domingo, 21 de fevereiro de 2016

A inveja, por Nida Ferioli



Retrato de uma mulher transtornada pela inveja, de Théodore Géricault



“Não nego a mão a quem precisa,
Inveja é a raiva do pó contra quem o pisa.”

Paulo Vanzolini


Meus queridos leitores,

O que dizer desta palavra “inveja”?!

1) Desejo de possuir coisas alheias ou situações desejáveis que a você parecem impossíveis;

2) Tornar-se uma pessoa infeliz, por não possuir o que outras pessoas — conhecidas, amigas — tem?

Enfim, poderíamos definir esta “pequena e indesejável” palavra de diversas formas. Mas, o que importa realmente, é o que a inveja traz de mal, não só a quem a sente, mas principalmente à pessoa invejada.

Por que eu abordei hoje este tema, contrariando o meu estado de espírito sempre alegre e cheio de bom humor, e que procura enviar mensagens de alegria, otimismo e felicidade?... É porque hoje falo aos INVEJOSOS:

— Livrem-se deste pecado capital, o quanto antes! Convençam-se de que, para vocês serem felizes não é preciso ter o que os outros possuem, seja material ou espiritualmente.

FALO A VOCÊ, INVEJOSO!

Experimente, ao invés, buscar algo pelo seu esforço próprio, pelo seu trabalho, e por pouco que seja a conquista, você sentirá surpreendente satisfação, uma alegria que nunca antes havia imaginado.

Faça isto e tenho a certeza de que o seu coração transbordará de calma, de alegria, ao constatar que você é capaz, sozinho, de tornar real um sonho, um empreendimento todo seu.

Uma grande realização— ou pequena satisfação, que seja — mas própria, vinda do seu trabalho transformarão seu coração, antes empedernido pelos maus pensamentos, em alegria e vontade de viver, querendo não só o próprio bem, mas também o que é mais importante: que a felicidade e o bem estar sejam prerrogativas de todos que o cercam na vida.

Procure fazer os outros felizes, pois só assim você será feliz... É uma certeza. 

São os pensamentos de uma senhora próxima aos 95 anos.

Obrigada, meus queridos leitores. E até o próximo mês!
                                                                                                                                                                                                                                                                                            Nida









NIDA DEL GUERRA FERIOLI (94) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014); 
Professora de italiano; Autora do livro “Vivendo a Vida”. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Impressões: beijo, boa sorte, de Ana Elisa Ribeiro, por Adriana Aneli



beijo, boa sorte, ana elisa ribeiro

... As coisas que herdei do baú da minha avó
                                                                                               por Adriana Aneli


