quarta-feira, 27 de maio de 2015

Mundo, mundo, vasto mundo...



Alguns anos atrás eu me perguntava: o que é essa era da informática?  Está tão divulgada e usada?! Então olhava com curiosidade os meus netos e as minhas bisnetas, que mesmo sendo tão crianças, manuseavam com desenvoltura, os tais computadores e celulares.

Eu, então, timidamente me aproximava dos laptops... e via... e ouvia, sem saber o que significavam essas nomenclaturas técnicas: e-mails, Facebook, Whatsapp, pen drive! Foi então que eu percebi: “estou desatualizada, num mundo intensamente tecnológico!”

Ciente da minha ignorância a respeito, resolvi ter aulas sobre o assunto.

Confesso ter enfrentado muitas dificuldades a princípio; mas o que mais me incentiva a continuar era o desafio de conseguir, mesmo que precariamente, a fazer meus contatos através de e-mails e 
Facebook, com as minhas amigas e parentes.

Hoje, com 94 anos, manejo um pouco melhor estes maravilhosos aparelhos – e eu me regozijo com essa que eu qualifico como uma bela vitória da minha longa existência.

Concluindo, amigos e amigas da minha idade: não desistam de tentar alcançar as próprias metas, os sonhos, mesmo quando pareçam impossíveis para a vossa longevidade.

Um abraço a todos que estão lendo este meu despretensioso texto.


Nida

__________________________________________________________________________
NIDA DEL GUERRA FERIOLI (94) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014); 
Professora de italiano; Autora do livro “Vivendo a Vida” 
e colaboradora muito especial do BAP

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Grupo Temas Raciais




Assinada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888,  a Lei Áurea, aboliu oficialmente a escravidão no Brasil. Propondo uma reflexão acerca do significado da data, o espaço do Boca a Penas é ocupado pelo Grupo Temas Raciais,  grupo de estudos e extensão idealizado por professores e alunos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. 

Sejam sempre bem vindos!



Arte de Breno e Beatriz Rosa Valerio

Sobre o 13 de Maio

por Edson Fernando da Silva


"Era uma vez uma princesa boazinha, chamada Isabel. Ela ficou com tanta pena dos pretinhos, que pegou a caneta de ouro para assinar a lei que terminou com a escravidão...” Em quantas escolas, as crianças brasileiras ainda ouvem esse conto de fadas? E quantos outros fatos históricos sobre as sociedades africanas que não são trabalhados com essas crianças e adolescentes, mesmo com a lei 10.639 em vigor? A história é fazer perguntas!

A lei áurea teve a sua importância, mas esse texto tem a intenção de indagar pelos silêncios, pelo dito e não dito: e as lutas dos escravos, os quilombos, as fugas, o movimento abolicionista, as questões econômicas, as novas ideias. Todas essas questões estão e são pertinentes quando se fala da Lei Áurea, mas sobre a data 13 de Maio, este texto tem a intenção de abordar algumas principais questões: As lutas dos negros, o que houve no Brasil após maio de 1888 e problematizar essa data enquanto emancipatória.

A lei assinada liberou poucos escravos, apenas 5% da população trabalhadora era mantida em cativeiro, pois havia algum tempo que vários negros escravos tinham sido alforriados, porém sem nenhuma assistência. É necessário perceber duas coisas importantes. A primeira, é que não foi oferecida nenhuma compensação aos negros que tinham sido escravos, nem indenização em dinheiro, nem alguma terra útil para viver. Após o fim da escravidão, os negros ex escravos tiveram que lidar com a miséria, a ignorância, a violência e os preconceitos, mostrando o quão desigual a sociedade mantinha-se perante aqueles que foram libertos. E em segundo que a escravidão não acabou de instantaneamente, pois os senhores fizeram de tudo para atrasar a abolição da escravidão. A escravidão já estava se definhando com as lutas, a lei Eusébio de Queiroz em 1850, que aboliu o tráfico; a lei do Ventre Livre em 1871; a lei dos Sexagenários em 1885 e por fim a lei que “findou” a escravidão no Brasil por questões econômicas. Esse processo de abolir a escravidão foi um processo muitas lutas, e definir a data 13 de maio como emancipação da população negra é desmerecer todo o histórico de luta.

