quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

CARAMURU E SUAS TUMBAS: resenha do romance "A cultura dos sambaquis", de André Caramuru Aubert

por Caetano Lagrasta

Foto: Salmo Duarte / Agencia RBS


Desde o primeiro romance que li de André Caramuru Aubert vieram-me à memória os versos de João Cabral de Melo Neto e seus cemitérios nordestinos, em especial, “Cemitério Pernambucano (São Lourenço da Mata)", numa quadra de Poeta:

É cemitério marinho
mas marinho de outro mar.
Foi aberto para os mortos
que afoga o canavial.

Nunca me importei se foi o primeiro escrito de André, ou o mais atual.
Depois, em dois dias, li “A Cultura dos Sambaquis” e com o mesmo espanto embarafustei-me livro adentro e dou-me a conhecer a eméritos professores: Joseph Emperaire, Paul Rivet e Paulo Duarte, em foto de 1954 (p. 49); animado, pensei: é livro às figuras; mas, que nada.
Logo emaranham-se histórias de achados arqueológicos, tentativas de defesa a patrimônio histórico e perseguições a Paulo Duarte, que já conhecera de escritos (num antigo livro de capa dura e preta) – perdido em algum espólio que pela vida vou espalhando.
Dos outros dois nada havia lido ou sabido, salvo de muito passagem, e fui caminhando com André por desvãos socioantropológicos de vida e respeito à geografia brasileira. Idas e vindas de Rivet e Duarte, este, que finalmente exilado encontra no outro a gentileza de um cargo no Museu do Homem, em Paris, mas que a duartina teimosia por vezes recusou.
Tudo começa à beira de um sambaqui, em Iguape, onde seu ídolo de fls. 108 (outra fotografia, mas agora já se sabe que o livro é às letras e não às figurinhas), causa espanto e desconfiança ao achadista alemão, por não “contextualizado”.
Nos envergonhamos de tanto que ainda haveria a preservar e quanto de encontro de ruínas e destruição, para das conchas, mortos e ossos se chegar a mísero calcário, ao negócio mais reles, à perda total da memória.
A grande, talvez a maior sombra da morte voeja por sobre o romance a esconder índios, sambaquis: achados arqueológicos; eles também submetidos à politicalha sórdida da burguesia paulista – a mesma que sufocou Mário de Andrade, exilando-o ao Rio de Janeiro, onde o desgosto o encontra e, ainda na volta, o mata.
Fantasma há outro, menos identificável na pessoa, mas de que se lembra ao assassinato comparece e acusa! O Celso do ABC paulista, cadáver sepulto, mas não vingado.
E, tem ainda a sombra dos ditadores que atravessam este Continente Sul: argentinos, chilenos, brasileiros; chineses, soviéticos, Reagan e Bushes, enfim toda essa merda que engole a natureza, tortura homens e vomita armamentos.
André, o desalento é também uma virtude, pois que ao denunciar reabre a Esperança, ainda que sob a mágoa do mesmo João Cabral no cemitério pernambucano de “Custódia”:

(...)
Só que nas covas caieiras
Nenhuma coisa é apurada:
Tudo se perde na terra,
Em forma de alma, ou de nada.

Ed. Descaminhos, 2014



Caetano Lagrasta é  Consultor Jurídico e Jornalista. Autor  de livros de contos, poemas e poemas infantis. Articulista do Projeto Tempestade Urbana. Colaborador do Boca a Penas. Mantém o site www.caetanolagrasta.com .

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