quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O tema de hoje é: COMPREENSÃO

por Nida del Guerra Ferioli

Clássicos em fine art: Pinóquio e Grilo Falante de Rodel Gonzalez


O que dizer desta bela palavra? Sim, bela, pois ela nos é tão necessária pelo que significa; desde o nosso nascimento até o fim dos nossos dias!

Como assim? perguntarão vocês, por que ela “a compreensão “ é tão importante?

Pensemos juntos: ao nascer, somos amados e compreendidos ao derramarmos lágrimas. As lágrimas, que são naquele momento da nossa vida a única linguagem... E então nossos pais nos compreendem e satisfazem, com muito carinho, as nossas diferentes necessidades.
  
E assim o tempo vai passando e a vida continua, crescemos, chegamos à adolescência; como é importante nesta fase sermos compreendidos pelos nossos pais, pelos nossos professores e pelas pessoas que nos rodeiam!

Nós nos consideramos felizes ao constatar que somos compreendidos nas diversas circunstâncias da vida, no decorrer da nossa existência. A compreensão por acertos e falhas facilitam a superação dos percalços a que somos submetidos.

E quando então chegamos ao crepúsculo da nossa jornada é a hora que mais precisamos desta tão desejada compreensão... da parte dos filhos, dos netos e até dos bisnetos que, mesmo sem perceber, nos fazem tão bem, com os seus carinhos, delicadezas e muito amor.

Mas agora eu me pergunto e me questiono: queremos ser compreendidos; mas será que somos, e seremos compreensíveis com o nosso próximos?! Pensem nisso com carinho!

Obrigada, meus queridos leitores!



NIDA DEL GUERRA FERIOLI (94) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014); 
Professora de italiano; Autora do livro “Vivendo a Vida” 
e colaboradora muito especial do BAP







sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Impressões: Sejamos todos feministas





Penso num pequeno grande livro: "Sejamos todos feministas", de Chimamanda Ngozi Adichie (Cia. das Letras, 2015). Uma palestra proferida pela autora, nigeriana e autora de diversos livros de sucesso ("Hibisco roxo", 2011; "Americanah", 2014).



Em 50 páginas ela mostra sua vivência na condição de mulher e rejeita a educação, desde a dos meninos, aos homens feitos, igualmente massacrados por formas de exclusão, capazes de desnaturar a ambos os gêneros.

Vale a pena ler, especialmente aqueles que têm filhos e filhas na idade de meus netos ou de minhas enteadas fazendo ou ingressando em faculdade. 

Chimamanda Ngozi Adichie

Boa leitura!



Caetano Lagrasta é  Consultor Jurídico e Jornalista. Autor  de livros de contos, poemas e poemas infantis. Articulista do Projeto Tempestade Urbana. Colaborador do Boca a Penas. Mantém o site www.caetanolagrasta.com


terça-feira, 13 de outubro de 2015

A possível alquimia na magia do processo criativo

por Patrícia Rita


Quando surgir a necessidade, leve seus olhos para a natureza e deixe que os mesmos experimentem. Permita que os seus olhos vejam as árvores crescerem, como os botões de rosas se formam, como uma borboleta nasce... Assim, você também, se tornará tão rico quanto à natureza, pois a contemplação é uma revelação. Essa revelação é um olhar sob o ateliê de Deus; onde repousa o mistério da criação e o mistério da vida
Paul Klee

Um assunto que me faz prosear em disparada é o processo de criação vivenciados pelos artistas. Mesmo que haja debates e prosas a despeito do mesmo, em estado puro contemplamos a obra em sua inteireza. Do processo, o artista é que retém os caminhos sinuosos e curvos propiciado pelos trajetos percorridos em detrimento ao ato de sua criação; bem como, os sabores e o 'como' alcançaram a superação de suas próprias limitações, vivendo experiências inimagináveis, reinventando até a si mesmo. A revelação que estes caminhos o presenteiam são guardados em sua 'caixinha mágica', no interior de sua alma. Há de se achar que o artista possui esse egoísmo inerente de seu oficio. Que coisa mais engraçada!

