quinta-feira, 3 de setembro de 2015

OITO PERGUNTAS A PENAS com LEILA MÍCCOLIS



Leila Míccolis - Carioca, advogada (sem exercer atualmente a profissão), com Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado em Teoria Literária pela UFRJ, escritora, 30 livros editados (poesia e prosa), obras publicadas na França, México, Colômbia, África, Estados Unidos e Portugal, teatróloga, roteirista de cinema e escritora de novelas de TV, entre elas: “Kananga do Japão”, “Barriga de Aluguel” e “Mandacaru”. Ministra cursos on line de teledramaturgia. Elaborou verbetes para a “Enciclopédia de Literatura Brasileira” (MEC/OLAC) e também publicou: “Catálogo da Imprensa Alternativa”, 1986, pela RioArte/Prefeitura do RJ. Publicada na Revista Poesia Sempre (Biblioteca Nacional/MEC), consta do Banco de Dados Informatizados do Banco Itaú - Módulo Literatura Brasileira, Setor Literatura/ Brasileira/Poesia/Tendências Contemporâneas) e dos “Cadernos Poesia Brasileira” - vol. 4, “Poesia Contemporânea”, editado pela mesma instituição, 1997. Júri de diversos concursos nacionais de poesia, como da Fundação Biblioteca Nacional (RJ) e Cidade de Belo Horizonte (MG). Sua obra é citada e analisada por escritores como: Affonso Romano de Sant’Anna (Ed. Vozes/1978), Glauco Mattoso (Ed. Brasiliense/1981), Jair Ferreira dos Santos (idem/1986), Heloísa Buarque de Hollanda e Ignácio de Loyolla Brandão (1997), Assis Brasil (Ed. Imago/FBN/UMC, 1998), Wilberth Claython Ferreira Salgueiro (EDUFES, 2002). Em 2013, a Ed. Annabume (SP) publicou “Desfamiliares” – poesia completa (1965-2012). Coedita Blocos Online, com Urhacy Faustino, portal cultural há 19 anos na Internet: www.blocosonline.com.br


BAP1: Nas décadas de 60 e 70, você, Ana César, Alice Ruiz e outras poetas vieram com uma nova voz feminina na poesia. Um eu-lírico feminino que assumia a sua condição feminina de forma plena e que rompia com o papel desenhado - pela sociedade machista - para a mulher somente desempenhá-lo. O que dizer, em poesia, sobre as mulheres de hoje e suas conquistas?

Leila Míccolis: Antes da minha resposta, faço uma observaçãozinha: nos anos 60, aqui no Brasil, a eclosão foi do Tropicalismo, do underground; a minha mudança de estilo poético, os livros de Ana C. e os de Alice Ruiz foram posteriores: Affonso Romano de Santana em sua página Jornal de Poesia, do Jornal do Brasil, em 1973, foi o primeiro a publicar esta minha guinada de 360º na poesia (antes dos anos 70 meus livros eram bastante tradicionais, sem qualquer diferencial); a primeira obra de Ana Cristina, “Cenas de Abril”, foi de 1979, e “Navalhanaliga”, da Alice, data de 1980. O que eu quero dizer com isso é que são três momentos sociopolíticos diferentes do país: o da mudança de regime (com o término da democracia e a instauração do golpe militar); o da permanência da ditatura (com seus nefastos efeitos diretos e colaterais por mais de quinze anos, gerando inclusive o fenômeno do “desbunde”); e a década da anistia, da “abertura” (com a vertiginosa expansão das multinacionais, na área econômica). Quanto à sua pergunta, acho que a poesia atual continua lidando com o material trazido pela nossa poesia que inovou na temática, na coloquialidade, na desmitificação de papéis sociais, no questionamento, na perspectiva, na desconstrução do romantizado universo feminino (cor-de-rosa ou rosicler...), na ironia mordaz, além de introduzir uma ferrenha crítica às verdades eternas e aos padrões de comportamento estereotipados. Na atualidade todos esses elementos continuam presentes, mas com roupagens diferentes, interconectados com os recursos de nossa era tecnológica e enfocando as perplexidades da Modernidade Líquida.

