quarta-feira, 31 de agosto de 2016

OITO PERGUNTAS A PENAS com LÍRIA PORTO




líria porto - nasci em araguari, minas gerais, em outubro de 1.945. segunda filha de joão ferreira arantes e mundina mundim porto, tive oito irmãos. aprendi a ler sozinha, antes dos cinco anos, o que deixou meus pais desesperados, só se podia frequentar escolas a partir dos sete anos de idade. a sorte foi haver na cidade um jardim de infância, no externato santa terezinha, onde fui matriculada. minha atração pelas letras, palavras, livros, começou muito cedo. estudei depois no colégio sagrado coração de jesus, de freiras, até completar os cursos normal e de contabilidade - ia à escola pela manhã e à noite, participava de movimentos literários e estudantis. concursada, fui professora primária por um período relativamente curto. casei-me em 1967, mudei-me para belo horizonte e lá vivi por mais de quatro décadas. tive quatro filhas, passei a cuidar das crianças, deixei de lecionar. e lia muito. o brasil vivia o período da ditadura militar, engajei-me no movimento pela redemocratização do país, filiei-me ao pdt, de leonel brizola, e participei dos movimentos tortura nunca mais, diretas já, contra as privatizações. atualmente sou filiada ao pt. só no final da década de noventa retornei à escrita e de lá para cá escrevo todos os dias. tenho dois livros publicados em portugal (borboleta desfolhada e de lua), dois publicados no brasil pela editora lê ( asa de passarinho e garimpo - finalista do prêmio jabuti). tenho outros livros preparados para publicação, entre os quais cadela prateada, publicado recentemente pela editora penalux. participei de diversas antologias, entre elas dedo de moça e memórias embaralhadas. sou autora do blogue tanto mar e participo de vários sites e revistas na internet, como germina literatura e escritoras suicidas. mudei-me para araxá - interior de minas - em 2011. tenho dois netos - maria luiza e francisco. 




entre cético e sádico

talvez o céu dos cachorros
seja o inferno dos gatos

e o céu lá dos bichanos
o inferno dos passarinhos

e o céu dos passarinhos
o inferno dos insetos

e o céu dos mosquitinhos
talvez dos vermes também

seja o corpo putrefato
que acredita no céu

e purga céu e inferno
no mesmo fato

LP 


BAP1: Sua fascinação pelas letras começou cedo. Como foi o processo de aprender a ler sozinha? Você se lembra de algum detalhe pitoresco?

Líria Porto: minha mãe lavava a casa, forrava o cimento com jornais, eu ficava lá, encantada com aquelas marcas pretas, diferentes umas das outras, perguntava o que significavam para meus pais, para os tios, aos primos, quem passasse... e havia um rádio general eletric – telefunkem, as letras na fachada da caixa de madeira e as perguntas insistentes, não demorou, conhecia todas as letras – descobri que podia unir vogais e consoantes, havia sentido em juntá-las, formar as palavras! aos cinco anos era capaz de ler as placas com nomes de ruas, propagandas, manchetes de jornal, de entender muita coisa! lia sem escrever, a escrita veio a partir da escola...

BAP2: Brasil dos anos 60 em plena Ditadura Militar. Você participava dos movimentos estudantis. Como isso influenciou (e tem influenciado) sua poesia?

LP: participei do movimento estudantil na adolescência, meados da década de 50, início de 60. não havia televisão, internet,  ia muito ao cinema. e tinha os livros – mais que a política nacional, a influência era das leituras, das aulas de português – havia bons professores, a biblioteca do colégio. sou filha de comerciante, em casa não havia livros além dos escolares. o golpe militar, no começo, para mim, numa pequena cidade no interior de minas gerais, era algo distante, só depois, quando me mudei em 67 para belo horizonte, entendi melhor o que acontecia. houve conhecidos do tempo do colégio, os mais atuantes nos grêmios literários, um pouco mais velhos que eu, que precisaram deixar o país. a injustiça, as desigualdades sociais continuam a me mobilizar, sempre foi assim, não consigo desvincular a escrita, ou qualquer outra atividade, da política.

BAP3: Como você vê toda esta explosão da literatura contemporânea depois do advento da internet? Como fica a balança de pós & contras, na sua opinião?

