sexta-feira, 29 de abril de 2016

ABORRESCÊNCIA


Sinônimo de aborrecimentos, de incompreensões, teimosias e outros tantos epítetos que fazemos questão de acrescentar quando falamos do adolescente... Precisamos compreendê-los.

Será que todos nós não exageramos e valorizamos apenas os tais “defeitos” deste ciclo de vida, quando na verdade são seres lindos, desabrochando para a vida adulta?

Temos, ao invés de criticá-los, refletir sobre o nosso papel junto aos adolescentes, tão queridos, mas que, muitas e muitas vezes, levam-nos ao limite da nossa paciência. Difícil? Muito difícil.

O que me surpreende, nesta longa jornada, é que eu já enfrentei o mesmo problema: como mãe, depois como avó, agora, como bisavó. Falo com toda sinceridade: ainda não havia experimentado tantas preocupações. A vida passava tranquilamente, impondo pequenos contratempos.

Mas os anos passaram velozmente e agora, chegando em 2016, eu me pergunto: por que todos nós damos este aspecto tão pejorativo à abençoada adolescência? Por que como mãe e avó, abordei com mais serenidade os mesmos problemas?

Passei horas, dias talvez, raciocinando com calma sobre o assunto e eu Nida, modestamente, cheguei a (minha) conclusão: será que os jovenzinhos de outrora tinham mais tempo para assistir aulas de civilidade, cuja disciplina nos colégios era chamada de Educação Moral e Cívica?

Acredito que era muito eficiente para a complementação do caráter dos nossos jovens. Eles tinham ali um apoio.

Seria tão proveitoso para os adolescentes intercalarem o uso desta, sem dúvida, maravilhosa ferramenta da tecnologia moderna, com momentos de reflexão. Para além do estudo, tempo para pensar, refletir e então crescer lindamente, externa e internamente, mostrando aos adultos toda a alegria da juventude. Então, creio, não seriam mais chamados de “aborrescentes”.

Esses são os meus pensamentos para todos os adolescentes que, por acaso, lerem este meu despretensioso artigo, que dedico, em particular, à minha bisneta adolescente Thais.

Obrigada por lerem meu artigo!


Nida














NIDA DEL GUERRA FERIOLI (94) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014); 
Professora de italiano; Autora do livro “Vivendo a Vida”. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

OITO PERGUNTAS A PENAS com ALVARO POSSELT

[ foto por Paulo Andrade ]

Alvaro Posselt é poeta e professor de português. Nasceu em Curitiba/PR (02/12/1971). Tem 4 livros publicados: Tão breve quanto a agora, Um lugar chamado instante, Entre arranhões e lambidas e Kaki. Seus haicais estão expostos em um mural na Travessa da Lapa, Centro de Curitiba, e também estão nas embalagens de Poëse, novo sorvete da franquia Los Paleteros. Faz voluntariamente oficinas de haicai em escolas públicas. Contato: alvaroposselt@yahoo.com.br 



Viver, eu suponho,
é chicotear a realidade
montado no sonho
*
Moro num lugar sem nome
onde vivem os poetas
*
De vez em quando o chão some
e se misturam as setas
*
A gente nunca erra
quando faz da paz
nossa arma de guerra


BAP1: Quando e como nasceu seu interesse pela arte do haicai? O que o move a escrevê-lo?

Alvaro Posselt: Conheci o haicai em 2003 na Oficina permanente de poesia, da Biblioteca Pública do Paraná. De início, aprendi que era um poema de 3 versos e 17 sílabas poéticas, e assim fui fazendo meus tercetos. O que me atraiu foi a sua forma breve. Não sabia mais que isso. Fui conhecer melhor o haicai com o haijin José Marins. Então entrei para a faculdade no curso de Letras e fiz meu TCC sobre o haicai. Daí em diante, fui aprendendo mais e mais, conhecendo estilos. Comecei a fazer oficinas. Meu primeiro livro saiu em 2012.
O que me atrai no haicai é o que está fora dos 3 versos. Estamos sempre aprendendo quando praticamos o haicai, pois a sua fonte é a natureza

BAP2: Conte um pouco sobre as suas oficinas de haicais. Como tem sido a reação dos alunos?

