domingo, 28 de junho de 2015

Tempos Modernos



Imagem: http://www.selfieblog.net/tag/memes/

por Nida del Guerra Ferioli


O que poderei dizer aos meus amigos da 3ª idade; ou vocês preferem que eu os rotule como da melhor idade?

Querem saber o que eu realmente penso a respeito?!

Não gosto absolutamente nada de ser classificada por nenhum desses epítetos. Quero ser uma senhora de idade que continua vivendo em sociedade, com os problemas que aparecem, os percalços que a vida nos apresenta. Mas sejamos otimistas, temos momentos felizes, com as alegrias que surgem do nada. E então isto nos ajuda a continuar, vivendo intensamente, para voltar a estudar, ler, trabalhar, assistir a boas palestras que nos enriquecem mentalmente, ajudando-nos a usufruir a bendita internet.

Mas falando de informática, quero acrescentar um adendo “meu, somente meu”, vejamos: estava procurando uns documentos antigos, e então surgiram os meus antigos álbuns de fotografias... ao folheá-los, as minhas emoções vieram à tona de diferentes formas.

Ao rever após tantos anos essas figuras queridas de toda a minha família, retratadas em eventos; reuniões, viagens, casamentos, nascimentos e, por que não registrar também os momentos delicados e difíceis? Sabemos que fazem parte da vida. Foi nesse instante que as minhas emoções afloraram e apareceram de forma alegre, agradável, comovida, hilária, um tanto entristecida, mas satisfeita e alentada para continuar corajosamente a minha jornada.

Agora, voltando à nossa magnífica internet...

O que eu presencio hoje são todos os celulares do mundo tirando fotos e mais fotos instantaneamente reveladas. Isto sim que é progresso, maravilhoso.

Mas, se eu quiser revê-los e guarda-los devo pedir muito gentilmente à pessoa que nos fotografou nestes termos: “Será muito trabalhoso para você mandar revelar algumas fotos que nós pacientemente escolheremos entre todas as tiradas?!”

Agora digo eu: não era mais simples quando tirávamos as nossas fotos nas velhas máquinas fotográficas e levávamos aqueles rolinhos para revelar?

Perdoem-me amáveis leitores. São opiniões de uma senhora de idade que procura se atualizar, e aceitar com grande satisfação todas as novidades destes novos tempos.

Por isso, permitam-me ter uma recaída de vez em quando.


Obrigada,


Nida.



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NIDA DEL GUERRA FERIOLI (94) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014); 
Professora de italiano; Autora do livro “Vivendo a Vida” 
e colaboradora muito especial do BAP


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Encontrando Olhares



Pediu-me a revista literária “Boca a Penas” que resenhasse o livro de Júlio Damásio: “Num piscar de olhos e outros olhares”. Aí vai.

O livro é tão imensamente bom e discreto de palavras que me obrigo a não ocasionar derramamentos inúteis:

"Júlio me mande dez exemplares, que compro para meus netos e filhos; depois peço mais para professores e amigos.
Parabéns!
FIM"

Diante da reclamação, gritos e sussurros da Boca a Penas, reescrevo:

Caro Poeta, Júlio, que não conheço nem de olhar em fotografia, mas que me deu susto tamanho quando li os minicontos e outras histórias, que ainda estou a recuperar o fôlego.

Sensibilidade a esbanjar e memória de letrista de grandes sambas, como Paulo Vanzolini.

Conhecedor de quintais e jardins; matas e periferias; corações e mentes, a cada página renova nossa alegria, nosso sentimento, nossa angústia, nos fazendo pensar, até, com amor, em nossa parentaia, sem descurar da velha morte.

Se existe um representante nestes Brasis da tal corrente de prosa poética ou de poema em prosa, ele é o Júlio, o Damásio.

E, assim, pra não desgostar ninguém e, muito menos, os literatos de plantão, mando uma dupla citação à guisa de encerramento:

Fernando Paixão, na sua “arte da pequena reflexão” (Iluminuras, 2014, p. 55 e s.) menciona Suzanne Bernard que: “... ‘chama a atenção para o fato de Baudelaire ter-se aproximado da prosa com o intuito de traduzir em palavras a vida atribulada que emergia em Paris e lhe inspirava o spleen’. Tal sentimento, associado a uma melancolia lírica mesclada à lucidez, pedia a expressão diferenciada em consonância com o mal-estar do poeta...” – ela aponta “o fato de os recursos da prosa servirem com mais fidelidade ao anseio do poeta em dar eco aos ‘rumores da vida interior’. Seja um quarto duplo, seja um velho saltimbanco, seja o contraste entre multidão e solidão, as situações são tratadas com o propósito de desencadear o confronto gerador de aspectos simbólicos e sociais”.

