sábado, 19 de novembro de 2016

Alameda das sombras, o novo livro de Marcelo Moro

  


Antes do gosto Demi-Seco



“A liberdade literária é filha da liberdade política. Eis-nos libertos da velha forma social; e como não nos libertaríamos da velha forma poética? A um novo povo, uma nova arte”
...
” E lá vou eu andando na neblina, feliz

Victor Hugo... e Paulo Vanzolini

Marcelo Moro é um poeta romântico. Trabalha com a matéria dos sonhos: a energia interior do eu, o absoluto, o homem real em confronto com a sociedade. Mas isso não torna ultrapassada a poesia de quem tem o domínio da lírica, a difícil tarefa de domar tendências, para trazer, em forma de versos, o que gritam em grafites os muros e a música dos morros:

Ainda não gastei todos os meus adjetivos 
Nem fumei todas as coisas quanto queria 
Amei e me quebrei em mil pedaços
Quebra-cabeças jogado em um abismo 
...que, olhando bem:
Não passa dos joelhos... 
de um gigante caolho qualquer

Me feriram com pedras de funda 
...devolvi sopro etílico e fósforo riscado!

É este o fogo da boemia em seu livro. Promessas de amor que nunca se cumprem e, ainda assim, mantém aquecido o coração de um poeta forjado nas noites frias do fim do mundo. Ele sabe – nós sabemos – que entre a criação e a crise de uma vida que se nega a realizar, somente a paixão nos salva:

Estava fazendo cem anos
Quando te conheci
E te convidei para valsar comigo

Em sua Alameda, o eu lírico não deixa de dar as mãos ao ser real que o cria, essencialmente político...  Personagens reais e imaginários se encaram, velhos conhecidos, e sentam-se à mesa de um bar.  Há uma atmosfera de luz e de sombra, que percorre todo o livro; uma lua que nunca se acanha ao pairar sobre poemas e copos vazios; um velho Buk que discorre palavras sábias ao gentílico americanense que – apenas – sente. 

Há um trajeto a percorrer em seu livro. este homem que se despede da própria nostalgia para, despido de si e à mercê de gostos e gozos,  ganhar o mundo. Talvez, até, arrepender-se:

A tristeza exata do outono 
em minhas barbas brancas

Neste ensaio de dias e noites, o tédio é paz e a saudade traz a semente do recomeço:

E virá aquela chata semana... sem sal
Depois do Natal e antes das ondas...
dos beijos e de Iemanjá
Antes do gosto Demi-Seco
...enquanto não se começa
de novo e de novo!

Quem caminha por esta travessia descobre, não poucas, as musas que inspiram o olhar do poeta. Misto de anjos e prostitutas, chegam-se todas ao seu jardim, desde a Cortesã do meu coração/...que aceita todas as pagas em leite e mel” até aquela que “Conserva seu medo e seu sopro.../ E, quando passeia em meus jardins/Faz meus pensamentos... sujos!”.

Eu reconheço todas elas: máscaras sobrepostas ao rosto do escritor. Na poesia, tudo é a arena em que se colhem almas. E fica apenas quem sabe jogar.

Pelas alamedas de Moro, passeia minha alma pagã... “Me instiga o seu silêncio,
A forma de deslizar pelos azulejos da minha alma/ Essa ousadia de estar em cada gole de café...

Apfelstrudel... e café!”

(Esse vício tem nome...  e sobrenome)

Amém!


Adriana Aneli

...

Alameda das sombras é da Ed. Scenarium.



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