quarta-feira, 30 de março de 2016

Um feliz desaniversário, pra ti, pra mim!



Hoje, dia 02 de março de 2016, eu completo 95 anos e digo aos meus amigos e familiares que me proponho a exercitar com afinco aquilo que eu considero o mais importante, isto é: ser humilde.

Vocês dirão: mas que novidade é esta? Qual é o seu propósito, Nida?

Explico: desde quando completei 90 anos, tenho sido muito elogiada e acarinhada. Isto, confesso, deixa-me muitíssimo feliz. Existe sempre um “porém” ; eis que, analisando o meu eu, comecei a sentir-me “orgulhosa e plena no meu jeito de ser”. Mas – e lá vem o mas – Deus com toda a sua bondade mostrou a mim a minha fragilidade física e espiritual dando-me um grande susto neste 2016, que não só abalou a minha saúde, mas também a minha alma.

Foi então que eu disse a mim mesma: acorda criatura, seja sempre quem você é e foi. Esta senhora que chegou aos 95 anos porque Deus quer e, por isso, você deve se esforçar para continuar vivendo satisfatoriamente.

Esses pensamentos me tranquilizaram, reforçando em mim a necessidade de ser humilde.

Agradeço sempre aos meus queridos leitores e termino pedindo que, além de exercitarmos a humildade, nós possamos reconhecer o mérito do outro, valorizando na medida certa e com humildade aquilo e quem nos rodeia.

Isto, eu acredito, nos proporcionará uma vida mais tranquila e feliz!

Nida.




#rumoaos100anos



sexta-feira, 4 de março de 2016

OITO PERGUNTAS A PENAS com ANSELMO VASCONCELLOS




Anselmo Vasconcellos, carioca, é um artista libertário com formação nos movimentos contraculturais dos 70s. Teatro cinema, literatura e Tv são veículos onde se destacou agindo sempre como um pesquisador, viabilizando trabalhos e revelando facetas deste viés. Foi assim que em 1979 teve a ousadia de representar um travesti na monumental obra literária adotada para o cinema República do Assassinos de Aguinaldo Silva o que rendeu prêmios, inclusive internacionais, e criticas comoventes e consagradoras. Foi assim que protagonizou Ricardo III na íntegra, permitindo explodir toda a comicidade sarcástica do personagem, viés evitado pela grande maioria dos atores que o representaram .Desde então continua seu fluxo de experimentalismos. É professor efetivo da Escola Estadual de Teatro Martins Penna do Rio de Janeiro há 28 anos, lecionando interpretação e dinamizando um centro de pesquisas que intitulou Oficina Libre, onde aprofunda noções antropológicas do teatro. Escreve, dirige, atua em todos os gêneros e veículos, e se reinventa como um rizoma. Participou de mais de 40 filmes, inúmeras peças, novelas, seriados e humorísticos em todas as emissoras de tv. São 44 anos de profissão, 64 de idade. Pai de Isadora, Vittorio e Isabella. Integra o elenco principal do Zorra há 16 anos na Tv Globo.




Trecho inicial do conto "Corre, Otávio", de Anselmo Vasconcellos:

   "Meu tio Otávio era relojoeiro daqueles antigos, curvado devante uma pequena bancada repleta de miudezas e engrenagens. Havia um maçarico no canto, ajustado à bancada, e era rara a destreza daquele mulato inzoneiro ao acender seu cigarro caporal Amarelinho, sem filtro, na chama azul que derretia metais. Achava assombroso este pequeno espetáculo do mestre Otávio. Na entrada da lojinha, na Rua da Glória, reinava seu inseparável papagaio baiano num poleiro aberto. Se os ricos tinham seu alarme em um cuco, Otávio tinha Alarico, malandro alado que falava sem sotaques e em bom tom seu bordão favorito:

- “Corre, Otávio”"



BAP1: Qual o espetáculo conveniente para o Brasil de hoje?

Anselmo Vasconcellos: O fórum democrático, o debate e esclarecimento das questões sociais, politicas com grupos de trabalho representativos dos diversos segmentos da sociedade brasileira e latino-americanas. Um desmonte dos representantes políticos oficiais e atuais que precisam ter extintos os grandes salários e representações financeiras para que isto deixe de ser uma forma de enriquecimento.


BAP2: O que o Anselmo de hoje diria sobre o “padrão Globo de qualidade”?

AV: Precisaria de muito espaço, dados documentais precisos para refletir e analisar estes anos todos de desenvolvimento e atuação desta empresa da qual faço parte. É uma pergunta de grandeza e exige reciprocidade na tentativa de respondê-la.

BAP3: Existe a peça de teatro que não foi escrita e que todas as noites você escreve, ensaia e interpreta?

AV: Minhas noites são exercícios de esvaziamentos que tento me beneficiar eliminando, limpando, deixando a terra livre para novos plantios... É o tempo meditativo, meu Padma. Não sou um adepto de ensaios. Tenho uma teoria que ensaio é uma forma repressiva pois fixa algo que deveria estar sempre no campo da espontaneidade: este sim, meu principal veículo de atuação.


BAP4: Quais as diferenças entre o trabalho de preparação do autor e do ator?

AV: Uma atuação pode ser uma partitura preelaborada em qualquer campo de atuação artística. Há quem faça do planejamento a grande força do trabalho e resulta esmerado, impecável até. Sou um intuitivo, minha herança é mais onírica. Sou jazzístico, digamos assim. Navego com prazer pelo desconhecido para ouvir o “canto das sereias”.


BAP5: Que autores o influenciaram?

AV: Tudo que leio e eu leio muito exerce uma conexão com o que estou criando e acaba fazendo parte orgânica do meu trabalho. Há autores que sempre procuro pelo prazer da leitura que já aconteceu e que redescubro na atualidade. São muitos, são raros e por isso mesmo, por eles, acabam vindo também outros livros e outros autores. Vou descobrindo que isto é comum nos autores. Estou lendo Beckett e Borges. Ambos falam muito disso.

BAP6: Como você vê a crescente demanda por editoras independentes?

AV: Uma decisão inevitável para autores. Eu pretendo inclusive fazer artesanalmente meus livros. Eu mesmo gosto de vendê-los.

BAP7: Algum livro em perspectiva ou em fase final de revisão?

AV: Sim, tenho dois livros em finalização. Um romance histórico, um exílio politico de um jovem na Europa e um livro de contos sobre uma família fantástica. Andam juntos. O romance depende de muita pesquisa e é uma tarefa agradabilíssima, pois ator é um pesquisador por natureza.

BAP8: O contato do autor com seus leitores é diferente do ator com seus fãs?

AV: Creio que o artista é um desenvolvimento humano que encoraja, instrui e inspira sem se especializar. Todos somos protagonistas de histórias, encontros, de feitos, de conquistas e fracassos. Essa é a onda, o surf.



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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Adriana Aneli e Caetano Lagrasta