Pronto e desculpe-me Júlio mais este derrame, prenúncio de AVC ou sincera declaração de respeito e amizade.

caetano lagrasta, de sampa pro mundo em 17 de junho de 2015.
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Caetano Lagrasta é  Consultor Jurídico e Jornalista. Autor  de livros de contos, poemas e poemas infantis. Articulista do Projeto Tempestade Urbana, Colaborador do Boca a Penas e mantém o site www.caetanolagrasta.com

terça-feira, 16 de junho de 2015

reflexões a respeito da função da arte e do problema da extinção


olho para o horizonte e não foco em nada. o meu, agora, é um olhar vago. vago e perdido.
memórias de diferentes tempos, com diferentes cores. algumas são como um musguinho numa pedra; outras, como um horizonte infinito e ensolarado numa fazenda no município paulista de porto feliz, às margens do tietê. a vista embaça, meu pensamento viaja.
então mudo de assunto. cabe fazer da poesia um instrumento para a política? como ocorreu em tantas épocas e, para mim, nos meus anos de formação, quando o brasil e países vizinhos viviam as ditaduras? com emoção, cantavam: eu tenho tantos irmãos que não os posso contar, e uma irmã tão formosa que se chama liberdade. com comoção, declamavam: se o faraó construiu a pirâmide, ele fez isso sozinho?  se o imperador da china ergueu a grande muralha, foi com as próprias mãos? davam-se as mãos, para não dizer que não falavam de flores.
nabokov indagou se o artista deveria se render às questões políticas do momento, ou se faria melhor permanecendo puro, devotado à arte, em sua torre de marfim.
(mas o mesmo nabokov, que não se rendeu às questões políticas do momento, apesar de ter todos os motivos para fazê-lo, ponderou se foi ele, o poeta, quem matou, com as próprias mãos, os elefantes que forneceram o marfim para a torre)
enquanto isso: william carlos williams escrevia sobre uma mulher, de vestido rosa, embalando uma criança em frente a um banco.
(diante de meus olhos este poema de wcw aparece mais como uma tela, ao estilo de edward hopper, do que como texto, o que é uma evidente invenção da minha mente)
enquanto isso: kenneth rexroth traduzia um poema de ouyang xiu, no qual o poeta chinês lamentava que, na primavera, as noites fossem curtas, e constatava que a lamparina ardia, com luz fraca, enquanto insetos voadores a circulavam.
(nem kenneth rexroth e nem ouyang xi, este mil anos antes, se preocupavam com quem construiu a grande muralha. a muralha é tão grandiloquente. ouyang xi é tão conciso)
e antes: manuel bandeira avisava que as pessoas de um outro tempo, o verdadeiro tempo, estavam dormindo. profundamente. assim como manuel bandeira está dormindo agora.
na fazenda do meu avô chegava-se à sede através de uma longa alameda de flamboyants, das quais eu me lembro sempre floridas, vermelhas, como se florissem o ano inteiro, o que é uma evidente invenção da minha mente.
ah, a saudade!
enquanto isso: o livro, fechado, em cima da mesa. um copo de cerveja, já pela metade, ao lado. o copo transpira e molha um pouco a mesa. olho para o horizonte, sem focar em nada, e penso no passado, em pessoas, objetos e lugares extintos. tenho vontade de chorar.
então eu penso: o problema da arte explicitamente politizada é que ela corre sério risco de envelhecer tão logo as coisas mudem, e as coisas sempre mudam. as coisas não param de mudar.
ah, o tempo!
tenho vontade de chorar. besteira, digo para mim mesmo: enxugue as lágrimas, siga em frente. besteira, digo para mim mesmo: o que conta é o presente. tem tanta coisa boa no presente.
eu não matei elefante algum, a minha torre não é de marfim. para ser exato: nem torre é. o que eu poderia pretender fazer com minhas próprias mãos?
a mulher de vestido rosa em frente ao banco: há muito tempo extinta. a lamparina de oyang xiu, a luz fraca que ela emanava e os insetos que a rodeavam: há muito tempo extintos.
enquanto isso: eu, a caminho da extinção.
e agora: a alameda de flamboyants fica reverberando em minha mente. não tenho tantos irmãos. o que conta é o presente. eu queria poder cantar a saga dos camponeses em luta contra a opressão. em espanhol ou alemão.
e agora: os flamboyants que já não existem. o meu avô que dorme profundamente (extinto). olhar para o horizonte sem focar em nada. o livro fechado sobre a mesa. a água que transpira do copo de cerveja, molhando um pouco a mesa. enxugar a mesa antes que a água molhe o livro. enxugar as lágrimas.
e agora.