Da primeira vez ela chorou...
Li beijo, boa sorte de trás para frente. Como normalmente faço em livros de minicontos e poesias.  Era final de dezembro, na correria de arrumar a vida para o próximo ano e sem me dar conta de que aquele livro pequeno, com sua capa de vestido de bolinhas, era, antes de tudo, um susto. E, como tudo aquilo que assusta, de pronto a gente larga para depois espiar a uma distância segura.
Mas resolveu ficar...
De canto de olho, por curiosidade, fingindo um tropeço, retomei a leitura. Desta vez, sem escapatória. Com o rosto em retalhos tirados do baú da avó, Ana me mantém, desde então, refém de suas histórias.
É que os momentos felizes ...
De orelha a orelha, dedicatória ao agradecimento, desde as curiosas epígrafes de Adília Lopes (Escrevo para me casar), repasso flagrantes descritos no tom cortante de quem já viu e viveu o suficiente para não ter que esperar para ser franco. Ana revela o pior dos seus personagens, traz à tona homens e mulheres que herdaram pouco mais do que a inércia, nesta espiral de violência de gêneros: gente assustadora e assustada que, no século XXI, ainda mancha ingênuos vestidos com taças de sangue.
Tinham deixado raízes no seu penar...
Em beijo, boa sorte, a poesia se materializa na dor e na pena, parece piada até, para no segundo seguinte se transformar em fissura ardida nos olhos/retina obtusa que já não vê a rotina/rotina absurda sob as retinas/tanto faz. 
Convite para um mórbido mundo de "faz de conta", página após página a graça vai morrendo na boca de gente que recebe o tapa, quando esperava o beijo. Amores interrompidos, amores que nunca vieram, fuga que se tentou racionalmente, vida ceifada a golpes passionais ou mero descaso. Vítimas em brasas - adormecidas.
Depois perdeu a esperança ...
Fiz bem ao ler, da primeira vez, o livro de trás para frente: ali está a origem, a dominação, a propriedade, o patriarcado, a receita da desigualdade. Fiz bem de ler o livro inúmeras vezes. Simone de Beauvoir escreveu que é horrível assistir à agonia de uma esperança, mas beijo, boa sorte não me fez perdê-la. Ao contrário. Lerei ainda mais.
Um livro feito de mulheres. Trágico para mulheres. Desafiador para homens. Vice-versa. Contos feitos de uma, duas frases, pensamentos. Pequenas histórias que debocham e paralisam ao invocar nossa própria consciência. 
Ana Elisa grita num mundo sabedor de que a mulher encontrou sua própria voz, mas que nem sempre tem ouvidos para escutá-la.
Porque o perdão também cansa de perdoar*
“A cigana me disse que estava ali, na minha palma, que eu seria feliz. Falta a minha alma acreditar”. 
Brinde ao casal! Boa sorte!

 beijo, boa sorte é da Editora Jovens Escribas.


LANÇAMENTO EM SP:

Sábado agora, dia 20, a partir das 16h
na Patuscada
Rua Luís Murat, 40
São Paulo.


 * Regra três, Vinícius de Moraes.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Impressões: Amor expresso, de Adriana Aneli, por Chris Herrmann



 Adriana Aneli



Com a alma expressa

por Chris Herrmann


Uma das coisas que mais me tocam em Amor Expresso de Adriana Aneli é que testemunhei o nascer dele, desde a ideia à sua concretização final. Embora não tenha comparecido ao lançamento por razões físicas (a Alemanha não é logo ali), estive com ela vibrando em todos os momentos. O livro conta cinquenta deliciosas histórias com aroma de café. As ilustrações da artista plástica mineira Cristina Arruda compõem juntamente com suas histórias, a alma do livro.


ilustração de Cristina Arruda para o conto
"Feios, sujos e malvados"


Mas antes de comentar o seu conteúdo, gostaria de destacar o capricho, a beleza e suavidade de sua edição artesanal pela Scenarium. Trabalho acurado e muito criativo de Lunna Guedes. A capa é um primor e esbanja elegância. Sua xicrinha de café fumegante é um convite à boa leitura. Ter uma obra assim, de tão delicado acabamento em mãos e folheá-lo, é mais um presente que só quem ama livros sabe.



O café faz parte do cenário do nosso dia a dia e no livro ganha um destaque especial em pequenas histórias que poderiam ser suas, minhas, de nossos amigos, vizinhos ou de qualquer um de nós. A autora sabe dosar bem o humor sem apelar para o desrespeito, a sensibilidade sem ser piegas.


„O motivo do crime, segundo o Delegado, pode ser passional: a esposa odeia cheiro de café. O marido levava vida secreta na padaria da rua de baixo. A mancha na calça denunciou a traição.”


O que surpreende também no livro além da criatividade das histórias em si, é o tratamento sensível que a autora dá ao ambiente evocado por elas em nossas mais profundas lembranças, desejos e aspirações.


„Assustada com o futuro lido na borra de café
passou a tomar chocolate quente.”