LP: penso que a internet possibilitou meu retorno à escrita. a troca e o contato com quem também escreve acabou por se tornar um estímulo! vejo com bons olhos tanta gente se aventurar por esta seara! claro, há de tudo, escritores excelentes, bons, medianos e até medíocres, mesmo assim acho válida a possibilidade que as pessoas têm de se comunicar por meio da escrita!

BAP4: Quando foi que você começou a escrever com mais consciência do seu talento? Quando e como nasceu seu primeiro livro?

LP: sou insegura com relação à minha produção literária, acho que há bons e maus momentos, preocupo-me em alcançar a forma e a consistência necessária a quem se propõe ser lido, nem sempre consigo.  acredito que isso aconteça à maioria dos escritores, jamais nos sentir prontos. o primeiro livro surgiu pelo contato de um editor português, vítor vicente, da editora canto escuro – perguntou se poderia me publicar em livro, fez a escolha dos textos em meu blogue – ele próprio escolheu o título do livro também –  borboleta desfolhada – publicou-o em 2009 e veio ao brasil, a belo horizonte, trazendo os exemplares para o lançamento.

BAP5: A leitura e a escrita foram companhias constantes em sua vida. Quais foram os livros e autores que mais influenciaram a Líria Porto Poeta?

LP: garota ainda, uns doze, treze anos, fugia para a casa do vizinho, dr. adhemar ferreira, para ler sua antologia de poetas portugueses – lá conheci sonetos de bocage, o belíssimo poema o melro de guerra junqueiro, poemas de camões, de fernando pessoa – como vês, comecei bem! achava aquele o maior espetáculo do planeta! no colégio, um episódio engraçadíssimo – todas as meninas já com os livros na biblioteca e eu à procura de algo – a professora me interpela, respondi, ainda não havia encontrado os  lusíadas – e ela, brava – és muito pequena para ler camões! claro, somos todos pequenos para ler camões! tenho um poema sobre isso:



camões para depois



quis ler os lusíadas

a freira lhe disse – impossível menina

não vais entender patavina



(quem poda uma planta

molda-a à sua imagem

e semelhança)


além dos poetas portugueses, drummond, bandeira, joão cabral quintana, cora, adélia, leminski, lorca, brecht, maiakovsky, enfim, todos os que de alguma forma influenciaram os poetas contemporâneos.

BAP6: Literatura no Brasil em época de crise. Além da internet, os saraus têm sido uma boa alternativa para divulgar literatura e vender livros? Editoras alternativas são o caminho? Como você vê o quadro atual?

LP: não entendo de mercado, a poesia sempre foi um produto pouco consumido, porém acredito que, de forma geral, os brasileiros têm lido mais. moro no interior, não frequento saraus, também não sei declamar poemas – para quem gosta e participa, acho válido!

BAP7: Quando você começou a escrever para crianças? Como tem sido a resposta? Há um bom mercado para a literatura infantil no Brasil?

LP: nunca escrevi para crianças, nem para qualquer público específico – apenas escrevo versos. quando me disseram que poderia, entre meus poemas, haver a possibilidade de selecionar alguns infantis e publicar, fiquei alegre! continuo a afirmar, nada sei sobre a venda de livros  – acredito que haja mesmo muitos pequenos leitores, as escolas particulares têm se empenhado nisso e o governo federal democrático dos últimos anos adquiriu bom material literário para as escolas públicas.

BAP8: Literatura erótica. Ainda há muito preconceito no Brasil? O que você aconselharia para os escritores e poetas novatos que desejam trilhar por esta via?

LP: a poesia erótica não é fácil, pode resvalar para o pornográfico, para o vulgar – faz-se necessário ter a medida, o ponto! aconselhar alguém? não o faria, no entanto percebo, quanto mais se lê, melhor se escreve. outros autores são fonte de inspiração e aperfeiçoamento.