Esses caminhos silenciosos, mesmo que cada área artística possua a sua maneira de caminhar, com movimento durante a criação ou a quase imobilidade do artista operante, auxilia a elevar todo o ser de qualquer artista. O comum a todos eles é o 'alçar de voos' rumo a morada etérea, a morada da criação, a qual se visita e é seduzido a revisitá-la durante toda a sua vida criativa.

Ele é provocado, envolvido a tal ponto que se transborda para além do espaço/tempo, tanto com a chegada de uma inspiração, quanto com o não haver da mesma. Porém, de tanto o artista revisitar tal morada, ele conquista o direito de gerar sua própria inspiração a partir do nada. Carrega consigo seus próprios elementos em matéria bruta que compõem seus instrumentos de trabalho, seja utilizado para manejo, criação de personagens ou poemas, percorrendo o mistério repleto de bagagem adquirida ao longo de suas vidas, até  alcançar a aprendizagem oferecida pela obra criada. Uma revelação que  vai se revelando.

Nem sempre os caminhos do processo criativo são claros: há neblina que o artista se depara pelo caminho. E quão grandiosa ela é! Como dito por Kalil Gibran 'escuro e nebuloso é o inicio de todas as coisas, mas não é o seu fim', ouso reforçar o dito, visto que após a neblina e mesmo quando finalizado uma obra, ela não se conclui; pois quando alcança o olhar de alguém ou muitos olhares, a obra se reinventa, realiza sua própria destilação, é levada a outro lugar através das experiências e olhares de outras pessoas. Não sei se por teimosia, mas é fato, a obra volta até o seu criador tão repleta de vida que ela chega a reinventar o próprio artista. Vê, ilumina tudo!

No todo, seja prazeroso ou um tanto chato, claro ou escuro, de forma breve ou longa, o ato de transformar uma coisa em outra no processo da criação se aproxima ao da alquimia, de maneira respeitosa e delicada. Não é propriamente a alquimia em seu estado puro que interessa aqui, ela é uma outra forma de arte, ciência e de conhecimento, que possui outra forma de estar no mundo. E é essa 'outra forma de estar' que a possível alquimia pode estar envolta no processo da criação.

Para os artistas, assim como para os alquimistas, cada etapa de um processo criativo e de estudo possui  uma aprendizagem que auxilia na evolução no seu ser, de maneira que desencadeia a beleza e harmonia ao mundo.

Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus Von Hohenheim – O Paracelso, alquimista (1493-1541)
   

Para eles, a natureza e o ser formam um único corpo que perpetua a todo momento. A obra criada contém um universo impresso da natureza, seja humana, animal ou vegetal, arraigada de dramas, gozações, guerreiros e guerrilhas; elas passam processos inenarráveis até ganharem forma, adquirindo a própria maneira expressiva de ser .
 Assim os artistas tornam-se múltiplos elementos em composição. É um jeitinho delicado de um possível ‘tocar’ no sagrado de si, no sagrado da matéria e do universo. Quão singelo e taciturno subsiste nesse tocar!

Quando vemos uma criança brincar com um pedaço de madeira, podemos quase tocar o sagrado do mundo mágico que ela está prestes a criar, refletido para quem observa no ato do brincar e na forma com que se brinca. Essa percepção se dá quando passamos a não ver mais o pedaço de madeira em absoluto, mas sim como a criança ao brincar realiza voos para além do pensamento e da fantasia, transformando a matéria da madeira em um avião de quatro ou mais turbinas.

A linha invisível entre a arte e o oficio do artista pode ser visto como essa criança e seu brinquedo destilado e mágico, que faz de seu próprio ‘arcabouço de experiências’ um espaço  poético de seu ser sociológico e fisiológico. Assim, propicia viagem simbólica pelo espiritual e sagrado do oficio que coexiste no processo de uma criação alcançando a 'morada' da criação, a tal ponto que ‘o que está embaixo é como o que está em cima’.