O livro, que já passou por sete edições desde seu lançamento não para de se desenvolver no imaginário de seus leitores e fãs. A artista Flávia Taiano já trabalha numa exposição com criações inspiradas em sua obra. O toque delicado de suas esculturas parece trazer o sonho à tona. São trabalhos que emocionam não só pelo talento natural da artista que já se conhece, mas pela ideia de dar vida ao que parecia viver somente nas páginas do livro e na nossa imaginação...



escultura inspirada no conto "Nighthawks"

O amor está no ar assim como o aroma de café, que permeia o livro com passagens expressas de encontros e desencontros com o outro e consigo. Situações que nos são contadas com leveza como num gole de café. O café que degustamos na lida de nossos dias e nas páginas do Amor Expresso pode ser rápido como uma história de amor que, por vezes, nem aconteceu. Mas seu aroma... ah, seu aroma, é tão intenso quanto o que ele deixou em nós.



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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Impressões: Só, com peixes, de Adriane Garcia, por Adriana Aneli

Adriane Garcia



¿Qué poemas nuevos fuiste a buscar?
por Adriana Aneli


Se Adriane Garcia é fábula, a palavra é existencial e ela nos diverte – assustados – com sua ironia sem redenção; se a palavra é mundo, Adriane é nome, que fica na boca da gente, em estranhezas de cantos e muros, retrato de gente bruta, lapidada por lágrima própria até virar diamante: água em pedra dura, tanto bate até que ... mergulha. A poeta se cansou da terra firme e neste novo livro imerge, Só, com peixes, muito bem acompanhada.

Mas depois que tomou da água
Barrenta
Depois que passaram lama
Nos seus olhos
Ela voltou a enxergar.

É com voz rouca que a poeta narra sua guerra: a sereia exausta de esperar agora parte na jornada submarina através de episódios e arquétipos, breves momentos ou talvez uma vida inteira que se escapa na densidade das águas. Em Só, com peixes, tudo é aquário, tanque de lodo, impotência de casa alagada, ou enfeite de corais – cadáveres – na sala de visitas.

Adriane nos lembra, a todo momento, que a vida dói como dedo na guelra, mais que a morte; e dói ainda mais, senhor capitão, porque é feita de esperança... e esperança se renova: memória infantil que escapa pelo ralo: “Mas eu sou essa coisa/De pouquíssima fé/Que dizem/Poder caminhar sobre as águas”.

Fracos, pomos nossas ovas. Envelhecemos. Salmões, nascemos e morremos no mesmo lugar. Temos nadadeiras, parecidas com asas, mas que  não são asas.... Não voamos, pulamos com impulso, vida na mira dos predadores. 

Sobrevivemos arrancando escamas, arrancando escamas,  arrancando... De tudo sobra o silêncio e dele não escapamos, conhecedores que somos, do brilho do anzol que nos fisgará.

Filhos nunca saberão
Nadadeiras laceradas
Exceto quando forem
As suas.

Peixes, nadamos. Sozinhos, nadamos. Narcisos às avessas a buscar o reflexo que sabemos não existir mais. Ao final, constatamos: “O mar é aquele outro/O rio, este”.



Só, com peixes é da Editora Confraria do vento: https://www.facebook.com/confrariadovento/?fref=ts