AP: Comecei a fazer oficinas ainda no estágio da faculdade. Hoje faço voluntariamente em escolas públicas ou onde pintar a oportunidade. Já fiz em cafés, bibliotecas, livrarias e até em bosque. O haicai tem um efeito imediato, e a produção dos alunos me surpreende muito. Fazemos murais ou varais, às vezes concurso. Muitos seguem com a prática. Enfim, é um resultado que me deixa muito feliz. O brilho nos olhos dos alunos é mais que uma fortuna para mim!
 
BAP3: Qual a temática de seu último livro, Kaki, e o que mais o inspirou a escrevê-lo?
 
AP: O caqui é uma fruta que veio do Japão, assim como o haicai. Este é um trabalho que mescla principalmente o estilo tradicional e o guilhermino. Eu adoro a forma criada pelo Guilherme de Almeida. É um desafio e tanto. A maioria dos poemas está relacionada com os temas das estações. Também tem senryu e os haigatos. O livro é inspirado em elementos da cultura japonesa. A capa contém um origami do caqui e ela faz uma referência à bandeira do Japão. As ilustrações ficaram por conta do Edson Takeuti, e o prefácio é do José Marins.

BAP4: Publicar livros de haicais no Brasil tem boa recepção por parte dos leitores?

AP: O Brasil só perde para o Japão na prática do haicai. As escolas estudam o haicai. Essa forma poética vem crescendo tanto em praticantes quanto em leitores. O que está deixando o haicai popular é a divulgação em redes sociais. Ouvi dizer que é a forma poética mais praticada no país. Num mundo em que a pressa toma conta, o haicai é uma pílula que chega no tamanho e na dose certa com sua instantaneidade. Mas tudo isso não se reflete da mesma forma quando falamos de livro. Nas prateleiras, o haicai ainda não se consagrou. Esse problema acontece com a poesia de modo geral. Somos engolidos pelas grandes editoras e as livrarias não nos dão muita atenção.
Eu sigo um caminho alternativo, sou independente. Participo de feiras de livros, visito escolas, vendo meus livros nas redes sociais. A recepção é muito boa. Estou semeando meu trabalho! 

BAP5: O que você aconselharia aos poetas que aspiram tornar-se haicaístas?

AP:  Primeiramente estudar o haicai, saber diferenciar os estilos, conhecer autores, ler bons autores, principalmente os ícones. Depois vem a disciplina, a observação, a prática. Por fim, fazer como disse Basho, aprenda as regras e depois as esqueça!

BAP6: Haijin e professor de português. Um influencia o outro? Em que ordem?

AP: Nos dois casos, precisa-se de disciplina, estudo, aprendizado. Nunca vou saber de tudo nas duas áreas, por isso a busca é permanente. A relação entre as partes acontece quando brinco com a linguagem, mas em se tratando de haicai tradicional, aparece o lado professor quando tenho de escrever e observar as regras gramaticais!

BAP7: Entre os haijins japoneses, quais merecem seu destaque? Quais lhe serviram de inspiração e aprendizado? Temos bons haijins brasileiros na atualidade?

AP: Os japoneses são grandes inspirações. Eu gosto muito do humor do Issa, ele fazia poemas de cenas banais e sublimes. Teve uma vida muito difícil, sofreu muito, mesmo assim sua marca é a irreverência e a ironia. No Brasil temos grandes haijins. Moro em Curitiba e considero o Paraná um berço do haicai. Temos muitos representantes: Helena Kolody, Leminski, Alice Ruiz, José Marins, Domingos Pellegrini, Miguel Sanches Neto, Marília Kubota.

BAP8: Haicai fora dos livros. Como tem sido a experiência de exercitá-lo em outros projetos?

AP: O haicai pode estar em qualquer lugar! Tenho os meus pintados em um muro no Centro de Curitiba, impressos nas embalagens de Poëse, novo sorvete da franquia Los Paleteros, nas edições do jornal BOLO – Projeto Ler e Pensar do Instituto GRPCOM. Também há projetos para aparecerem em vitrines de shopping, embalagens de café, pacotes de pão, livretos com distribuição gratuita.
Essa experiência é uma grande conquista pessoal, mas gosto de pensar também que é uma conquista da poesia. Meu grande desejo é espalhar poesia pelo mundo, fazer da minha cidade a capital da poesia, passar meu conhecimento nas escolas e despertar novos artistas.

Meu muito obrigado pela oportunidade! Um abraço a todos.  


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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Adriana Aneli e Caetano Lagrasta