É alcançando essa morada (digo alcançar pois é preciso conquistá-la), que o artista se utiliza de seu cadinhos simbólicos e começa a mistura de elementos  para tecer sua obra. Essa mistura trata de matéria e composições até lunares, já que a obra sempre possui o brilho das estrelas. Os elementos em questão são extraídos da própria 'veia da vida' do artista, através do refinamento apurado de seu olhar, seus questionamentos e possibilidade de transformação; bem como, de sua época, com tudo que preenche seu tempo, social, cultural e econômico. O intangível, como na destilação do elemento mercúrio, tão usado pelos alquimistas, talvez seja a destilação de sua técnica adquirida através de estudos, referências e identificação. Com a chama do fogo, ou até mesmo das práticas, o artista dilui e assimila os mesmos concebendo a sua identidade artística e sua assinatura. O instrumento fogo, usado abaixo do tubo a ser aquecido determinado elemento pelos alquimistas, é a chama da vela, que reside no coração do artista. É a chama do desejo que nunca se apaga, inflama por dentro e sai aquecido para fora em forma de obra. Quão bela é a chama de uma vela!

Para o filósofo Herder 'o que se chama vida na criação é, em todas as formas e em todos os seres, um mesmo e único espírito, uma chama única', que se faz  na multiplicidade e nos detalhes que a chama produz no imaginário. Para Bachelard, 'ela ainda está enraizada em nossos passados longínquo pela chama de uma admiração natural, que determina a acentuação do prazer de ver e nos força a olhar'.  

O artista e o alquimista são de fato andarilhos que percorrem estradas da vida. São cúmplices da vida, e a vida, cúmplices deles. A ordem não importa.

É como se o corpo físico ficasse suspenso, sob o que sabemos e o que não sabemos. O voo do além corpo do artista é longínquo e breve para os ponteiros do relógio presente. Porém, em criação, o tempo não passa e não pára, coexiste em um lugar que os pertencem. Extraído de lá, materializado em sua criação, traços ou linhas tênues de seu próprio conhecimento, ou de  conhecimentos deixado por gerações ou até no alcance do conhecimento futuro. Esse conhecimento do futuro pode até não ser reconhecido em sua época ou em vida. De fato, com o chegar da hora ou período, é que se obtém reconhecimento. Porém, se serão famosos ou não, isso não importa para o presente escrito. Cada artista desenvolve a arte à sua própria maneira. Algo comum a todos eles é o fato de não saberem o significado da palavra desistir, por isso continuam a espalhar beleza para os nosso olhos e alimentos para nossa mente e alma. O que todos possuem fortemente em comum é o tempo atemporal e a labareda da chama da vela que os fazem ressurgir como fênix em cada criação.

Foto: Dervish

A criação faz com que todos os artistas habitem a mesma morada; é um ateliê universal que recebe as gerações passadas, presentes e as do futuro, estejam elas onde estiverem no espaço ou espaço/tempo, seja numa arte escrita como em um conto de amor expresso, em um livrinho de compota de pimenta, nas meninas 'aladas' ou menina azul, no movimento de um ator, ou na borboleta que faz voar os 75 poetas. Todos artistas em suas distâncias alcançam em seu voos através do destino (invisível, mas possível), o ateliê da casa dos artistas. Cada artista eterniza sua própria idade na obra criada. Não rejuvenescem, mas o tempo se materializa impresso em obras.

O sagrado e a alquimia, a arte e o oficio, o criador e o ato da criação possuem um elo entre o tempo e o espaço, o ritualístico e a sociedade contemporânea, ou entre a expressão da arte e a arte de se viver a vida, atravessando os limites da consciência. O possível é um fio invisível que une a arte à vida correlacionando-a com o conhecimento, em uma longa viagem através dos caminhos de um andarilho, em que o processo da criação forma-se e dá forma. E assim, toca-se o segredo da metafísica na morada da criação. 



Patrícia Rita na Exposição Sobre Lagartas e Borboletas de Flávia Taiano


Patrícia Rita é escritora e atriz, ministra aulas de teatro, dança e antropologia na art-performance para criança e adultos, com base na antropologia teatral.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Cadáveres Insepultos


por Caetano Lagrasta

IMPRESSÕES:

Livro: Lugar Nenhum - militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura
Autor: Lucas Figueiredo
Ed. Companhia das Letras, 2015




Acabo de ler "Lugar Nenhum - militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura", de Lucas Figueiredo, editado neste ano pela Companhia das Letras. Destemido, mesmo, não perdoa o autor, na consulta de documentos tanto uns como outros. A falta de coragem ou vergonha dos presidentes, a partir de Sarney até Dilma é acachapante. Veja-se que existe condenação pela Justiça Federal, determinando a abertura dos arquivos secretos, não cumprida por justificativas e evasivas sem qualquer respaldo na verdade, com isto livrando-se patentes e subordinados de Cenimar, Cie, Cisa, DOIs e CODIs.

