terça-feira, 24 de novembro de 2015

PECADOS NO DIVÃ



Impressões sobre 7 PECADOS  (ed. Scenarium, 2015)
de Antonio Baltazar; Beto B.; Emerson Braga; Joakim AntonioMarcelo Moro; Obdulio Nuñes e Lourival Cristofoletti. 

por Adriana Aneli



Nem mais é um pecado,
Virou uma qualidade
...que maldade.

Beto B.



Confesso que li. E porque li, pequei. Para pecados familiares, arrisco pais nossos, aves- maria, talvez um copo de detox ou uma pitada de autoajuda. Confesso que li, e porque li, perdi o caminho da penitência; difícil mesmo é lidar com pecados alheios.

Comecei pelo buraco da fechadura, entre mandos e desmandos do universo feminino, a prova do verso, o texto afiado das sete pecadoras. Agora, estou do lado de dentro, a portas fechadas, com sete pecadores. Nestes corredores vejo pecados de gostos simples, outros de instinto requintado, pecadilhos desenhados, temores confessados, desejos derramados, devorados, arrependidos e bem-humorados. Círculos de Paraíso e de Inferno e o pecado maior, dentre todos os outros: o de ficar no purgatório sem ter cometido pecado nenhum.

Entre sete confissões e quarenta e nove pecados, testemunho o fôlego de Antonio Baltazar: sete transgressões cometidas em uma só noite; a indecência lírica (nem sempre) doce de Beto B.; a mítica história de ambivalências de Emerson Braga; a verdade à queima roupa de Joakim Antonio. Na literatura sensorial de Marcelo Moro, submerjo até flanar, sem pressa e sem medida da crônica poética de Obdulio Nuñes até o giro de novidades de Lourival Cristofoletti... Tudo com muito respeito, senhores, afinal, para além do campo da ética ou da moral, a discussão aqui é estética. Uma questão de sobrevivência, sem mea culpa.

Na era da subjetividade, pecados antigos se transformam em virtude: vaidade é autoestima, ira é brio, inveja é porta de entrada para o autoconhecimento, avareza é boa gestão, preguiça é um direito a ser conquistado, luxúria é libertação. A gula, pobres de nós, há muito deixou de ser pecado para virar a própria punição: nossa existência mundana, desde que abençoada pela mídia, ganhando contornos de sagrada.

Neste tempo de condenações e curas concomitantes sempre ao alcance de um clique, Sete Pecados surge com um discurso sincero... E por isso é novo e sedutor. Confesso que li e gosto muito do sabor que ele tem.


Fecho o livro. Pecado apagado não queima, mas deixa fumaça... e, como onde há fumaça, há fogo, abro de novo o livro: pecado vira vício. Façamos! Pecar é preciso, perdoar é humano.

Quatro dos sete pecadores: Baltazar, Obdúlio, Joakim e Moro


7 pecados está à venda no site da Scenarium:

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Adriana Lagrasta, que imenso prazer ter os nossos pecados apresentados com a categoria de uma grande sacerdotiza das palavras. Gracias! - ONO

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  3. Que delícia de ler, obrigado pelo pouso do olhar sobre nosso escritos. Agradecido, sempre e muito sucesso pra ti! Beijo.

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