quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Impressões: beijo, boa sorte, de Ana Elisa Ribeiro, por Adriana Aneli



beijo, boa sorte, ana elisa ribeiro

... As coisas que herdei do baú da minha avó
                                                                                               por Adriana Aneli


Da primeira vez ela chorou...
Li beijo, boa sorte de trás para frente. Como normalmente faço em livros de minicontos e poesias.  Era final de dezembro, na correria de arrumar a vida para o próximo ano e sem me dar conta de que aquele livro pequeno, com sua capa de vestido de bolinhas, era, antes de tudo, um susto. E, como tudo aquilo que assusta, de pronto a gente larga para depois espiar a uma distância segura.
Mas resolveu ficar...
De canto de olho, por curiosidade, fingindo um tropeço, retomei a leitura. Desta vez, sem escapatória. Com o rosto em retalhos tirados do baú da avó, Ana me mantém, desde então, refém de suas histórias.
É que os momentos felizes ...
De orelha a orelha, dedicatória ao agradecimento, desde as curiosas epígrafes de Adília Lopes (Escrevo para me casar), repasso flagrantes descritos no tom cortante de quem já viu e viveu o suficiente para não ter que esperar para ser franco. Ana revela o pior dos seus personagens, traz à tona homens e mulheres que herdaram pouco mais do que a inércia, nesta espiral de violência de gêneros: gente assustadora e assustada que, no século XXI, ainda mancha ingênuos vestidos com taças de sangue.
Tinham deixado raízes no seu penar...
Em beijo, boa sorte, a poesia se materializa na dor e na pena, parece piada até, para no segundo seguinte se transformar em fissura ardida nos olhos/retina obtusa que já não vê a rotina/rotina absurda sob as retinas/tanto faz. 
Convite para um mórbido mundo de "faz de conta", página após página a graça vai morrendo na boca de gente que recebe o tapa, quando esperava o beijo. Amores interrompidos, amores que nunca vieram, fuga que se tentou racionalmente, vida ceifada a golpes passionais ou mero descaso. Vítimas em brasas - adormecidas.
Depois perdeu a esperança ...
Fiz bem ao ler, da primeira vez, o livro de trás para frente: ali está a origem, a dominação, a propriedade, o patriarcado, a receita da desigualdade. Fiz bem de ler o livro inúmeras vezes. Simone de Beauvoir escreveu que é horrível assistir à agonia de uma esperança, mas beijo, boa sorte não me fez perdê-la. Ao contrário. Lerei ainda mais.
Um livro feito de mulheres. Trágico para mulheres. Desafiador para homens. Vice-versa. Contos feitos de uma, duas frases, pensamentos. Pequenas histórias que debocham e paralisam ao invocar nossa própria consciência. 
Ana Elisa grita num mundo sabedor de que a mulher encontrou sua própria voz, mas que nem sempre tem ouvidos para escutá-la.
Porque o perdão também cansa de perdoar*
“A cigana me disse que estava ali, na minha palma, que eu seria feliz. Falta a minha alma acreditar”. 
Brinde ao casal! Boa sorte!

 beijo, boa sorte é da Editora Jovens Escribas.


LANÇAMENTO EM SP:

Sábado agora, dia 20, a partir das 16h
na Patuscada
Rua Luís Murat, 40
São Paulo.


 * Regra três, Vinícius de Moraes.

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