terça-feira, 1 de dezembro de 2015

OITO PERGUNTAS A PENAS com JANDIRA ZANCHI



Jandira Zanchi é poeta e ficcionista. Atuou no magistério no ensino de matemática e física em faculdades, colégios e cursos. No final dos anos 80 foi professora cooperante na Universidade Agostinho Neto - Faculdade de Ciências, Luanda - Angola. Em Curitiba por cerca de dez anos esteve na FAE - Bussiness School. Como poeta publicou Gume de Gueixa (Editora Patuá, 2013), Balão de Ensaio (Editora Protexto, 2007) e o livro virtual A Janela dois Ventos (Emooby, 2012). Tem lançamento para breve de Área de Corte com a  Editora Patuá. Entre outras antologias participa de Saciedade dos Poetas Vivos vol 1, Poesia para mudar o mundo vols. I e II do site Blocos Online, organizadas por Leila Míccolis,  e 101 Poetas Paranaenses- antologia de escritas poéticas do século XIX ao XXI, (Selo Biblioteca Paraná, 2014), organizada por Ademir Demarchi. Integra o conselho editorial de mallarmargens revista de poesia e arte contemporânea.



VENTAS FINAS

enquanto escuto a simplicidade do som
que o rodar da máscara – quase vazia –
do ranger  - corredor – de cada dia
repenso, sem lamento,
a crueza da orgânica sede de líquidos
presente em cada ausente

vazada em minha lâmina
curta – mal afiada – fagulha vermelha
de fogo brando (que vermelhas são as
ventas finas das estrelas frias)
debulhada ao redor de sondas e sonhos

esses sim amarelos e confusos de sua cupidez
vontade de armaduras e aragens

enfim, enquanto penso ou pareço
como a afinada maré dos desejos
sou una e fruída e gatuna
ou nenhuma naco e fato
dos factóides armados por
vagões contínuos de uma...
é, estúpida humanidade.

Jandira Zanchi  (Área de Corte)



BAP1: A física, a matemática e a poesia são filhas da filosofia; portanto, são parentes. A sua arte de poeta nasceu antes ou depois de sua atuação nessas duas ciências exatas? Nos conte sobre essa descoberta de si mesma.

Jandira Zanchi: O gosto pela literatura caminhou junto com a matemática e o encanto pela astronomia. No começo dos anos 80, depois de terminar a graduação em Matemática, estive em São Paulo (USP) para fazer o mestrado em Mecânica Celeste. Não concluí. Aos poucos fui entendendo que havia um rebuliço interno que precisava de outra expressão. Mas, foi apenas aos 37 anos de idade, no começo dos anos 90, que comecei a escrever poesia. Sem nunca ter lido e/ou gostado. Até hoje me surpreendo com o fato de, instintivamente, usar uma série de recursos que só depois, ao começar a ler poesia, entendi que são comuns ao arquivo maior desse ofício, que hoje me parece único e soberano.

BAP2: Mallarmagens é uma revista muito conhecida e reconhecida por seu valor. Nos fale sobre ela e sua importância no cenário poético e artístico. Quais os planos futuros dessa publicação eletrônica?

JZ: Mallarmargens é referência nacional em literatura. Tem um corpo editorial, editores, curadores e colaboradores fixos, diversificado e composto de alguns dos mais expressivos poetas do país. A revista tem de 1.000 a 2.000 acessos diários e funciona como antena da produção da melhor poesia brasileira. Sem definir ou limitar as linhas e expressões, pois engloba toda a poesia que pode ser reconhecida como poesia/arte, independente do gosto particular de seus editores ou dos grupos que aglutinam essa produção. O maior plano para o futuro é sempre o de manter a qualidade e imparcialidade pela qual é tão reconhecida.

BAP3: Você concorda com a seguinte afirmação: “poesia é uma ficção cheia de verdades”? Se sim, comente.

JZ: Claro que sim, e me parece até óbvio o motivo. Para criar boa poesia o poeta tem que “sentir”, abrir o “ser” para a dinâmica da vida e sua complexa ramificação de sensitividades e sensorialidades. Mas, poesia é uma atividade intelectual com qualquer outra. O consciente, esse ordenador e analisador do material bruto e espontâneo, interfere para a devida consecução do poema, mais ou menos, de qualquer maneira o poema dificilmente é produto só de razão ou emoção.

BAP4: Como você vem percebendo o atual panorama da poesia nacional? Qual a importância da internet nessa nossa realidade de hoje?