* Texto originalmente publicado na revista escamandro:

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Vila Formosa




                                                                                                          
por Rogério Miranzelo


Alfenas sempre foi para mim uma incógnita. Ou melhor: uma ausência.

Eu nunca corri em suas praças e ruas; nunca cortei a cidade de bicicleta. Nem brinquei de esconde-esconde em seus jardins, ou em torno da matriz. Papagaio, jamais soltei em suas suaves ladeiras. Tampouco lhe ouvi os sons da noite, ao redor de prováveis fogueiras de junho. Em suas esquinas, nunca soube o que é namorar; ou, como dizem agora, ficar.

Mas foi onde nasci, no dia das mães de mil novecentos e sessenta e um. Mudei-me para Belo Horizonte aos cinco meses e só agora retorno. Para cumprir a estranha sina de conhecer minha terra natal.

Diante da pergunta (Aonde você vai nas férias, à sua terra natal?), eu sentia um certo desconforto, quando criança. Afinal, que terra natal era essa, que eu nem conhecia?

A bem da verdade, eu havia adotado Belo Horizonte como sendo minha cidade natal (ou ela é que me adotara?). Foi onde me criei. É a cidade que mais amo. E Pará de Minas tornou-se meu cantinho reserva, a segunda cidade do meu coração. Lá, muitas férias, parentes e amigos. Era onde cantávamos, noite adentro, a belíssima canção chamada “Furnas”. Sem que eu soubesse, no entanto, que havia nascido quase às margens dessa linda represa.

Alfenas para mim era nada, simples abstração. Cidade sem casas, sem asas, sem cores e sem aromas. Nenhuma imagem. Nem sequer o mísero retrato na parede do qual falara o poeta.

Tenho sonhado com Alfenas...

Cheguei – a cidade me esperara.

O ônibus passa pela Avenida José Paulino da Costa. Sinto um calafrio na barriga. Tudo me é estranho, entretanto me invade a alma uma descabida nostalgia. Por quê?!

A cidade tem um belo porte. Prédios altos, bom comércio, universidade. Calçada de pedras, a Avenida São José é simpática. Estou atrasado: quase trinta e seis anos.

Ao me aproximar da praça central, meu coração dispara. Ao caminhar sob a copa de suas doces arvorezinhas, meus olhos tentam encher-se d’água, mas eu os proíbo. Ridículo me supor nesse papel.

Sem compreender o porquê da emoção, sinto-me puxado pelos bancos da praça, feito ímã. Sento-me várias e várias vezes ali. Não me canso de fazê-lo.

Visito os lugares óbvios: a igreja onde fui batizado e a Santa Casa, onde nasci. Vou à casa de uma amiga de meus pais. Ela me abraça, abraço de décadas, e diz considerar-me também seu amigo.

Na hora de partir, sinto que Alfenas não é mais uma ausência – ganhou corpo e conteúdo, imagens que ficarão para sempre comigo.

Leio com atenção o texto que emoldura um velho mapa da cidade, afixado na parede da rodoviária. Descubro aí que Alfenas, antes de se emancipar, chamava-se “Vila Formosa”. E, num breve instante, suponho ter entendido os meus porquês.  

Imagem: Matriz São José e Dores de Alfenas
http://fotosantigasdealfenas.blogspot.com.br/2013/05/matriz-sao-jose-e-dores-de-alfenas.html

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Rogério Miranzelo é jornalista e escritor






segunda-feira, 1 de junho de 2015

OITO PERGUNTAS A PENAS com PAULO STOCKER



Paulo Stocker é artista plástico, cartunista e muralista. Catarinense, natural de Brusque, ele é hoje uma das maiores referências artísticas da Rua Augusta — lugar que fica na região central de São Paulo frequentado por inúmeros trendsetters da América Latina e local que escolheu para morar com sua esposa e filha— e também do Brasil. Como todo artista, Stocker é uma criança que nunca parou de desenhar. Já são mais de 30 anos de carreira. Em suas inúmeras obras criou os cartuns, muitas vezes com uma pitada de erotismo, do site Stockadas; deu vida, junto com o publicitário Eduardo Rodrigues, ao personagem Tulípio, que está presente em dezenas dos principais bares do Rio de Janeiro e de São Paulo através do Cineboteco e da Revista do Tulípio; criou a reconhecida série Gambiarra, que aplica traços orgânicos e máquinas multicoloridas; e sua principal obra é o personagem Clóvis, presente em seus quadros e murais de rua. Clóvis possui um prestígio público enorme e é considerado pelo cartunista britânico Karl Dixon, do Diary of a Cartoonist and Writer, como um personagem genial pela simplicidade e singularidade de seus traços e formas de usar seus quadros. A forma com que Stocker usa os quadros do Clóvis é uma referência para artistas do mundo inteiro.
[Adolfo Martins]