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

OITO PERGUNTAS A PENAS com FERNANDA DE ALMEIDA PRADO


 foto de Joaquim Araujo na Casa das Rosas


Fernanda Maria Bueno de Almeida Prado, conhecida como Fernanda de Almeida Prado, psicóloga, psicanalista e produtora cultural. Sou idealizadora e diretora do projeto sarau “Chama Poética” que existe desde 2004, um evento que une a poesia a várias expressões artísticas e acontece mensalmente na Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura e em vários espaços culturais. Cursei psicologia na Unesp de Assis e realizei minha formação psicanalítica no Instituto Sedes Sapientae. Desde muito cedo soube da importância e do valor das palavras, herdando igualmente de meus pais o interesse pela psicanálise e literatura, em especial a poesia. Recebi influência em minha formação literária de meu pai, Antônio Lázaro de Almeida Prado que é escritor, poeta, crítico literário e professor de Teoria da Literatura e Literatura Comparada (professor fundador da Unesp de Assis - aposentado como professor emérito). Sou uma leitora assídua de poesia, tenho gosto especial pela poesia declamada, costurada delicadamente com músicas autorais. Tenho realizado um trabalho de garimpo e sinto enorme alegria dirigindo meu projeto artístico, principalmente por conviver com variados artistas de todas as gerações. Além de meu trabalho com o projeto Chama Poética, sou idealizadora do Festival da Palavra que acontece anualmente na Unesp de Assis. Tenho 2 filhos, Daniela e Gabriel e 2 netinhas, Alice e Teresa.Atualmente meu filho, que é músico, cantor e compositor, me auxilia na produção do Chama Poética e do Festival da Palavra.




com Antonio Candido, Frederico Barbosa e meu filho,
Gabriel no jardim da Casa das Rosas


"Sigo ocupando meus dias. Nada que faça me distrai da tristeza que me habita. Ser triste se tornou uma espécie de última pele. Palimpsesto escancarado. Me dói o rio destruído. A criança dormindo na rua abraçada em seu cachorro. A beleza da música de meu filho. A alegria de minha neta. Minha filha parindo. Meu pai envelhecendo. Rosa me ensinando sobre o amor por seu filho. Cada despedida diária. Cada encontro diário. O tempo que nos traga. A vida que nos leva. A ausência de minha mãe cada dia mais presente. A presença de meus filhos. O amor de Dani e Leandro. Presente. Alice. Teresa. Vida presente. A vida me dói. A distância de pessoas que amo cada vez mais longa. A beleza me salva. Meus amigos perderam seu filho. Ele se matou. Não conseguia ir até eles. Como dizer alguma palavra de conforto? Consegui. A amizade nos salva. Invento a alegria diariamente. A alegria nos salva. O palhaço que mora em mim me salva. Sigo acreditando na alegria. Incrível. A vida não é séria. A vida me salva."

Fernanda de Almeida Prado



BAP1: “Não me sinto poeta na escrita, mas na sensibilidade”; nós que admiramos seus escritos, discordamos desta afirmação, mas ponderamos: sua poesia teria abandonado um elaborado projeto de linguagem, para simplesmente fluir de um processo histórico e inconsciente de poeta?

Fernanda A. Prado: Acredito que sim, e que tenho feito este trabalho mais elaborado, de outras maneiras, primeiro na escuta de meus pacientes, pois acredito que a escuta analítica é também um ato poético e em seguida na direção e construção de meus projetos artísticos, onde exercito minha sensibilidade exaustivamente. Ainda não me empenhei com o mesmo afinco para a escrita. É um processo que se constrói vagarosamente dentro de mim. Talvez em algum momento eu acabe me entregando aos riscos e delícias deste trabalho.

BAP2: O sarau “Chama Poética” existe desde 2004, mais de uma década, o que já sinaliza o sucesso do espetáculo. Seria possível citar três eventos que tenham sido particularmente marcantes?

FAP: Difícil citar apenas três, eu poderia citar inúmeros eventos que marcaram nossa história e nossa vida. 

