória nada inocentes, lembranças do corpo e da sexualidade primitiva. Os naipes não são sempre os mesmos. Há histórias sobre a crueza da vida, outras de sensualidade mortal, o amor, a alegria desencontrada.

Da caneta aguda de Adriane Garcia nascem homens e mulheres disfarçados de esperança e é assim que se escapam (escapamos) deste sem-saída-país que nos habita. Na sujeira e na beleza que ela nos conta, a vertigem se completa nos traços generosos e futuristas de Rômulo Garcia.

A próxima a dar as cartas é Denise Ribeiro e é aí que o coração dispara entre o nostálgico e a modernidade, entre as possibilidades de... e o peso imenso do nunca, este agigantado no meio da sala. É Negreiros quem esfuma os contos de riso e, no momento seguinte, os preenche de solidão.

A rodada é de Líria Porto, poemas que transformam cassino em cabaré; com Jean Galvão, a dama canta e rodopia seu humor, a saliva quente, o hálito de uísque – traços tão familiares quanto a lírica da autora.

E porque o Brasil é uma festa, chega Maria Balé com sua prosa diamantada, decidida a criar outro jogo dentro do jogo. Ela blefa. Seus personagens nunca são o que parecem ser (ou vice-versa?). Mas como tem coisa que só se aprende jogando, Paulo Caruso paga a aposta, pleno de cumplicidade.

Marilena Montanari e Michele Iacocca escolhem cuidadosamente as cartas de abertura: a memória aqui muda de velocidade para que os adversários não prevejam suas jogadas. Com eles, desfrutamos da infância, da vida adulta, da terceira idade, com a condescendência do olhar bem humorado sobre a vida. Amém.

O clima se adensa com Suzana Montoro e Henrique Montanari. Somos avisados em abismos de ideias e maquiagem borrada: a vida é um jogo de ganha e perde, mais desencontros que encontros... Não à toa nos deparamos com o desenho da carpa da página 77: a longevidade, a coragem, resistência... a perseverança.

E se é preciso persistir, a prosa articulada de Vivina de Assis Viana e as charges singulares de Orlando Pedroso são motivo para continuar por estas páginas. Da história que Vivina não apagou – para minha sorte – guardo: “Essa noite eu tive um sonho muito bom, tinha um defeito: era mentira”. Amanhã, como todos os dias vou sonhar mentiras, “acordar às cinco. Acordar não, ser acordada. Deus ajuda quem cedo madruga”. É. Na verdade, isso dói – por sorte, ainda sobraram alguns dias de férias.

(Não, não teve um só dia de chuva nesta semana. Equilibro meu livro enquanto tomo água de coco. Não se levanta da mesa com cartas boas nas mãos e, por isso, trago o livro à praia comigo).

A vez é de Antonio Barreto e Silvana de Menezes... Com eles, mergulho numa simbiose. É curioso ver como a memória cotidiana de Barreto ganha intensa afetividade nos traços de Silvana... Isolados funcionam muito bem; somados, multiplicam-se em significâncias.

Na memória afetiva permaneço: conflitos de Jacques Fux e desenhos macios de Luiza Nasser confessam um passado que tanto amedronta quanto enternece. As descobertas.

Sequência real: João Anzanello Carrascoza e Cristina Arruda - sutileza, delicadeza, sensualidade, generosidade, compreensão. Melancólico mar e suas ondas: a palavra sede, a fome, nossa primeira morte.

É Jorge Nagao quem corta as cartas para Tereza Yamashita distribuir suas alegrias: o resultado é a adrenalina de poéticos-trocadilhos que é tão Jorge (e que eu adoro, Salve!) e de frenéticos cupidos, riscos, rabiscos que é a digital de Tereza no coração da gente.

Hora de por ordem na mesa! E chega Leonel Prata - organizador e um dos valetes de ouro - que vai logo puxando cadeira, chamando pro jogo, sem firulas ou preciosismos literários. É mesmo uma delícia bater papo com o autor, enquanto o instantâneo da história vai se revelando, camada após camada, no apurado processo de interpretação da ilustradora Erica Mituzani.

A dupla Luiz Bras e Natalia Forcat é sensorial: dá gosto de ler e vontade de tocar os desenhos lambuzados pela memória do autor: “Eu estou apaixonado, cara mas também estou muita assustado”.  Quem disse que ler não vicia?

Mas todo o fim tem seu começo e Marcílio Godoi chama sua dama Juliana Cordaro para fechar com chave de ouro – ou de espada. E a gente mesmo se absolve de todos os pecados que deixamos de viver e que bem que viveríamos se nos fosse dada a chance de voltar um pouco no tempo.

É isto: em memórias embaralhadas não há truques; as cartas estão todas na mesa. O momento é tenso – aos leitores cabe a decisão de jogar ou desistir. Eu arrisquei e li até o fim. Ganhei.

Adriana Aneli
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Damas de Espadas & Valetes de Ouro - Memórias Embaralhadas pode ser adquirido na Livraria Cultura ou direto com seu organizador Leonel Prata.


8 comentários:

  1. Deliciosa resenha, como nos tomando pela mão. Obrigado pelo carinho do seu olhar.

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    1. Seu trabalho neste livro é genial, Marcílio. Para além dos textos, todo o trabalho cuidadoso e criativo página após página... da "carta-capa" às minibiografias. Amei!

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  2. gracias! adorei ter participado do projeto - no começo, quando vi que só eu escrevera versos, fiquei meio numa saia justa, depois relaxei, todos sabem que não escrevo prosa, pelo menos ainda não... ler tua resenha foi outro presente! besos!

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    1. ... sua poesia deixou ainda mais interessante a leitura do livro: primeiro porque é esta sua assinatura e também porque prosa e poesia são um par lindo neste jogo.

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  3. Que resenha mais criativa. Mais uma jogadora para a mesa. Uma às da competência e da generosidade. Meu Abraço e carinho sempre, Aneli, querida. Gostei de ter ido com você para as férias.

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    1. <3 não poderia imaginar melhor companhia para as férias: acertei em cheio na escolha do livro. Seus textos são incríveis, Dri... e inquietantes.

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  4. Adriana,
    Sabe de uma coisa? Você lê muito melhor do que eu escrevo...
    Beijos

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    1. ... modestamente, né, Vivina? seu texto é que é aconchego!

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