BAP1: Muitos dos seus desenhos e pinturas remetem a uma reflexão crítica da realidade. Como você está vendo atualmente, no campo artístico e político, o Brasil? Você crê na arte como transformadora da realidade ou como transformadora de pessoas?

Paulo Stocker: Difícil responder a essa pergunta, me parece que no geral as pessoas emburreceram. Eu fico pensando em tudo que já foi feito pela humanidade de Da Vinci a Rodin. No século passado tivemos Francis Bacon, Dalí, Picasso. Temos uma vasta produção literária. Na minha area que é o humor gráfico, tivemos Sempé e Mordillo. Hoje predomina a demência e a crueldade. A arte poluída onde o desenho não respira. Isso me dá um cansaço enorme.

BAP2: Como nasceu o Clóvis? Qual era a ideia inicial? Esta ideia sobreviveu ao tempo? A mímica e o cinema mudo– tipo os filmes de Carlitos, de Charles Chaplin - foram as fontes para construir as tirinhas deste personagem? (Até porque as tirinhas dele não tem balões com diálogos).

PS: O Clovis nasceu inspirado no teatro de sombras. Tanto este como a pantomíma são artes milenares, eternas. É um recurso de um refinamento ímpar e universal. Difícil virar moda por ser complexo demais para algum oportunista querer ganhar dinheiro com isso. E simples demais para que pessoas limitadas o entendam. Como disse Da Vinci, a simplicidade é o último estágio da genialidade. Acredito profundamente nessa verdade.

BAP3: Ouvimos dizer que será lançado o livro do Clóvis. Gostaríamos que você falasse mais sobre este projeto.

PS: Estamos preparando esse livro faz dois anos. Será um objeto de arte, um requinte. Só estamos esperando essa crise psicológica passar; um melhor momento para lançarmos.

BAP4: O Tulípio foi baseado em alguém? Fala um pouco de como surgiu a ideia para fazer este personagem e quais foram/são os objetivos ao construí-lo.

PS: Existe essa confusão com o Tulipio, ele não é meu. Foi criação do poeta Eduardo Rodrigues. No Tulípio eu apenas desenho. É tudo culpa do Edu, eu jamais escreveria aquelas bostas todas, tudo surgiu da mente pervertida do Rodrigues.

BAP5: A sua infância e a sua adolescência ainda servem de material para compor a sua arte? E nos fale um pouco sobre o seu processo de formação como artista, em Brusque, Santa Catarina.

PS: Minha infância e adolescência foram riquíssimas. aliás, minha vida inteira foi rica existencialmente falando. E isso serve de arquivo. Toda essa bagagem é uma fonte de inspiração.

BAP6: Você ter alcançado um grande público e o Clóvis ser considerado pelo cartunista britânico Karl Dixon, do Diary of a Cartoonist and Writer, como um personagem genial traz para você a segurança de estar no caminho certo ou traz maior responsabilidade frente ao seu futuro?

PS: Só o fato de um inglês ter como inspiração número 1 a minha obra, já acho que se quebra um paradigma. Eu não estou indo lá desenhar os personagens deles, estou aqui fazendo um palhacinho no baixo-augusta e tenho esse alcance. Sim, aumenta a responsabilidade.

BAP7: O Clóvis, além do humor, passa para quem vê as tirinhas uma grande poesia, seja ela contestatória, lírica, visual. Quais as suas relações com a poesia? Você é leitor de poesia ou ela vem de outros campos artísticos como o cinema, o teatro, a pintura e/ou outros?

PS: Vem de tudo, tem muita poesia no cinema. E poesia não é só jardins e flores, é também sangue, suor e lágrimas. Tenho alguns poemas escritos, sou leitor de Camões, Pessoa, Quintana. Creio que o Clovis traduz isso.

BAP8:  Quais são os seus planos, os projetos para o futuro?

PS: Conseguir sobreviver do meu trabalho dignamente. Tenho negociado centenas de parcerias, uma hora as coisas vão acontecer, não tenho dúvida.



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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Denise Moraes e Marcelo Mourão