__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Abece... de Caetano Lagrasta

Abecedário - contos - Caetano Lagrasta
Ilustração: João Baptista da Costa Aguiar


O que pretende fazer? perguntei.
Tentarei ver se a terra tem algo a me ensinar. respondeu.
Não precisa. Você carrega seus mortos, seus dias e suas noites, seus amores e traições; isto o perturba, pois a tudo aprendeu. Não lhe adiantou morrer.”
(H:  amers, marcas marinhas)



Encontrei Abecedário nos arquivos de Caetano Lagrasta. Antes, não passava de honraria pendurada no escritório em que eu lia “Prêmio Governador de Estado, 1967”. Abri a caixa, folha por folha... e li. Coleciono raridades, e encontrei mais esta; páginas que encapsularam o Tempo.

No Abecedário nada é por acaso; o autor não poupa leitores e personagens da angústia ou da humilhação.

A mesquinha realidade diária como cenário, homens e mulheres esmagados pela falta de perspectiva...  Cidade, máquinas, repartições públicas, a vida familiar, tudo pesa sobre eles, com o incômodo da alma que se agiganta e ainda assim deve permanecer em roupas e sapatos herdados dos irmãos mais velhos.

Em cada conto, a sensação de fim de domingo, quando a tardinha cai e o juiz apita o fim da partida: a engrenagem recomeça a triturar os homens. A custo, chegaremos novamente à sexta-feira – ... a noite passa tão depressa, mas vou voltar lá  pra semana.

Escrito nos anos 60, aos 23 anos de idade, cinquenta anos depois o livro nos deixa a certeza de que décadas e décadas não consolam dores humanas.

No Abecedário, amanhã é sempre segunda-feira.


Adriana Aneli



L A N Ç A M E N T O
Editora Scenarium
27 | 08 | 16, 16h
Biblioteca Mário de Andrade
Rua da Consolação, 94 - Consolação
Centro, SP

terça-feira, 2 de agosto de 2016

OITO PERGUNTAS A PENAS com MARIA BALÉ



Segunda filha, entre os sete irmãos, Maria Balé nasceu de parteira na fazenda dos seus pais, na Serra da Mantiqueira, Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo. E lá, entre montanhas, araucárias, pomares, cães, gatos e galinhas, viveu a sua primeira infância. Aos sete anos, mudaram-se para o vilarejo e, aos dez, para a cidade grande para que tivesse acesso às boas escolas. De sua mãe, católica e que amava ler a Bíblia, herdou a afeição pelos livros. Com ela, aprendeu as primeiras letras desenhando traços no fogão de taipa, com nacos de carvão resfriado. Mas não herdou a devoção religiosa nem a crença na existência do Deus arcaico que ela idolatrava. Por ser boa aluna, aos dez anos, ganhou de presente de um vizinho o livro Alice no País das Maravilhas, em formato de quadrinhos. O que despertou nela o afeto pela escrita e a paixão pelos devaneios. Em segredo, criava suas histórias que arquivava nas pastas imaginárias, as quais ainda preserva. E vem daí o seu acervo de cadernos onde, desde quando aprendeu a ler, registrou a sua visão de mundo e os seus sentimentos segundo o Universo que a tange. Entrou na universidade aos 17 anos, no ano de 1976. Nos anos oitenta, voltou para o banco da escola. Fez pós graduação em Comunicação Corporativa na PUC/SP, estudou Fotografia, fez curso de roteiro de cinema no extinto Espaço Unibanco de Cinema, curadoria de Di Moretti. Há três anos, fez curso de extensão na disciplina Diálogos entre Filosofia, Cinema e Humanidades, na PUC/SP, curadoria do Prof. Cassiano Terra.
Prêmio Acesc de Literatura, em São Paulo, por quatro edições. Prêmio Acesc de Fotografia, em São Paulo, por duas edições. Integrante da Antologia Damas de Ouro & Valetes Espada, Um e Dois (Mguarnieri), Sobre Lagartas e Borboletas (Tubap/Scenarium) e da antologia Hiperconexões, Realidade Expandida (Patuá). Contos publicados na Germina, Mallarmargens, Boca a Penas e Diversos Afins.

Prêmio ASESC de Literatura

 
ANIVERSÁRIO

Ainda 
com a placenta 
nas mãos  
punhos marciais
olhos de crepúsculo 
e voz de feitor
a mãe diz:

É dada a luz 
Agora vá!
Nascer é todo dia.