BAP2: O movimento poético no qual você surgiu já recebeu, aos olhos dos estudiosos e críticos, várias denominações, tais como “Poesia Marginal”, “Geração Mimeógrafo e outros(as). Você prefere chamar de “Geração 70”. Como deveríamos chamar a poesia feita nos dias de hoje? E como você se vê inserida nela, qual o seu papel dentro dela?

LM: Embora ame Teoria Literária, não sou a favor de rótulos, que em geral afunilam o contexto do texto literário. Uso-os porque, a partir de suas criações, não adianta ignorá-los (o que resta é mergulhar em uma análise mais profunda sobre eles). Apesar de nossa poesia não se atrelar apenas à ditadura então vigente (ela privilegia o questionamento da microfísica do poder, existente em qualquer tempo e em qualquer tipo de regime ou de sociedade), prefiro “Geração 70”, pelo marco histórico que julgo importante até mesmo para a caracterização do conceito de geração. Com relação à poesia atual, chamo-a de poesia contemporânea, para não restringir sua perspectiva nem seu campo de atuação. E sobre a minha inserção no cenário atual, vejo-me tranquilamente como mais uma voz em meio à pluralidade de falas, porém consciente do meu ousado pioneirismo de ter rompido com os modelos canônicos da produção feminina surgida anteriormente no modernismo, parnasianismo ou romantismo.

BAP3: O livro 26 Poetas Hoje, organizado por Heloisa Buarque de Holanda, foi considerado um marco na produção literária por representar um movimento poético parecido com o Tropicalismo dos anos 60. Rompeu com a hierarquização da poesia e trouxe novos ares para a poesia canônica. Você vê algum movimento semelhante ao 26 poetas nos dias de hoje?

LM: Discordo de ter sido um movimento – não havia homogeneidade na produção poética –, e muito menos parecido com o Tropicalismo dos anos 60 (como escrevi na primeira resposta, as circunstâncias históricas, a atmosfera, os movimentos mundiais, as marcas e marcos ideológicos eram outros). Ao contrário de um só fluxo ou de uma corrente única e contínua, havia um ecletismo literário muito grande formando uma movimentação constituída de diversas trilhas poéticas; Heloísa, para mim, teve o mérito de reunir em 1976 algumas dessas tendências poéticas emergentes mais predominantes à época, segundo os critérios analíticos dela. Sinto a poesia brasileira, a partir da década de 1970 até a fase atual, como polimorfa, multidirecional, multifocal e abrangente, em vez de ser uma escola com uma mesma doutrina ou um mesmo sistema de regras. E essa cauda de estilos e propostas estéticas só enriquece a literatura brasileira. Sim, creio ser possível novas antologias criteriosas como a dos 26 poetas, reunindo as tendências mais expressivas da atualidade.

BAP4: Manoel de Barros e Hilda Hilst se isolaram em regiões distantes das cidades para escrever com mais calma e meticulosidade suas obras. Você foi para Maricá/RJ. Seria também uma forma de se isolar para poder manter o foco na construção da sua obra? Quais os cuidados que você tem com seus escritos? Há algum planejamento calculado?

LM: Não, não... (risos) minha vinda para Maricá deveu-se a fatores principalmente financeiros... Na época eu estava morando em apartamento e de aluguel. Então, procurei fugir dos dois termos desse binômio estrangulador, escolhendo um local bonito próximo ao Rio e financeiramente viável. Quanto aos prazos e planejamentos só tinha quando trabalhava em teledramaturgia (novelas de televisão), e só tenho, no momento, em determinadas ocasiões: quando se trata de assessorias (trabalhos que faço para terceiros com prazos estabelecidos), quando dou aulas de roteiro on line, ou quando atualizo Blocos (faço sempre uma pauta semanal para as atualizações diárias). Porém minha prosa e poesia deixo que surjam a mercê do sopro do vento, ou melhor, das minhas ventanias interiores. Só que não sei ser feliz sem ler e escrever diariamente, me asfixia.