Como é sabido, meu projeto teve início com o meu trabalho de agente literária de meu pai,  por ocasião do lançamento de Ciclo das Chamas e outros poemas, em 2004, neste evento e em muitos que organizei com a poesia de meu pai, pudemos multiplicar encontros, reencontros e muitas parcerias de compositores e poetas começaram ali. Vivemos a oportunidade rara de ver e ouvir os poemas musicados por vários compositores, como Ozias Stafuzza, Lula Barbosa, Irineu de Palmira, Natan Marques,  Jean Garfunkel, Wimer Botura, Guca Domenico,  Elio Camalle e Amaral Viera. Isto foi delineando em mim o caminho que desejava seguir em meus projetos, privilegiando na maior parte do tempo a costura da música autoral com boa poesia.  Desejei e consegui, transitar sempre  entre a construção do novo e a retomada insistente daquilo que nos antecede, da poesia que fez e faz parte da minha formação. 
Outro poeta que faz parte da minha vida, meu amigo querido, o poeta Thiago de Mello, realizei alguns eventos com a poesia e presença dele. Cito, por exemplo, os lançamentos dos livros: Amazônia, pátria das águas,  Poetas da América de canto castelhano e Acerto de contas. Foram ocasiões importantes para mim e para todos que tiveram a oportunidade de compartilhar destes momentos raros e inesquecíveis.
E ainda, outro encontro histórico, encontro, que nomeei como “Memórias da noite Paulistana”, onde recebi o compositor Paulo Vanzolini e o Sr. Ernesto Paulelli ( o Arnesto do samba de Adoniran Barbosa). Foi uma noite memorável, com público acolhendo meus convidados, com muita alegria, era como se todos nós estivéssemos recebendo um presente naquele momento. Foi único e mágico. Indescritível.
Eu poderia citar uma infinidade de nomes de nossa literatura que participaram destes encontros, mas faço menção apenas ao nome do crítico literário, Antônio Candido, que é amigo de meu pai a mais de 70 anos, e eu tive o privilégio de conviver com ele durante minha vida. Realizamos um encontro público, na Casa das Rosas, com mediação minha e do poeta Frederico Barbosa.

BAP3: O “Chama Poética” possui singularidades em relação a outros saraus convencionais, nos quais, em geral, apenas se recitam poemas. Você nos poderia falar sobre como se dá o processo da conexão entre récita e música, que acontece no “Chama Poética”?

FAP: Aprendi muito sobre produção artística, assistindo, desde minha infância, as Noites de Música e Poesia, que meu pai organizava na UNESP de Assis. Penso que fazer arte exige de nós além da aptidão e sensibilidade, muito empenho.  Não vejo o “Chama Poética” como um sarau “livre”, aberto a participação espontânea, mas sim como um espetáculo, previamente pensado para criar encantamento com a força da música e  palavra poética.  Este processo se dá com estudo, criação de roteiro, construção de uma delicada costura entre as músicas e a poesia declamada e quantos ensaios forem necessários para garantir uma bela apresentação. Interessante notar o quanto a vida é circulação e renovação, pois se de um lado, aprendi muito observando meu pai, hoje tenho aprendido muito com meu filho, Gabriel de Almeida Prado, que é poeta, músico e compositor e traz seu conhecimento e experiência para dividir comigo a direção do Chama Poética.

BAP4: O Festival da Palavra passou a existir desde quando e em que aspectos se distingue do “Chama Poética”?

FAP: Em 2010 realizamos o primeiro Festival da Palavra na UNESP de Assis e temos realizado desde então, anualmente. Ele se distingue do “Chama Poética” na variedade de atrações que conseguimos apresentar em dois dias de Festival. Divido a direção deste Festival com a direção da Unesp,  sempre escolhemos e criamos uma programação dentro de um  tema proposto.  Realizamos oficinas, debates, apresentações de artes plásticas, fotografias, danças, atores, palhaços, etc...
O Festival da Palavra é uma espécie de virada cultural dentro da universidade.  São dois dias que fazem muita diferença na formação dos alunos e do público de fora também.

BAP5: Tendências, estilos, tribos ou “famílias poéticas”,  como se projetam os caminhos da poesia contemporânea ?

FAP: Pergunta difícil. Toda leitura é parcial e o novo não cessa nunca...