MB




SEGREDO

Quando vais parar com esses delírios? E com as roupas rasgadas. E com essa cara suada. E com esses olhos esbugalhados. Vocifera, sem tirar os olhos do buraco da agulha que escapa às investidas do lambido fio de linha branca.

Indiferente à eletricidade da mãe, ao sumiço do botão da blusa e ao espinho encravado nos pés sujos, a menina ofega sobre o sapo com asas, a formiga vestida de noiva, a lesma bailarina e a aranha com olhos azuis.

Da idade, contemporiza o pai. Poeta, segreda-lhe o avô.

MB


Prêmio de fotografia


BAP1:  Quando e como nasceu seu interesse pela literatura? O que a move a escrever?

Maria Balé: Penso que, mais que interesse, é um afeto, um sentimento profundo pela literatura que vem desde a primeira infância, um tempo em que ainda se preservava a tradição da oralidade, de contar “causos” nas reuniões de família e amigos. Desde pequena, antes mesmo de ir pra escola, eu me encantava com as histórias que contavam os adultos. Eu sabia, melhor, eu intuía, que eram inventadas. Justo por isso, eu ficava fascinada. 

BAP2: Como você situa a sua escrita?

MB: Não penso em situar minha escrita. Eu escrevo a partir da necessidade de salvamento da vida, essa vida concreta que me é insuficiente. A rotina nos imputa ações mecânicas e repetitivas. Preciso exercitar o voo, ainda que siga pisando em terra firme. 

BAP3:  Fale sobre o processo de criação dos seus personagens.

MB: Eu escrevo a partir de um fato. Guardo a ocorrência, insólita ou insossa, na minha memória, com o propósito de, em algum momento, usar a realidade como a ossatura de um conto. A partir do esqueleto, vou preenchendo com as vísceras, o músculos e a pele de uma história inventada. Literatura, pra mim, é como um corpo que se veste de para uma plateia.

BAP4: Como você vê a representação do feminino e a mulher no contexto da poesia atual?

MB: Eu sou avessa a qualquer fronteira de identidade. Ainda mais,  quando se trata de arte. Na arte da escrita, desconsidero solenemente a distinção de gêneros. Como leitora, se aprecio a obra, eu nem me lembro do sexo de quem escreveu. Como escritora, o que mais me fascina é o desafio do deslocamento. Tenho muitos contos escritos na primeira pessoa do sexo masculino. Nisso, reconheço claramente a minha afeição pela essência do humano, o Homem-espécie, com seus encantos e suas purulências, é o que me interessa. 

BAP5: Quais os projetos atuais e planos para o futuro?

MB: Minha paixão pela escrita equipara-se à minha paixão pela Fotografia.  Meu projeto para o futuro próximo é concluir um livro de contos de minha autoria, em vista de que, até agora, só tenho publicações em obras coletivas, e voltar à escola de Fotografia. Minha formação é para Fotografia Analógica, fotos em película, que é o que gosto. Porém, infelizmente, minhas 3 câmeras de APS estão desativadas por falta de material no mercado.  Preciso vencer minha resistência, quebrar preconceitos contra a arte por meio da tecnologia e me adaptar às digitais.

BAP6: O que a torna uma boa escritora e o que a torna boa leitora?

MB: Não cabe a mim propriamente me definir como boa escritora. O que posso afirmar é que eu sou atenta ao mundo que me tange, procuro estar sempre em alguma oficina literária, em contato com escritores e obras recentes, sem fechar os clássicos, é claro.  E não abro mão dos meus cadernos de anotações. Escrevo todos os dias, ainda que seja um recado ou um desaforo. Quanto a me considerar boa leitora, credito à minha verve de curiosa, no sentido de que sou viciada no pensamento alheio. Pra mim, a ideia do outro funciona como ferramenta de lapidação da minha visão de mundo. 

BAP7: O urbano e o rural na obra de Maria Balé.

MB: Como eu disse acima, sobre as fronteiras de gênero, o que me sustenta como escritora é o humano, como essência. E, como essência, o externo não interfere na minha escrita. Os sentimentos desconhecem geografia.

BAP8: Maria Balé por Maria Balé.

MB: Maria Balé é arredia. Seu cérebro não tem estrutura que comporte religião, ideologia, tampouco.  





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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Adriana Aneli e Caetano Lagrasta