quarta-feira, 3 de junho de 2015

Vila Formosa




                                                                                                          
por Rogério Miranzelo


Alfenas sempre foi para mim uma incógnita. Ou melhor: uma ausência.

Eu nunca corri em suas praças e ruas; nunca cortei a cidade de bicicleta. Nem brinquei de esconde-esconde em seus jardins, ou em torno da matriz. Papagaio, jamais soltei em suas suaves ladeiras. Tampouco lhe ouvi os sons da noite, ao redor de prováveis fogueiras de junho. Em suas esquinas, nunca soube o que é namorar; ou, como dizem agora, ficar.

Mas foi onde nasci, no dia das mães de mil novecentos e sessenta e um. Mudei-me para Belo Horizonte aos cinco meses e só agora retorno. Para cumprir a estranha sina de conhecer minha terra natal.

Diante da pergunta (Aonde você vai nas férias, à sua terra natal?), eu sentia um certo desconforto, quando criança. Afinal, que terra natal era essa, que eu nem conhecia?

A bem da verdade, eu havia adotado Belo Horizonte como sendo minha cidade natal (ou ela é que me adotara?). Foi onde me criei. É a cidade que mais amo. E Pará de Minas tornou-se meu cantinho reserva, a segunda cidade do meu coração. Lá, muitas férias, parentes e amigos. Era onde cantávamos, noite adentro, a belíssima canção chamada “Furnas”. Sem que eu soubesse, no entanto, que havia nascido quase às margens dessa linda represa.

Alfenas para mim era nada, simples abstração. Cidade sem casas, sem asas, sem cores e sem aromas. Nenhuma imagem. Nem sequer o mísero retrato na parede do qual falara o poeta.

Tenho sonhado com Alfenas...

Cheguei – a cidade me esperara.

O ônibus passa pela Avenida José Paulino da Costa. Sinto um calafrio na barriga. Tudo me é estranho, entretanto me invade a alma uma descabida nostalgia. Por quê?!

A cidade tem um belo porte. Prédios altos, bom comércio, universidade. Calçada de pedras, a Avenida São José é simpática. Estou atrasado: quase trinta e seis anos.

Ao me aproximar da praça central, meu coração dispara. Ao caminhar sob a copa de suas doces arvorezinhas, meus olhos tentam encher-se d’água, mas eu os proíbo. Ridículo me supor nesse papel.

Sem compreender o porquê da emoção, sinto-me puxado pelos bancos da praça, feito ímã. Sento-me várias e várias vezes ali. Não me canso de fazê-lo.

Visito os lugares óbvios: a igreja onde fui batizado e a Santa Casa, onde nasci. Vou à casa de uma amiga de meus pais. Ela me abraça, abraço de décadas, e diz considerar-me também seu amigo.

Na hora de partir, sinto que Alfenas não é mais uma ausência – ganhou corpo e conteúdo, imagens que ficarão para sempre comigo.

Leio com atenção o texto que emoldura um velho mapa da cidade, afixado na parede da rodoviária. Descubro aí que Alfenas, antes de se emancipar, chamava-se “Vila Formosa”. E, num breve instante, suponho ter entendido os meus porquês.  

Imagem: Matriz São José e Dores de Alfenas
http://fotosantigasdealfenas.blogspot.com.br/2013/05/matriz-sao-jose-e-dores-de-alfenas.html

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Rogério Miranzelo é jornalista e escritor






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