Posso falar dos poetas contemporâneos que eu tenho acompanhado mais de perto. Sou uma leitora assídua de poesia. E a poesia me toca ou pelo trabalho com as palavras ou por alguma coisa que não tem muita explicação, a beleza na construção poética, no ritmo ou o tema abordado.  Cito alguns nomes que tenho lido, com alegria: Edson Cruz, Luís Augusto Cassas, Alexandre Bonafim, Ana Vidal, Raiça Bonfim, Paulo César Carvalho, Iracema Macedo, António Vilhena, Luís Serguilha, Nuno Júdice, Carmen Pressoto, Flora Figueiredo,  Susanna Busato, Cel Bentin, Paulo Andrade, Cláudio Willer, Frederico Barbosa, Eduardo Lacerda, Donny Correia, Vlado Lima, Moacir Amâncio, Leila Míccolis e Vera Lúcia de Oliveira. A lista é interminável, mas estes são os poetas que me lembrei neste momento.
Além dos poetas citados, gostaria de dizer quem são os poetas da minha “vida”, meu pai, o poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado, o poeta Thiago de Mello, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Manuel Bandeira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Hilda Hilst,  Mario de Andrade, Adélia Prado, Emilio Moura, Murilo Mendes, etc..., poetas que me fazem companhia sempre.

BAP6: Sobre a influência da mídia moderna (principalmente a internet) na poesia, ela estimula ou banaliza a criação?

FAP: A influência pode ser positiva e negativa, na verdade, acho que faz as duas coisas ao mesmo tempo, em algumas situações é um bom estímulo, e em outros momentos banaliza. Devemos nos atualizar, nos manter abertos ao novo e à internet  abre espaço para descobertas, que antes eram de difícil acesso, no entanto percebemos também um uso inadequado, principalmente em citações  sem respeito ao autor ou erradas,  um risco permanente de plágio e desrespeito pela criação.

BAP7: A poesia de seu pai, Antônio Lázaro de Almeida Prado, obteve o reconhecimento de nomes consagrados como Thiago de Mello e Antonio Cândido. Porém, ele demorou a torná-la pública. Seria possível revelar a nossos leitores a razão desse cuidado?

FAP: Meu pai escreveu sempre, desde muito jovem, mas não se preocupou em publicar sua poesia. Ele se ocupou com a vida universitária, com artigos acadêmicos e alguns poemas foram publicados nas revistas da Unesp e nos jornais de Assis.  Eu acabei tomando para mim esta missão, depois de muito insistir para que ele publicasse. Thiago de Mello deu uma bronca nele, dizendo que a poesia dele não poderia ficar escondida durante tanto tempo e fazendo a ele a mesma pergunta que você me fez.  Foram pastas e pastas de poemas perdidos e foi difícil escolher, pois ele não publicou ainda nem a metade do que escreveu. Contei com a ajuda do poeta Luís Antônio de Figueiredo na ocasião da publicação de “Ciclo das Chamas e outros poemas”. Acredito que herdei de meu pai este pudor e talvez este seja o  motivo para que eu não me dedique mais ao trabalho literário.

BAP8: Como você vê a representação do feminino e a mulher no contexto da poesia atual?

FAP: Seguimos lutando por nossos direitos, por respeito ao nosso pensamento, desejos e necessidades. Já desbravamos alguns sertões, mas ainda temos um longo caminho a trilhar. A poesia feminina é uma conquista importante e necessária para dar voz ao nosso pensamento, palavras e sentimentos. Nossa palavra tem força e poder transformador.
Tenho acompanhado o projeto de pesquisa do poeta Rubens Jardim sobre as mulheres brasileiras na poesia contemporânea e é surpreendente o número de poetas que ele garimpou em todo Brasil. Cito algumas poetas contemporâneas que admiro a força e beleza das palavras: Iracema Macedo,  Raiça Bonfim, Susanna Busato, Leila Míccolis, Socorro Lira, Mar Becker, Ale Safra, Vera Lúcia de Oliveira, Marina Colasanti.



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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Adriana Aneli e Ricardo Alfaya