A questão se arrasta para mais de 30 anos e ao cabo, a Comissão Nacional da Verdade, igualmente se omite sobre os documentos entregues pelo repórter Lucas Ferraz e que, demonstram de forma cabal que os arquivos não teriam sido totalmente destruídos e os microfilmes que ele entregou não foram considerados, salvo por trocas de ofícios burocráticas, sendo omitidos pela CNV. Uma verdadeira vergonha para nosso país e mais uma demonstração de desprezo pelos povos indígenas e pelas famílias que não desistem da busca por seus cadáveres insepultos. O medo dos militares não deixou, jamais, de rondar os governos civis que se escondem sob a fachada de "democráticos".

O livro é essencial para aqueles que querem realmente conhecer a história das torturas, das mortes, dos insepultos. Parabéns a Lucas Figueiredo e à Cia. das Letras, sem esquecer também o jornalista Lucas Ferraz por sua coragem.



Caetano Lagrasta é  Consultor Jurídico e Jornalista. 
Autor  de livros de contos, poemas e poemas infantis. 
Articulista do Projeto Tempestade Urbana. 
Colaborador do Boca a Penas.
Mantém o site www.caetanolagrasta.com

domingo, 4 de outubro de 2015

O Poder da Lágrima

Big Eyes - Margaret Keane

por Nida del Guerra Ferioli


Meus queridos; me ocorreu insistentemente um pensamento, sobre a lágrima. Com certeza, vocês já pensaram no poder que tem essa pequenina gota de água salgada que escorre pelos nossos olhos, quando sentimentos de tristeza ou de alegria aparecem exatamente para demonstrar, mesmo sem querer, a nossa dor ou nossa felicidade!

Repito; o Poder da Lágrima é imenso. Bem-vinda, por exemplo, na hora do nascimento de uma criança; em um casamento; nos olhinhos lindos de uma adolescente que se emociona ao ver chegar o seu primeiro namorado, enfim, em dezenas e dezenas de vezes, nas nossas vidas. 

Porém, não podemos esquecer o reverso da medalha. Como ela “as lágrimas” nos aliviam a alma e o coração, nos momentos críticos e tristes da nossa existência. É então o quanto ela se torna primordial e benfazeja!

Mas, vamos agora a um adendo, talvez pessimista, mas creio, necessário.

O que dizer das “Lágrimas de crocodilo" isto é, lágrimas falsas, traidoras, que tanto mal fazem às pessoas crédulas, não preparadas para se precaver dessas maldades humanas.

É triste, não é mesmo? O que fazer então? Eu diria a vocês, linda juventude! Acautelem-se! Cuidado com as lágrimas que brotam docilmente nas faces de pessoas que hipocritamente abordam assuntos excusos e que, a meu ver, jamais deveriam sentir no próprio semelhante, a felicidade do escorrer de uma lágrima, pois quanto poder tem a verdadeira e sentida lágrima, pois foi usada indevidamente!

Sabendo pois, quanto poder tem a verdadeira e sentida lágrima, me despeço, amigos e amigas, com um grande abraço e agradecimentos por lerem esse meu texto.

Nida




NIDA DEL GUERRA FERIOLI (94) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014); 
Professora de italiano; Autora do livro “Vivendo a Vida” 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

OITO PERGUNTAS A PENAS com LUNNA GUEDES



Lunna Guedes é escritora, editora... artesã de livros e degustadora de cafés, sendo seus favoritos os que são servidos em copos brancos, com uma sereia de duas caldas desenhada na "borda". É seu placebo... remendo.
Nasceu em Gênova, em 1981... mudou-se para São Paulo em 2002, onde conheceu seu Mr. Darcy. Abandonou a prática da psicanálise e foi viver sua paixão: escrever e costurar seus livros: hoje tem um cachorro, um punhado de livros, sendo três seus e um punhado dos outros. Nunca foi tão feliz... caminha sem pressa, com prazer e está sempre acompanhada pelas ilusões da vida, a arte dos dias e a paixão contínua.

