segunda-feira, 2 de maio de 2016

OITO PERGUNTAS APENAS com RICARDO ALEIXO

[Foto por Timo Berger]


Ricardo Aleixo nasceu em Belo Horizonte, onde vive, em 1960. Publicou entre outros, os livros Impossível como nunca ter tido um rosto (2015), Mundo palavreado (2013), Modelos vivos (2010 - finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti 2011) e A roda do mundo (em parceria com Edimilson de Almeida Pereira, 2004 e 1996). Em solos ou  espetáculos e performances da Cia. SeráQuê? e do Combo de Artes Afins Bananeira-ciência, já se apresentou na França (2015 e 2005), na Alemanha (2013, 2012 e 2003), no México (2013), na Espanha (2011), na Argentina (2007 e 2000), nos EUA (2007) e em Portugal (2004). Tem poemas e ensaios publicados em diversos jornais e revistas brasileiros, como Inimigo rumor, Medusa, Oroboro, Suplemento Literário de Minas Gerais, cadernos "Mais!" da Folha de S. Paulo, "Pensar", do Estado de Minas, e "Pensar", do Correio Brasiliense, Zunái, Errática, Modo de usar & Co. e outros. Integra diversas antologias, coletâneas e edições especiais de publicações culturais dedicadas à poesia brasileira contemporânea na França, nos EUA, no País de Gales, na Argentina, no México, em Portugal e na Austrália. Desde 2007 concentra suas atividades de criação e pesquisa no LIRA (Laboratório Interartes Ricardo Aleixo). Como artista visual e sonoro, montou as individuais Re/prospectiva (Belo Horizonte, 2015) e Objetos suspeitos (Belo Horizonte, Mariana e Rio de Janeiro, 1999) e participou de diversas mostras coletivas, como Fotografia transversa (Porto Alegre, 2014), Gil 70 (Brasília, 2013, Rio de Janeiro e São Paulo, 2012), Bola na rede (Brasília, 2013), Poética expositiva (Rio de Janeiro, 2011), Radiovisual - Em torno de 4'33 - (Bienal do Mercosul, Porto Alegre, 2009), Poiesis < Poema entre pixel e programa > (Rio de Janeiro, 2007), Visões espanholas - poéticas brasileiras (Brasília, 2006) e Portuñol/portunhol (Buenos Aires, 2004). Foi curador da Bienal Internacional de Poesia de Belo Horizonte (1998), da ZIP/Zona de Invenção Poesia & (2011, 2006 e 2005) e do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte/FAN (2012-11, 2006-5, 2003 e 1995). Foi professor de Design Sonoro na universidade Fumec entre 2006 e 2011. Na web, encontram-se entrevistas e trabalhos de sua autoria nos links:




  Conheço vocês pelo cheiro

Conheço vocês
pelo cheiro,

pelas roupas,
pelos carros,

pelos aneis e,
é claro,

por seu amor
ao dinheiro.

Por seu amor
ao dinheiro

que algum
ancestral remoto

lhes deixou
como herança.

Conheço vocês
pelo cheiro.

Conheço vocês
pelo cheiro
e pelos cifrões
que adornam

esses olhos que
mal piscam

por seu amor
ao dinheiro.

Por seu amor
ao dinheiro

e a tudo que
nega a vida:

o hospício, a
cela, a fronteira.

Conheço vocês
pelo cheiro.

Conheço vocês
pelo cheiro

de peste e horror
que espalham

por onde andam
– conheço-os

por seu amor
ao dinheiro.

Por seu amo
ao dinheiro,

deus é um
pai tão sacana

que cobra por
seus milagres.

Conheço vocês
pelo cheiro.

Conheço vocês
pelo cheiro

mal disfarçado
de enxofre

que gruda em
tudo que tocam

por seu amor
ao dinheiro.

Por seu amor
ao dinheiro,

é com ódio
que replicam

ao riso, ao gozo,
à poesia.

Conheço vocês
pelo cheiro.

Conheço vocês
pelo cheiro.

Cheiro um e
cheirei todos

vocês que só
sobrevivem

por seu amor
ao dinheiro.

Por seu amor
ao dinheiro,

fazem até das
próprias filhas

moeda forte,
ouro puro.

Conheço vocês
pelo cheiro.

Conheço vocês
pelo cheiro

de cadáver
putrefato que,

no entanto,
ainda caminha

por seu amor
ao dinheiro.

[do livro Impossível como nunca ter tido um rosto, de 2015]


BAP1: A Poesia é um "explode coração" ou um constante exercício de consciência?

Ricardo Aleixo: Um constante e por vezes explosivo exercício de consciência.

BAP2: Movimentos literários são necessários para o Autor criar?

RA: Não. Criar é o único movimento necessário. Criar-se. Recriar-se. Movimentos importam para ajudar a conhecer o já feito.

BAP3: Sobre os novos saraus dos grandes centros urbanos: fórmula antiga ou um novo caminho?

RA: Fórmula antiga que pode, eventualmente, apontar novos caminhos. Como não sou um frequentador assíduo, só posso esperar que algo novo aconteça.

BAP4: Como performador que integra campos diversos da arte (poesia, música, artes fotográficas, etc.), quais as dificuldades e alegrias que você tem encontrado?

RA: As dificuldades são as mesmas com que se depara quem quer que deseje realizar algo relevante num país destroçado política economicamente. As alegrias advêm da minha capacidade de seguir tentando, a despeito das adversidades que enfrento todo o tempo. Uma delas: haver gente interessada no que faço. Considero isso quase um milagre.

BAP5: O fim do livro está próximo, ou a editoria artesanal será a solução?

RA: O livro está morrendo desde que surgiu. Edições artesanais existirão sempre, da mesma forma como sempre surgirão novos dispositivos tecnológicos de leitura.

BAP6: Fale sobre o seu último livro de poemas “Impossível como nunca ter tido um rosto“. Como tem sido a reação dos leitores que você tem conhecimento?

RA: O "Impossível como nunca ter tido um rosto" vai fazendo uma história muito bonita, sobretudo se levarmos em conta o fato de que se trata de uma edição de autor, a respeito da qual pouco se falou, mesmo nos jornais da minha cidade, por ocasião do lançamento, em novembro passado. Além de um número significativo de exemplares vendidos, tenho obtido um bom retorno crítico. Começo, agora, a viajar pelo Brasil para divulgá-lo nas cidades onde já conto com leitores assíduos.

BAP7: Como você situa a arte negra no Brasil e como tem sido sua participação neste cenário?

RA: "Arte negra" é um conceito operacional, não um campo formal e finalisticanente definido. Nesse sentido, meu papel tem sido o de tentar tensionar ao máximo tanto o conceito de "arte negra" quanto o de "arte brasileira".

BAP8: Conte-nos um pouco sobre a Feira de Inutensílios: como surgiu e quais as surpresas reservadas aos visitantes.

RA: A Feira é uma tentativa de escapar do limbo a que me vejo lançado numa cidade em que a arte e a cultura são vistos, ainda, de forma cartorial, elitista e excludente. Como não sou de reclamar, mas de botar a mão na massa, inventei de fazer um evento mensal, aberto ao público, no terreiro da minha casa, onde mostro as criações mais recentes e recebo convidados para também mostrarem seus trabalhos. Tem dado certo, principalmente porque, com a crise por que passa o país, as pessoas têm sentido maior necessidade de encontros presenciais, cara a cara, olho no olho. Já na próxima edição lançaremos uma série de produtos criados no meu ateliê: camisetas, ou "poemisetas", mandalas, colares e muita coisa mais.






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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Adriana Aneli e Caetano Lagrasta