sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Todas as sextas - o livro de Paola Carosella por Caetano Lagrasta




Confissões ao pé da lenha quente

                                                                                                                    

Pois, acreditem, é o primeiro livro de gastronomia que me emocionou, para lá da cozinha e dos sabores de minha infância.

Entramos, minha esposa e eu, no Arturito (que seria T’ula – fogo de lenha, em quíchua), por algum palpite ou leitura, nos primórdios desta década, e sentimos que daquele sobradinho, transformado num jardim aconchegante – cuja luz demora-se a descobrir de onde estaria vindo –, chega-se ao salão, numa parada obrigatória, todas as vezes, no balcão ou cadeiras do bar, para indefectíveis gins-tônicas, com sementes de zimbrio. Sempre voltamos a naufragar nestes e nos mexilhões, de entrada, até que numa dessas pedi ao garçom que sondasse o chef (e ia eu lá saber que não tinha) se poderia aproveitar o maravilhoso molho para envolver espaguetes. Temeridade que só hoje tenho ideia, do tamanho, mas que o consegui, todas as vezes.

Não frequento restaurantes assiduamente, muito menos os da moda (salvo se convidado); não leio colunas de gastronomia e chego aos lugares por alguma iluminação bíblica ou do estômago e, quando o satisfaço e me sinto com indisfarçável alegria dos almoços de domingo na memória ou em que hoje estou; volto e volto, enquanto a moeda ajudar, mas, é verdade, já faz algum tempo que não como mexilhões, ainda que persista na luta a favor dos gins-tônicas.

Carosella não esconde nestas páginas seus melhores sentimentos e desejos, tensões e tesões, além, por óbvio, das paixões e despedidas, até a chegada de Francesca, quando se afirma: mãe e acena com fechar cortinas para... bem, melhor não fazer prognósticos. Não consegue esconder que é uma falsa-tímida, aluna disciplinada de academia militar-gastronômica, e que, desde sua ida a Nova York, arrasta por países e restaurantes as malas sempre prontas para voltar ou seguir em frente. Fã, confessa, do aïoli, das altas temperaturas dos fornos, lenhas e fogões de seis bocas e de seus amores, não esconde aquele profundo de sua mãe e avós, mas, sem perder a ternura ao narrar a despedida de seu pai.

Carosella escreve as receitas com o coração entre as mãos e o despeja, gota a gota, em nossa memória a fazer com que as receitas pareçam – mesmo quando o não são – simples, o que permite que nos reconheçamos como “cozinheiros” (os mais afoitos: “chefs”) a sobrenadar ingredientes e receitas entre o cérebro e o paladar.

Os taralli, a straciatella ou a zuppa inglese de Mimina tem a lembrança aproximada do sabor daqueles de Lucia, Ida, Chiara ou Nida e com as quais também aprendi a amar a cozinha, seus objetos, os fornecedores e a usar os sentidos para que a receita tenha os melhores ingredientes ou o melhor cozimento (como o do polvo). Galinhas ‘de vida digna’; água e vinho “não para cozinhar”, mas as que utilizamos para cozer ou para beber.
Teria mais, muito mais, mas se me permitem os fados, quero destacar duas frases de sua sentida e gentil apresentação:

“Comer é um ato político. Somente sabendo de onde vem a nossa comida, como ela é feita e o impacto que causa na nossa sociedade é que poderemos ser agentes ativos, de algum tipo de mudança. ”  É uma.

“Minha história é cheia de rachaduras. E foi olhando para elas, mergulhando na profundidade delas, que me defini como a pessoa que sou hoje, e a que eu gosto de ser.”  Duas.


Se me alongasse na escrita, esta seria um verbete e não uma breve resenha, sem que se olvide a Carosella dos agradecimentos, em especial ao fotógrafo Jason Lowe.

Caetano Lagrasta

2 comentários:

  1. Que linda resenha! É dessas que dão água na boca só de imaginar como deve ser bom degustar as páginas do livro, uma por uma. Parabéns ao autor e a toda a equipe do Boca!

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  2. linda resenha! Quero muito ler o livro!

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