Lunnaguedes por Lunna Guedes  – vive com um punhado de tempo "passado" na pele e qualquer coisa de tempo "futuro" na cabeça. acostumou-se a viver sem mapas… e, a se mudar de cá para lá.
mulher. sagitariana. blogueira. se diz italiana as segundas. paulistana as terças. sem lar ou país as quartas e, nos demais dias da semana, se diz outra que não ela, que não ninguém…
Tem um boxer chamado Patrick. um namorado a quem, por força da língua, chama de: "amore mio" e um punhado de pessoas, que coleciona, como se fossem figurinhas e ela um álbum incompleto.
não gosta de fazer compras. detesta dias de sol e por consequência, ama dias de chuva. teve vários outros nomes, mas como não suporta rótulos, foi ao longo dos dias, inventando superfícies. já foi Raissa, Alexandra, Deborah, Catarina … mas volta sempre a ser lunna das noites inteiras! E passadas as seis horas – quando não invertem o horário e mandam tudo para mais tarde – ela faz uma pausa: fecha os olhos e reza sua prece; um poema de Eliot, Borges ou Campos…






BAP1: Fale-nos de como uma psicanalista deixa para trás seu caminho profissional e abraça outro, o das letras, da escrita. Como se deu essa ruptura/metamorfose e por quê?


Lunna Guedes: Ruptura significa deixar a casca e não foi o que aconteceu comigo... eu percorri o caminho inverso. Saí totalmente de mim... me abandonei e fui em outras direções. Eu me lembro como se fosse ontem do reencontro, diante do espelho. Senti saudades de estar sozinha, na cozinha de casa, de frente para o mar, com um punhado de papéis em banco a conversar com esse eu que habita o fundo de minha matéria. Eu escolhi voltar para a casa que sou. Como disse Pessoa: “primeiro a gente estranha-se, depois entranha-se”.


BAP2: O que representa “Lua de Papel” na sua trajetória artística?
 
LG: Só há uma maneira de definir "lua de papel"... é minha metástase. 


BAP3: Você escreve e edita livros, e é blogueira. O futuro da literatura está no livro físico, nos e-books e blogs ou em ambos? Fale também sobre esse campo de atuação da literatura no mundo dito virtual.

LG: A literatura é uma voz que precisa ser ouvida... não há um mundo para ela, há um lugar... que somos nós. Eu comecei a usar o blogue, aconselhada que fui por um amigo que sabia da minha necessidade de produzir escritos (ensaios). Sempre pensei, em algum momento do meu aprendizado, ter um livro impresso, mas não queria esse formato de livrarias e prateleiras, porque o alternativo e independente me seduziu desde o princípio. Sou rebelde por natureza. Quero leitores, e não pessoas que compram livros para movê-los de uma prateleira para outra.
O mundo virtual é apenas mais uma voz e, se souber ser usada pelo escritor, faz eco... caso contrário, fica pelo caminho. 


BAP4: Em sua biografia, você diz: “Lunna caminha sem pressa, com prazer e está sempre acompanhada pelas ilusões da vida, a arte dos dias e a paixão contínua.” Até que ponto chega a sua liberdade? Quando você percebeu que a pressa da vida não deveria mais te atingir?

LG: ...quando li “passagem das horas”, de Álvaro de Campos: “trago dentro do meu coração, como num cofre que se não pode fechar de cheio. Todos os lugares onde estive. Todos os portos a que cheguei. Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias. Ou de tombadilhos, sonhando. E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero”. Percebi que a escrita seria o meu Norte, mas era preciso tempo... respeitar as minhas pausas, compreender minhas quietudes e, principalmente, aceitar a minha monotonia. A escrita pede disciplina e me lembra constantemente de que eu sou uma escritora até a última linha... depois disso, não sou ninguém, mais nada, e preciso aceitar que talvez seja para sempre. Não é fácil. Já me acabei milhares de vezes... Confesso que, a cada nova morte, tem sido bem mais fácil renascer, mas em algum momento não será mais possível. Eu sei disso, ainda que não tenha aceitado muito bem... (risos)


BAP5: Você retira dos acontecimentos do cotidiano a matéria-prima para seus escritos, ou tudo que você escreve é fruto de sua imaginação? A maioria dos escritores diz que mistura tudo. Como é esse processo da escrita para você?

