terça-feira, 16 de junho de 2015

reflexões a respeito da função da arte e do problema da extinção


olho para o horizonte e não foco em nada. o meu, agora, é um olhar vago. vago e perdido.
memórias de diferentes tempos, com diferentes cores. algumas são como um musguinho numa pedra; outras, como um horizonte infinito e ensolarado numa fazenda no município paulista de porto feliz, às margens do tietê. a vista embaça, meu pensamento viaja.
então mudo de assunto. cabe fazer da poesia um instrumento para a política? como ocorreu em tantas épocas e, para mim, nos meus anos de formação, quando o brasil e países vizinhos viviam as ditaduras? com emoção, cantavam: eu tenho tantos irmãos que não os posso contar, e uma irmã tão formosa que se chama liberdade. com comoção, declamavam: se o faraó construiu a pirâmide, ele fez isso sozinho?  se o imperador da china ergueu a grande muralha, foi com as próprias mãos? davam-se as mãos, para não dizer que não falavam de flores.
nabokov indagou se o artista deveria se render às questões políticas do momento, ou se faria melhor permanecendo puro, devotado à arte, em sua torre de marfim.
(mas o mesmo nabokov, que não se rendeu às questões políticas do momento, apesar de ter todos os motivos para fazê-lo, ponderou se foi ele, o poeta, quem matou, com as próprias mãos, os elefantes que forneceram o marfim para a torre)
enquanto isso: william carlos williams escrevia sobre uma mulher, de vestido rosa, embalando uma criança em frente a um banco.
(diante de meus olhos este poema de wcw aparece mais como uma tela, ao estilo de edward hopper, do que como texto, o que é uma evidente invenção da minha mente)
enquanto isso: kenneth rexroth traduzia um poema de ouyang xiu, no qual o poeta chinês lamentava que, na primavera, as noites fossem curtas, e constatava que a lamparina ardia, com luz fraca, enquanto insetos voadores a circulavam.
(nem kenneth rexroth e nem ouyang xi, este mil anos antes, se preocupavam com quem construiu a grande muralha. a muralha é tão grandiloquente. ouyang xi é tão conciso)
e antes: manuel bandeira avisava que as pessoas de um outro tempo, o verdadeiro tempo, estavam dormindo. profundamente. assim como manuel bandeira está dormindo agora.
na fazenda do meu avô chegava-se à sede através de uma longa alameda de flamboyants, das quais eu me lembro sempre floridas, vermelhas, como se florissem o ano inteiro, o que é uma evidente invenção da minha mente.
ah, a saudade!
enquanto isso: o livro, fechado, em cima da mesa. um copo de cerveja, já pela metade, ao lado. o copo transpira e molha um pouco a mesa. olho para o horizonte, sem focar em nada, e penso no passado, em pessoas, objetos e lugares extintos. tenho vontade de chorar.
então eu penso: o problema da arte explicitamente politizada é que ela corre sério risco de envelhecer tão logo as coisas mudem, e as coisas sempre mudam. as coisas não param de mudar.
ah, o tempo!
tenho vontade de chorar. besteira, digo para mim mesmo: enxugue as lágrimas, siga em frente. besteira, digo para mim mesmo: o que conta é o presente. tem tanta coisa boa no presente.
eu não matei elefante algum, a minha torre não é de marfim. para ser exato: nem torre é. o que eu poderia pretender fazer com minhas próprias mãos?
a mulher de vestido rosa em frente ao banco: há muito tempo extinta. a lamparina de oyang xiu, a luz fraca que ela emanava e os insetos que a rodeavam: há muito tempo extintos.
enquanto isso: eu, a caminho da extinção.
e agora: a alameda de flamboyants fica reverberando em minha mente. não tenho tantos irmãos. o que conta é o presente. eu queria poder cantar a saga dos camponeses em luta contra a opressão. em espanhol ou alemão.
e agora: os flamboyants que já não existem. o meu avô que dorme profundamente (extinto). olhar para o horizonte sem focar em nada. o livro fechado sobre a mesa. a água que transpira do copo de cerveja, molhando um pouco a mesa. enxugar a mesa antes que a água molhe o livro. enxugar as lágrimas.
e agora.



* Texto originalmente publicado na revista escamandro:

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