terça-feira, 13 de outubro de 2015

A possível alquimia na magia do processo criativo

por Patrícia Rita


Quando surgir a necessidade, leve seus olhos para a natureza e deixe que os mesmos experimentem. Permita que os seus olhos vejam as árvores crescerem, como os botões de rosas se formam, como uma borboleta nasce... Assim, você também, se tornará tão rico quanto à natureza, pois a contemplação é uma revelação. Essa revelação é um olhar sob o ateliê de Deus; onde repousa o mistério da criação e o mistério da vida
Paul Klee

Um assunto que me faz prosear em disparada é o processo de criação vivenciados pelos artistas. Mesmo que haja debates e prosas a despeito do mesmo, em estado puro contemplamos a obra em sua inteireza. Do processo, o artista é que retém os caminhos sinuosos e curvos propiciado pelos trajetos percorridos em detrimento ao ato de sua criação; bem como, os sabores e o 'como' alcançaram a superação de suas próprias limitações, vivendo experiências inimagináveis, reinventando até a si mesmo. A revelação que estes caminhos o presenteiam são guardados em sua 'caixinha mágica', no interior de sua alma. Há de se achar que o artista possui esse egoísmo inerente de seu oficio. Que coisa mais engraçada!

Esses caminhos silenciosos, mesmo que cada área artística possua a sua maneira de caminhar, com movimento durante a criação ou a quase imobilidade do artista operante, auxilia a elevar todo o ser de qualquer artista. O comum a todos eles é o 'alçar de voos' rumo a morada etérea, a morada da criação, a qual se visita e é seduzido a revisitá-la durante toda a sua vida criativa.

Ele é provocado, envolvido a tal ponto que se transborda para além do espaço/tempo, tanto com a chegada de uma inspiração, quanto com o não haver da mesma. Porém, de tanto o artista revisitar tal morada, ele conquista o direito de gerar sua própria inspiração a partir do nada. Carrega consigo seus próprios elementos em matéria bruta que compõem seus instrumentos de trabalho, seja utilizado para manejo, criação de personagens ou poemas, percorrendo o mistério repleto de bagagem adquirida ao longo de suas vidas, até  alcançar a aprendizagem oferecida pela obra criada. Uma revelação que  vai se revelando.

Nem sempre os caminhos do processo criativo são claros: há neblina que o artista se depara pelo caminho. E quão grandiosa ela é! Como dito por Kalil Gibran 'escuro e nebuloso é o inicio de todas as coisas, mas não é o seu fim', ouso reforçar o dito, visto que após a neblina e mesmo quando finalizado uma obra, ela não se conclui; pois quando alcança o olhar de alguém ou muitos olhares, a obra se reinventa, realiza sua própria destilação, é levada a outro lugar através das experiências e olhares de outras pessoas. Não sei se por teimosia, mas é fato, a obra volta até o seu criador tão repleta de vida que ela chega a reinventar o próprio artista. Vê, ilumina tudo!

No todo, seja prazeroso ou um tanto chato, claro ou escuro, de forma breve ou longa, o ato de transformar uma coisa em outra no processo da criação se aproxima ao da alquimia, de maneira respeitosa e delicada. Não é propriamente a alquimia em seu estado puro que interessa aqui, ela é uma outra forma de arte, ciência e de conhecimento, que possui outra forma de estar no mundo. E é essa 'outra forma de estar' que a possível alquimia pode estar envolta no processo da criação.

Para os artistas, assim como para os alquimistas, cada etapa de um processo criativo e de estudo possui  uma aprendizagem que auxilia na evolução no seu ser, de maneira que desencadeia a beleza e harmonia ao mundo.

Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus Von Hohenheim – O Paracelso, alquimista (1493-1541)
   

Para eles, a natureza e o ser formam um único corpo que perpetua a todo momento. A obra criada contém um universo impresso da natureza, seja humana, animal ou vegetal, arraigada de dramas, gozações, guerreiros e guerrilhas; elas passam processos inenarráveis até ganharem forma, adquirindo a própria maneira expressiva de ser .
 Assim os artistas tornam-se múltiplos elementos em composição. É um jeitinho delicado de um possível ‘tocar’ no sagrado de si, no sagrado da matéria e do universo. Quão singelo e taciturno subsiste nesse tocar!

Quando vemos uma criança brincar com um pedaço de madeira, podemos quase tocar o sagrado do mundo mágico que ela está prestes a criar, refletido para quem observa no ato do brincar e na forma com que se brinca. Essa percepção se dá quando passamos a não ver mais o pedaço de madeira em absoluto, mas sim como a criança ao brincar realiza voos para além do pensamento e da fantasia, transformando a matéria da madeira em um avião de quatro ou mais turbinas.

