terça-feira, 2 de agosto de 2016

OITO PERGUNTAS A PENAS com MARIA BALÉ



Segunda filha, entre os sete irmãos, Maria Balé nasceu de parteira na fazenda dos seus pais, na Serra da Mantiqueira, Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo. E lá, entre montanhas, araucárias, pomares, cães, gatos e galinhas, viveu a sua primeira infância. Aos sete anos, mudaram-se para o vilarejo e, aos dez, para a cidade grande para que tivesse acesso às boas escolas. De sua mãe, católica e que amava ler a Bíblia, herdou a afeição pelos livros. Com ela, aprendeu as primeiras letras desenhando traços no fogão de taipa, com nacos de carvão resfriado. Mas não herdou a devoção religiosa nem a crença na existência do Deus arcaico que ela idolatrava. Por ser boa aluna, aos dez anos, ganhou de presente de um vizinho o livro Alice no País das Maravilhas, em formato de quadrinhos. O que despertou nela o afeto pela escrita e a paixão pelos devaneios. Em segredo, criava suas histórias que arquivava nas pastas imaginárias, as quais ainda preserva. E vem daí o seu acervo de cadernos onde, desde quando aprendeu a ler, registrou a sua visão de mundo e os seus sentimentos segundo o Universo que a tange. Entrou na universidade aos 17 anos, no ano de 1976. Nos anos oitenta, voltou para o banco da escola. Fez pós graduação em Comunicação Corporativa na PUC/SP, estudou Fotografia, fez curso de roteiro de cinema no extinto Espaço Unibanco de Cinema, curadoria de Di Moretti. Há três anos, fez curso de extensão na disciplina Diálogos entre Filosofia, Cinema e Humanidades, na PUC/SP, curadoria do Prof. Cassiano Terra.
Prêmio Acesc de Literatura, em São Paulo, por quatro edições. Prêmio Acesc de Fotografia, em São Paulo, por duas edições. Integrante da Antologia Damas de Ouro & Valetes Espada, Um e Dois (Mguarnieri), Sobre Lagartas e Borboletas (Tubap/Scenarium) e da antologia Hiperconexões, Realidade Expandida (Patuá). Contos publicados na Germina, Mallarmargens, Boca a Penas e Diversos Afins.

Prêmio ASESC de Literatura

 
ANIVERSÁRIO

Ainda 
com a placenta 
nas mãos  
punhos marciais
olhos de crepúsculo 
e voz de feitor
a mãe diz:

É dada a luz 
Agora vá!
Nascer é todo dia.

MB




SEGREDO

Quando vais parar com esses delírios? E com as roupas rasgadas. E com essa cara suada. E com esses olhos esbugalhados. Vocifera, sem tirar os olhos do buraco da agulha que escapa às investidas do lambido fio de linha branca.

Indiferente à eletricidade da mãe, ao sumiço do botão da blusa e ao espinho encravado nos pés sujos, a menina ofega sobre o sapo com asas, a formiga vestida de noiva, a lesma bailarina e a aranha com olhos azuis.

Da idade, contemporiza o pai. Poeta, segreda-lhe o avô.

MB


Prêmio de fotografia


BAP1:  Quando e como nasceu seu interesse pela literatura? O que a move a escrever?

Maria Balé: Penso que, mais que interesse, é um afeto, um sentimento profundo pela literatura que vem desde a primeira infância, um tempo em que ainda se preservava a tradição da oralidade, de contar “causos” nas reuniões de família e amigos. Desde pequena, antes mesmo de ir pra escola, eu me encantava com as histórias que contavam os adultos. Eu sabia, melhor, eu intuía, que eram inventadas. Justo por isso, eu ficava fascinada. 

BAP2: Como você situa a sua escrita?

MB: Não penso em situar minha escrita. Eu escrevo a partir da necessidade de salvamento da vida, essa vida concreta que me é insuficiente. A rotina nos imputa ações mecânicas e repetitivas. Preciso exercitar o voo, ainda que siga pisando em terra firme. 

BAP3:  Fale sobre o processo de criação dos seus personagens.

MB: Eu escrevo a partir de um fato. Guardo a ocorrência, insólita ou insossa, na minha memória, com o propósito de, em algum momento, usar a realidade como a ossatura de um conto. A partir do esqueleto, vou preenchendo com as vísceras, o músculos e a pele de uma história inventada. Literatura, pra mim, é como um corpo que se veste de para uma plateia.

BAP4: Como você vê a representação do feminino e a mulher no contexto da poesia atual?

MB: Eu sou avessa a qualquer fronteira de identidade. Ainda mais,  quando se trata de arte. Na arte da escrita, desconsidero solenemente a distinção de gêneros. Como leitora, se aprecio a obra, eu nem me lembro do sexo de quem escreveu. Como escritora, o que mais me fascina é o desafio do deslocamento. Tenho muitos contos escritos na primeira pessoa do sexo masculino. Nisso, reconheço claramente a minha afeição pela essência do humano, o Homem-espécie, com seus encantos e suas purulências, é o que me interessa. 

BAP5: Quais os projetos atuais e planos para o futuro?

MB: Minha paixão pela escrita equipara-se à minha paixão pela Fotografia.  Meu projeto para o futuro próximo é concluir um livro de contos de minha autoria, em vista de que, até agora, só tenho publicações em obras coletivas, e voltar à escola de Fotografia. Minha formação é para Fotografia Analógica, fotos em película, que é o que gosto. Porém, infelizmente, minhas 3 câmeras de APS estão desativadas por falta de material no mercado.  Preciso vencer minha resistência, quebrar preconceitos contra a arte por meio da tecnologia e me adaptar às digitais.

BAP6: O que a torna uma boa escritora e o que a torna boa leitora?

MB: Não cabe a mim propriamente me definir como boa escritora. O que posso afirmar é que eu sou atenta ao mundo que me tange, procuro estar sempre em alguma oficina literária, em contato com escritores e obras recentes, sem fechar os clássicos, é claro.  E não abro mão dos meus cadernos de anotações. Escrevo todos os dias, ainda que seja um recado ou um desaforo. Quanto a me considerar boa leitora, credito à minha verve de curiosa, no sentido de que sou viciada no pensamento alheio. Pra mim, a ideia do outro funciona como ferramenta de lapidação da minha visão de mundo. 

BAP7: O urbano e o rural na obra de Maria Balé.

MB: Como eu disse acima, sobre as fronteiras de gênero, o que me sustenta como escritora é o humano, como essência. E, como essência, o externo não interfere na minha escrita. Os sentimentos desconhecem geografia.

BAP8: Maria Balé por Maria Balé.

MB: Maria Balé é arredia. Seu cérebro não tem estrutura que comporte religião, ideologia, tampouco.  





___
Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Adriana Aneli e Caetano Lagrasta





Nenhum comentário:

Postar um comentário