segunda-feira, 13 de julho de 2015

1968 e outras estórias: por Julia Mainardes



Acabei de ler um conto cujo título é: 1968... autor: Caetano Lagrasta.

O que comentar... questiono ao meu eu, aquele mesmo eu do personagem que em meio aos frenesis e superficialidades que o cotidiano acaba por sufocar a real dimensão do ser humano? 

Comentar que o Conto em questão desnuda a crosta grossa e amarelada em que muitos se encontram afundados? Comentar a solidão mais bárbara onde os encontros, jantares se travestem de conversas superficiais e meticulosamente ordenadas, tudo para o escape da real enlevo em estarmos vivos! 

Comentar sobre os pequenos burgueses que arrotam conversas sobre questões políticas, vomitam opiniões cada qual com sua eloquência com a intenção de que suas reflexões sejam melhores que as anteriores... 

Comentar sobre as bibliotecas que cheiram a virgindade como o autor tão brilhantemente traduziu... aliás esta passagem me fez lembrar do filósofo Sêneca quando em sua obra sobre "A Tranquilidade da Alma" nos adverte: "Para que tantos livros e bibliotecas dos quais o dono, em toda sua vida, só lê os índices? Uma multidão de livros sobrecarrega, mas não instrui. Melhor seria dedicar-se a uns poucos autores do que vagar, e esmo, entre muitos". 

Comentar sobre a parte em que o personagem em meio aquela chatice toda tenta lançar um tema que possa trazer um pouco de poesia para a prosa quando argumenta: "Vamos falar do Vento"... Pobre alma pois os demais são tão insensíveis que acabam por bocejar diante da sugestão poética... 

Comentar que ao chegar em casa entorpecido, caí diante de sua porta, devaneia, por fim é sacudido por um vizinho de porta... 

Comentar que ao adentrar ao apartamento vai direto ao que realmente possui importância, entretanto neste mundo desconexo e desprovido do olhar ao outro, só têm importância para si e a esposa... Uma foto, um instantâneo de felicidade congelado no tempo... nosso personagem jamais poderia falar sobre isso naquele jantar, seria uma enorme perda de tempo.




Julia Mainardes é professora da Rede Estadual de Educação do Paraná, com Pós Graduação em Literatura Brasileira e História Nacional pela UTFPR.

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