segunda-feira, 1 de junho de 2015

OITO PERGUNTAS A PENAS com PAULO STOCKER



Paulo Stocker é artista plástico, cartunista e muralista. Catarinense, natural de Brusque, ele é hoje uma das maiores referências artísticas da Rua Augusta — lugar que fica na região central de São Paulo frequentado por inúmeros trendsetters da América Latina e local que escolheu para morar com sua esposa e filha— e também do Brasil. Como todo artista, Stocker é uma criança que nunca parou de desenhar. Já são mais de 30 anos de carreira. Em suas inúmeras obras criou os cartuns, muitas vezes com uma pitada de erotismo, do site Stockadas; deu vida, junto com o publicitário Eduardo Rodrigues, ao personagem Tulípio, que está presente em dezenas dos principais bares do Rio de Janeiro e de São Paulo através do Cineboteco e da Revista do Tulípio; criou a reconhecida série Gambiarra, que aplica traços orgânicos e máquinas multicoloridas; e sua principal obra é o personagem Clóvis, presente em seus quadros e murais de rua. Clóvis possui um prestígio público enorme e é considerado pelo cartunista britânico Karl Dixon, do Diary of a Cartoonist and Writer, como um personagem genial pela simplicidade e singularidade de seus traços e formas de usar seus quadros. A forma com que Stocker usa os quadros do Clóvis é uma referência para artistas do mundo inteiro.
[Adolfo Martins]




BAP1: Muitos dos seus desenhos e pinturas remetem a uma reflexão crítica da realidade. Como você está vendo atualmente, no campo artístico e político, o Brasil? Você crê na arte como transformadora da realidade ou como transformadora de pessoas?

Paulo Stocker: Difícil responder a essa pergunta, me parece que no geral as pessoas emburreceram. Eu fico pensando em tudo que já foi feito pela humanidade de Da Vinci a Rodin. No século passado tivemos Francis Bacon, Dalí, Picasso. Temos uma vasta produção literária. Na minha area que é o humor gráfico, tivemos Sempé e Mordillo. Hoje predomina a demência e a crueldade. A arte poluída onde o desenho não respira. Isso me dá um cansaço enorme.

BAP2: Como nasceu o Clóvis? Qual era a ideia inicial? Esta ideia sobreviveu ao tempo? A mímica e o cinema mudo– tipo os filmes de Carlitos, de Charles Chaplin - foram as fontes para construir as tirinhas deste personagem? (Até porque as tirinhas dele não tem balões com diálogos).

PS: O Clovis nasceu inspirado no teatro de sombras. Tanto este como a pantomíma são artes milenares, eternas. É um recurso de um refinamento ímpar e universal. Difícil virar moda por ser complexo demais para algum oportunista querer ganhar dinheiro com isso. E simples demais para que pessoas limitadas o entendam. Como disse Da Vinci, a simplicidade é o último estágio da genialidade. Acredito profundamente nessa verdade.

BAP3: Ouvimos dizer que será lançado o livro do Clóvis. Gostaríamos que você falasse mais sobre este projeto.

PS: Estamos preparando esse livro faz dois anos. Será um objeto de arte, um requinte. Só estamos esperando essa crise psicológica passar; um melhor momento para lançarmos.

BAP4: O Tulípio foi baseado em alguém? Fala um pouco de como surgiu a ideia para fazer este personagem e quais foram/são os objetivos ao construí-lo.

PS: Existe essa confusão com o Tulipio, ele não é meu. Foi criação do poeta Eduardo Rodrigues. No Tulípio eu apenas desenho. É tudo culpa do Edu, eu jamais escreveria aquelas bostas todas, tudo surgiu da mente pervertida do Rodrigues.

BAP5: A sua infância e a sua adolescência ainda servem de material para compor a sua arte? E nos fale um pouco sobre o seu processo de formação como artista, em Brusque, Santa Catarina.

PS: Minha infância e adolescência foram riquíssimas. aliás, minha vida inteira foi rica existencialmente falando. E isso serve de arquivo. Toda essa bagagem é uma fonte de inspiração.

BAP6: Você ter alcançado um grande público e o Clóvis ser considerado pelo cartunista britânico Karl Dixon, do Diary of a Cartoonist and Writer, como um personagem genial traz para você a segurança de estar no caminho certo ou traz maior responsabilidade frente ao seu futuro?

PS: Só o fato de um inglês ter como inspiração número 1 a minha obra, já acho que se quebra um paradigma. Eu não estou indo lá desenhar os personagens deles, estou aqui fazendo um palhacinho no baixo-augusta e tenho esse alcance. Sim, aumenta a responsabilidade.

BAP7: O Clóvis, além do humor, passa para quem vê as tirinhas uma grande poesia, seja ela contestatória, lírica, visual. Quais as suas relações com a poesia? Você é leitor de poesia ou ela vem de outros campos artísticos como o cinema, o teatro, a pintura e/ou outros?

PS: Vem de tudo, tem muita poesia no cinema. E poesia não é só jardins e flores, é também sangue, suor e lágrimas. Tenho alguns poemas escritos, sou leitor de Camões, Pessoa, Quintana. Creio que o Clovis traduz isso.

BAP8:  Quais são os seus planos, os projetos para o futuro?

PS: Conseguir sobreviver do meu trabalho dignamente. Tenho negociado centenas de parcerias, uma hora as coisas vão acontecer, não tenho dúvida.



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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Denise Moraes e Marcelo Mourão

Um comentário:

  1. Perguntas e respostas pertinentes, parabéns ao excelente entrevistador e ao entrevistado. Admiro a criação, os projetos encarados com positivismo. Sucesso e realizações pelo seu dinamismo. Denise Moraes

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