JZ: O que mais me chama atenção no atual panorama é a riqueza e variedade da produção poética. Nada está definido, a cada momento novos poetas estão nos surpreendendo. Eu me interesso principalmente pelos novos, que ainda não estão consolidados pela crítica. Se a internet ajuda? Claro, e muito, porque os talentos podem se polir e propagar. Também pode ser bem prejudicial pois a mediocridade encontra a mesma oportunidade de manifestação.

BAP5: Fale um pouco sobre a sua experiência, no final dos anos 80, como professora cooperante na Universidade Agostinho Neto - Faculdade de Ciências, em Luanda - Angola. Essa experiência influenciou sua criação?

JZ: Foi uma experiência interessante pelo contato, na época da cortina de ferro, com russos, cubanos, vietnamitas e europeus orientais. Éramos apenas em 4 brasileiros na Universidade. Embora mais protegidos, vivemos o medo, a insegurança e as dificuldades de um país em guerra civil. Também as contradições do socialismo, as diferenças de oportunidades e culturas. Seria um relato muito extenso. Pode ter influenciado no meu processo criativo, mas, não diretamente. Faço uma poesia existencialista, com cortes racionais sempre dividida entre  miséria emocional e o olímpico  da razão.

BAP6: O Brasil ficou na penúltima posição em um índice comparativo de desempenho educacional feito com dados de 40 países (fonte: g1.globo.com). Como você vê o papel do educador há 30 anos e nos dias de hoje?

JZ: O papel continua o mesmo, educar. A realidade mudou muito e pode-se, com ou sem ironia – como queira, dizer que mudou o educando, perdendo muito de sua educação, no sentido de boas maneiras, dificultando o exercício da função de educador que, em primeiro lugar, precisa ser respeitado para exercer sua função. Os principais motivos? O ingresso de uma massa que antes não tinha acesso ao conhecimento e que não tem em casa o condicionamento inicial para desenvolver processos abstratos; a democracia, que ao contrário das suas utopias, é crua e une no mesmo espaço, da rua e da vida, privilegiados e oprimidos; os meios de comunicação que bombardeiam esses desprivilegiados com o ópio do consumo; o desmascarar das formas que ficaram nuas nas suas verdade, ou você é dos que podem se dar bem ou vai ser o terminal dos processos sociais e carregar a entropia resultante.

BAP7: Mais ou menos na linha do “A poesia não salva o mundo, mas salva um minuto”, como disse a escritora portuguesa Matilde Campilho, você acha que a poesia pode salvar a educação?

JZ: Eu acho que a poesia pode salvar o mundo e que é sua principal resistência. Quando o deslumbramento com a tecnologia estiver mais brando vai ficar mais claro que desenvolvimento humano é aprimoramento e sofisticação de subjetividade. O que pode ser mais subjetivo e impulsionador do processo de individuação do que a poesia?

BAP8: Conte sobre seus livros. De qual você gosta mais, qual te deu mais prazer quando estava escrevendo, o mais difícil, o mais demorado... fale sobre essa trajetória literária.

JZ: Todos tem sua importância para mim. Aqueles de que mais gostei de escrever, os primeiros, são bem falhos em sua estrutura. Transformei-me no processo de escrevê-los. Literariamente o mais difícil, de um ponto de vista técnico, pode ser o melhor. Poesia por poesia... pode ser aquela que mais encanta as pessoas que não estão acostumadas com poesia... não sei... mas, se for assim, acho que A Janela dos Ventos que não teve edição impressa, só digital, pode ser esse livro.
 




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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Lourdes Rivera e Marcelo Mourão



3 comentários:

  1. Entrevista que nos prende é sempre mais um aprendizado. Os entrevistadores amigos conceituados e a entrevistada poeta e escritora, a qual conheço suas poesias no site blocos online, nos transmitiu muita grandeza. Tudo perfeito e gostei dessa reposta também: BAP7: Mais ou menos na linha do “A poesia não salva o mundo, mas salva um minuto”, como disse a escritora portuguesa Matilde Campilho, você acha que a poesia pode salvar a educação?
    Parabéns!
    Denise Moraes

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  2. Obrigada, Denise, a poesia é muito mais essencial do que se pensa. Ela está enraizada na mais profunda estrutura do ser e vai acompanhar os humanos por toda trajetória.

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  3. Obrigada, Denise, a poesia é muito mais essencial do que se pensa. Ela está enraizada na mais profunda estrutura do ser e vai acompanhar os humanos por toda trajetória.

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