A linha invisível entre a arte e o oficio do artista pode ser visto como essa criança e seu brinquedo destilado e mágico, que faz de seu próprio ‘arcabouço de experiências’ um espaço  poético de seu ser sociológico e fisiológico. Assim, propicia viagem simbólica pelo espiritual e sagrado do oficio que coexiste no processo de uma criação alcançando a 'morada' da criação, a tal ponto que ‘o que está embaixo é como o que está em cima’.

É alcançando essa morada (digo alcançar pois é preciso conquistá-la), que o artista se utiliza de seu cadinhos simbólicos e começa a mistura de elementos  para tecer sua obra. Essa mistura trata de matéria e composições até lunares, já que a obra sempre possui o brilho das estrelas. Os elementos em questão são extraídos da própria 'veia da vida' do artista, através do refinamento apurado de seu olhar, seus questionamentos e possibilidade de transformação; bem como, de sua época, com tudo que preenche seu tempo, social, cultural e econômico. O intangível, como na destilação do elemento mercúrio, tão usado pelos alquimistas, talvez seja a destilação de sua técnica adquirida através de estudos, referências e identificação. Com a chama do fogo, ou até mesmo das práticas, o artista dilui e assimila os mesmos concebendo a sua identidade artística e sua assinatura. O instrumento fogo, usado abaixo do tubo a ser aquecido determinado elemento pelos alquimistas, é a chama da vela, que reside no coração do artista. É a chama do desejo que nunca se apaga, inflama por dentro e sai aquecido para fora em forma de obra. Quão bela é a chama de uma vela!

Para o filósofo Herder 'o que se chama vida na criação é, em todas as formas e em todos os seres, um mesmo e único espírito, uma chama única', que se faz  na multiplicidade e nos detalhes que a chama produz no imaginário. Para Bachelard, 'ela ainda está enraizada em nossos passados longínquo pela chama de uma admiração natural, que determina a acentuação do prazer de ver e nos força a olhar'.  

O artista e o alquimista são de fato andarilhos que percorrem estradas da vida. São cúmplices da vida, e a vida, cúmplices deles. A ordem não importa.

É como se o corpo físico ficasse suspenso, sob o que sabemos e o que não sabemos. O voo do além corpo do artista é longínquo e breve para os ponteiros do relógio presente. Porém, em criação, o tempo não passa e não pára, coexiste em um lugar que os pertencem. Extraído de lá, materializado em sua criação, traços ou linhas tênues de seu próprio conhecimento, ou de  conhecimentos deixado por gerações ou até no alcance do conhecimento futuro. Esse conhecimento do futuro pode até não ser reconhecido em sua época ou em vida. De fato, com o chegar da hora ou período, é que se obtém reconhecimento. Porém, se serão famosos ou não, isso não importa para o presente escrito. Cada artista desenvolve a arte à sua própria maneira. Algo comum a todos eles é o fato de não saberem o significado da palavra desistir, por isso continuam a espalhar beleza para os nosso olhos e alimentos para nossa mente e alma. O que todos possuem fortemente em comum é o tempo atemporal e a labareda da chama da vela que os fazem ressurgir como fênix em cada criação.

Foto: Dervish

A criação faz com que todos os artistas habitem a mesma morada; é um ateliê universal que recebe as gerações passadas, presentes e as do futuro, estejam elas onde estiverem no espaço ou espaço/tempo, seja numa arte escrita como em um conto de amor expresso, em um livrinho de compota de pimenta, nas meninas 'aladas' ou menina azul, no movimento de um ator, ou na borboleta que faz voar os 75 poetas. Todos artistas em suas distâncias alcançam em seu voos através do destino (invisível, mas possível), o ateliê da casa dos artistas. Cada artista eterniza sua própria idade na obra criada. Não rejuvenescem, mas o tempo se materializa impresso em obras.

O sagrado e a alquimia, a arte e o oficio, o criador e o ato da criação possuem um elo entre o tempo e o espaço, o ritualístico e a sociedade contemporânea, ou entre a expressão da arte e a arte de se viver a vida, atravessando os limites da consciência. O possível é um fio invisível que une a arte à vida correlacionando-a com o conhecimento, em uma longa viagem através dos caminhos de um andarilho, em que o processo da criação forma-se e dá forma. E assim, toca-se o segredo da metafísica na morada da criação. 



Patrícia Rita na Exposição Sobre Lagartas e Borboletas de Flávia Taiano


Patrícia Rita é escritora e atriz, ministra aulas de teatro, dança e antropologia na art-performance para criança e adultos, com base na antropologia teatral.



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