LG: Demorei muito para compreender as regras desse jogo... até que li o diário de Sylvia Plath e uma passagem dela reverberou em minhas entranhas. Ela dizia que adorava pessoas... eu dizia justamente o contrário, mas percebi que estava errada. Eu adoro pessoas e tudo que elas acrescentam ao meu imaginário. Para ele, pessoas são ingredientes... quem sou eu para dizer o contrário? (risos) 


BAP6: Aos escritores, em geral, é atribuído um lugar de “sujeito suposto saber”, afinal, eles “sabem” tudo dos seus personagens, imaginam os leitores. Você concorda com essa premissa? Os escritores possuem essa onipotência mesmo?

LG: Há de se preservar qualquer coisa de mistério... não me lembro quem disse isso, mas concordo. A vida nos surpreende o tempo todo... nossos personagens, se vivos, seguem o mesmo caminho. 


BAP7: Sendo uma genovesa que adotou o Brasil, e mais precisamente São Paulo – uma cidade caracterizada pela combinação de diferentes povos de todos os locais do mundo – como sua casa, como você analisa a atual crise migratória européia? 

LG: Acho um bocado difícil... eu vim para São Paulo pela primeira vez a contragosto. Não tive opção e, quando fui embora, disse que não voltaria. Voltei em 2002 para “encontrar” a cidade de um dos meus autores favoritos: Mário de Andrade. Não foi fácil... mas foi bem menos difícil. Demorei a me acostumar, ambientar. A língua não foi o único problema. Os costumes são outros. A realidade... Então, imagino a realidade de todas essas pessoas em fuga. Ninguém está preparado para esse problema: nem as pessoas que fogem de seu país. nem as que terão que recebê-las.
Acho que a Europa será outra em pouco tempo... e é isso o que mais assusta, porque as pessoas têm medo da mudança, principalmente quando não há tempo para se preparar para o inevitável.  


BAP8: Fale um pouco sobre o seu selo artesanal, a Scenarium. Fazer e vender livros artesanais, além do prazer enorme que deve lhe proporcionar, também é um bom negócio (no Brasil e no mundo)? Explique como é o processo editorial de um livro artesanal?

LG: Quando pensei o livro artesanal, não o vislumbrei como um projeto para os outros, e sim para mim. Não queria o formato tradicional do livro. Na infância, eu escrevia para meus autores favoritos, como se fossem iguais... e isso me fez acreditar que um escritor deve cuidar do seu leitor... foi justamente isso que o livro artesanal me permitiu. Exemplares numerados, tiragem pequena e a certeza de que o meu leitor teria total acesso a mim, sabendo, entre outras coisas, que o meu livro seria uma parte minha e uma parte dele. Uma espécie de simbiose.
Foi uma surpresa – confesso – me deparar com pessoas interessadas em ter seus livros costurados por mim. Quando me dei conta, já não conseguia mais atender aos pedidos sozinha... foi quando surgiu a ideia de “produção independente”.
Desde que inventei a Scenarium, o meu trabalho consiste em garimpar autores que combinem com o meu estilo Editorial e, principalmente, que me façam sentir vontade de alinhavá-los... eu sou uma pessoa muito exigente, chata e tenho para mim que a escrita deve ser um diálogo entre autor e leitor. Se não conversa comigo... recuso, mas não quer dizer que o autor não seja bom, apenas não serve para o meu projeto.
Não gosto de nada que aconteça sem esforço... acho que um autor deve ler seus escritos, ter consciência de que não estão prontos e talvez nunca fiquem. Sobretudo, precisa entender que o olhar do Editor (no caso, o meu) vai atravessá-lo e, em algum lugar, existirão reticências...
 


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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Denise Moraes, Lourdes Rivera e Marcelo Mourão