BAP5: Você defende uma cultura livre, que não esteja atrelada a uma mídia que responde normalmente mais a interesses econômicos do que a interesses culturais. Então, conte como foi sua experiência em produções de novelas de TV produzidas principalmente pela Rede Globo, talvez a maior representante desse tipo de mídia.

LM: Está havendo um engano, eu não defendo uma cultura livre, esta afirmação me soa extremamente utópica: em uma economia capitalista ou globalizada não existe cultura livre... Além do mais, em um país onde escrever não é nem profissão legalizada, quem quer sobreviver desse ofício (sem carteira assinada, sem teto salarial, sem férias, sem 13º, indenizações e outros direitos trabalhistas) não pode se dar ao luxo de fechar portas. É o tipo do ganha-pão bastante suado, incerto e inseguro. Sou uma das poucas pessoas neste país que escreve todos os gêneros literários: de ensaio acadêmico a teledramaturgia. E gosto de ser assim: multifacetada e plural. Sempre sugiro, inclusive, que os escritores não se fixem em um caminho só. Neste sentido, e respondendo a sua pergunta, escrever para a TV foi uma ótima experiência, não me subiu à cabeça e não mudou em nada meus princípios nem minha ética. Ganhei muita experiência e contatos nessa fase da minha vida, assim como só tive a ganhar também com os roteiros das revistas em quadrinhos e com meu mestrado, doutorado e pós-doutorado na UFRJ – dois aspectos muito contestados em minha vida por terceiros, por acharem totalmente contraditório eu “banalizar” minha literatura ou eu enveredar pelo caminho acadêmico, visto meu nome estar vinculado à “Poesia Marginal”... Nos anos 70 chamaríamos esta postura intolerante e intransigente de “patrulhamento ideológico”... Então, essa é uma excelente pergunta para eu deixar bem claro meu posicionamento: não sou contra a aceitar-se nenhum emprego digno e honesto dentro do respectivo mercado de trabalho, ainda mais em se tratando de Letras e escritas; e acho um absurdo alijar-se a poesia desta relação comercial de oferta e procura (isto, sim, me parece incongruente), porque é por estes e outros pruridos que o gênero é o menos valorizado em nosso país e que eu, por exemplo, fazendo este ano 50 anos de poesia, e conhecida no meio artístico, estou até agora sem editora para publicar meu livro comemorativo.

BAP6: Qual a principal diferença que você considera existir entre as novelas da década de 80 e as atuais? Os temas eram muito diferentes dos temas de hoje? Além do curso que você ministra de roteiro televisivo, você tem algum outro plano nessa área? Pode contar?

LM: Para mim, a teledramaturgia dos tempos de hoje segue caminhos muito mais realistas do que ficcionais, diferentemente do que aconteceu na década de 1980 ou 1990. A verossimilhança com a realidade cedeu lugar à transposição da realidade para a telinha com toda a violência, corrupção, e mazelas atuais, já que afinal, sangue, escândalos e sexo dão mais ibope e, consequentemente, mais patrocinadores. Se nas épocas passadas a arte imitava a vida, agora a narra. Então, de repente, a novela virou quase que um registro não-jornalístico do que acontece no dia-a-dia, em vez de privilegiar a criação e a técnica literárias. Apesar de gostar muito de escrever novelas para televisão, no momento não tenho nenhum projeto neste sentido. Venho me dedicando, com muito prazer, ao ensino à distância da teledramaturgia e a ver surgir uma ótima nova geração de telenovelistas.

