segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A construção da primavera, de Adriana Aneli - impressões de Chris Herrmann



Segunda-feira de outono em Duisburgo. Chego à tarde do trabalho, cansada. Abro a caixa do correio e vejo um envelope pardo, cheio de selos... 'é do Brasil', pensei. E era! Da Adriana Aneli. Na pressa de abrir, quase rasgo tudo, que susto. Mas o susto bom vem depois: é o novo livro dela. E, de repente, é primavera nos meus olhos!

Diário das 4 Estações - A Construção da Primavera, de Adriana Aneli tem cheiro e gosto de poesia, mas é um diário...   A poesia já começa na edição leve, criativa e de grande beleza estética, trabalho esmerado da editora-artesã Lunna Guedes, da Scenarium Livros Artesanais.

Começo a folhear, pensando em voltar a ler em outro momento, com calma. Engano.  Quem começa a lê-lo não quer parar. Não, eu não paro, eu me agarro em todas as estações e paradas para suspirar...

Inverno de céu cinzento, chuva, mendigos, vendedores de bala (nesta passagem, entra um ciscão no meu olho!), ruas atropeladas. Sombras. Medo: um tigre branco - gostei do nome. Flores de inverno: "Uma adolescente fotografa a planta com admiração: inverno acinzentado, ainda assim sabe florir." Como não amar este inverno?

primavera começa com flores brancas, mas também com enxaqueca... calor intenso, eclosão de cigarras. E eu procurando meu cigarro sem largar a leitura! Pássaros famintos, mariposa gigante... ah, a borboleta que desenha a primavera também não faltou: "A bússola solar da monarca pulsa." E meus olhos também pulsam, famintos pela nova estação.

Verão vermelho. Campanha de doação de sangue em São Paulo. Desde seus 18 anos, Adriana doa sangue duas vezes por ano. Eu já sabia disso, mas seu diário me conta essa e outras lembranças - como a compra de um realejo (que, por coincidência, eu também comprei um aqui na Alemanha, só que para meu trabalho de musicoterapia com idosos) como se sua voz me abraçasse, assim, sem mais nem menos: "Começo a girar a pequena manivela, enquanto múltiplos pininhos colocados à mão fazem soltar, um a um, o som do fole, enchendo a sala de música".

Outono de sustos e histórias marcantes. Um frio estranho. Tragédias nas ruas. Reflexões do dia-a-dia marcado pela injustiça social. Lembranças do passado. Amigos que se vão. O tempo que insiste em passar. O pacto: "ele passa, eu me conformo."


Fiquei mais rica ao sorver as estações de poesia deste diário. Meus olhos sempre se lembrarão desta construção da primavera em minha pele, ainda que meu corpo se outone.

Chris Herrmann

Nenhum comentário:

Postar um comentário