BAP7: Além dos poemas seus feitos baseados na família e no papel da mulher em espaço público ou privado, notamos uma poética que retrata muito o cotidiano, das pessoas e o seu. Até gatos já geraram vários poemas em sua obra. Tudo pode virar poesia? Basta captá-la? A diferença está no olhar do poeta?

LM: Minha poesia é toda voltada para o cotidiano (este direcionamento agora é corriqueiro, mas não o era nos anos 70). Então, para mim, tudo é poesia, desde que o observador tenha sensibilidade para captar um ângulo diferente, ou desde que tenha algo acrescentar à coisa ou à situação observada. A literariedade também é muito importante; porém essencial, no meu entender, é que o poeta trabalhe o óbvio e crie um material de reflexão sobre qualquer que seja o tema abordado. Aliás, este foi um dos méritos da Geração 70: mostrar que a poesia também pode mergulhar no “prosaico”, desvinculando-a da aura do inacessível, do sublime, do purismo (tirânico) do belo, e interligando-a a debates paralelos “nunca d’antes navegados”.

BAP8: Quando você começou a escrever e ficar conhecida não havia internet. E hoje você tem um site que está no ar há 19 anos. Como foi migrar de uma produção exclusivamente em papel para uma produção virtual? Você acha que a internet ajuda na divulgação da poesia, ou da cultura de um modo geral? As pessoas estão lendo mais poesia por conta da internet?

LM: Eu me apaixonei à primeira vista pela Internet, fiquei maravilhada com o fato de escrever para alguém e receber resposta imediata, em segundos, já que a outra pessoa estava on line. Então esta migração se fez de forma muito alegre e harmoniosa. Assim como eu acho que no planeta há lugar para todos, também acho que há lugar para a convivência pacífica de todos os tipos de veículos de divulgação, sem que um elimine o outro (nem o cinema matou a fotografia, nem a Web eliminará o livro impresso, embora, sem dúvida, ela esteja mudando a forma de leitura, que se deslocou do resultado da criação para o processo criativo propriamente dito). A meu ver, a Internet ajuda na divulgação poética sim, porém, paradoxalmente, com o volume de blogs aumentando a cada dia, o destaque individual fica muito prejudicado. Em geral, com raras exceções, os blogs privilegiam espaços de mostras individuais, e aí... isolados, nos expomos (parodiando a frase do Baumann: “separados, compramos”). Neste contexto, é difícil alguém se sobressair em meio a milhares de outros blogs com o mesmo tipo de estratégia de marketing – a competição e a concorrência são muito grandes. Em
Blocos Online o olhar é voltado para o coletivo: mantenho muito da postura que aprendi com a imprensa alternativa (generosa, solidária, fraterna): hoje (31/7/2015) ele disponibiliza 88.321 páginas na rede, agrega cerca de 10 mil escritores e sua estrutura é artesanal, feita página a página, escapando portanto das pré-formatações, dos layouts prontos e das limitadas ferramentas pré-configuradas pelos blogs. Além de divulgar literatura (respeitando e publicando todos os gêneros), compartilha notícias, eventos, registros, informações culturais. Infelizmente, porém, não vejo vida longa para os sites; alguém já me disse que se Blocos sobreviver por mais alguns anos vai ser uma “ave rara”, muito importante inclusive para mostrar como eram verdadeiras obras de arte estes tipos de sites, que estão em franca extinção, por diversos motivos: por serem extremamente trabalhosos e onerosos; porque a interação dos blogs fascina mais; porque os blogs são muito mais práticos e rápidos de se fazer, mais condizentes, pois, com o imediatismo e a velocidade do mundo atual; e porque estamos em plena “sociedade dos indivíduos”, como sarcasticamente definiu Norbert Elias. No mais, não sei se as pessoas estão lendo mais poesia por conta da Internet (em geral, os poetas da hoje não costumam ler poesia). Sei é que está se escrevendo bem mais... isto é inegável e flagrante.



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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Denise Moraes, Lourdes Rivera e Marcelo Mourão