A escravidão não acabou apenas por motivos econômicos. A ação humana foi decisiva, tanto a luta dos escravos, como o movimento abolicionista. O movimento atingiu quase todas as classes sociais, um ideal se difundia pelo povo e através disso, pressionou as autoridades até obter mudanças.

O processo de abolição não foi pacifico. Os senhores de escravos usavam de violência contra os abolicionistas e principalmente contra os negros, logo eles não se curvaram diante da repressão. Os negros escravos ignoravam as ameaças dos senhores, e aumentava as revoltas no fim do século XIX, e sem elas a abolição teria sido mais lenta e favorável aos senhores. Fugas em massa, assassinato de feitores, fazendeiros degolados, casarões incendiados, tudo valia pela liberdade. Alguns abolicionistas como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio não concordavam com a violência que os escravos utilizavam para obter sua liberdade, outros como Silva Jardim, Raul Pompéia, Carlos Lacerda e Luís Gama afirmavam que “toda violência a favor da liberdade é santa”.

Como a Historiadora Juliana Serzedello afirma, a Lei Áurea foi o último suspiro da crise da escravidão, desde 1850 já percebia que o regime escravocrata iria acabar e principalmente com as lutas dos negros escravos e abolicionistas. Quando firmou a lei de 1888, ela atingiu a uma minúscula parcela da população negra que ainda estava em situação de escravidão.

Neste sentido, o movimento negro opta por uma preferência pelo dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, em oposição ao dia da Abolição da escravatura, devido à lei Áurea estar ligada a um mito de bondade perante os negros sem dar qualquer auxílio após a libertação, e o dia da consciência estar relacionado a Zumbi dos Palmares.

A crítica aparece porque após 1888, não teve a inserção do negro na sociedade brasileira, ou seja, denuncia a exclusão social e econômica da população negra após a Abolição. O dia 13 de maio sugere que os negros escravos ficaram mais de 300 anos sofrendo sem lutar, sendo apenas um sujeito subalterno. Essa data não é menos importante para a história brasileira, mas para dar destaque para o Brasil popular e de luta, que o Movimento Negro celebra a data 20 de novembro como o dia da Consciência Negra, sendo ela atribuída ao líder quilombola Zumbi dos Palmares, dando um significado importantíssimo para a história: O negro é protagonista de sua história. Desde 2003 a morte de Zumbi foi consagrada o dia da Consciência Negra, pela sua luta contra o sistema escravocrata. 

Celebra-se também nesta data a imensa contribuição cultural de matriz africana no Brasil por discutir, não somente durante esse período, a necessidade de acabar com o racismo, pensar o negro dentro da sociedade, discutir e implementar políticas afirmativas, e mais do que nunca lembrar que os negros são sujeitos protagonistas no seu processo de luta contra qualquer descriminação sobre sua cultura e identidade.




___________________________

Edson Fernando da Silva é historiador 
pertencente ao Núcleo Diáspora e ao grupo de extensão "Temas Raciais" 
da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (Uberaba-MG)







segunda-feira, 11 de maio de 2015

NAS VIELAS DA NOSSA LÍNGUA

Foto by Na tGeo

por Maria Balé


Um diálogo sobre outro assunto, e uma frase me abre para a verdade que estava lá, no lugar dela, desde sempre. Então, eu me dei conta de que a dramaticidade da palavra "sobrevivente" é uma alegoria, apenas. A vida não anistia, logo, por silogismo, todo ser que respira é um sobrevivente. O que faz a diferença é que algumas pessoas são ressentidas. Outras, sublimam e preservam a gratidão por ter sobrevivido. Agora, pelas minhas sinapses loiras, passam pessoas ressentidas e pessoas agradecidas. E a fila das primeiras é imensa. 





______________________________________________________________________
Maria Balé é  pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC de São Paulo, 

fotógrafa, produtora de textos e escritora de contos.



segunda-feira, 4 de maio de 2015

OITO PERGUNTAS A PENAS com JIDDU SALDANHA





Jiddu K. Saldanha, nascido na cidade de Curitiba – PR em 03 de janeiro de 1965, reside atualmente no Rio de Janeiro. É artista plástico, publicitário, ator, poeta professor de teatro e cineasta digital. De 2003 a 2014, participou de 11 antologias de poesia (entre elas 7 do Proyecto Cultural Sur, Poesia do Brasil) e 1 de de Haicai (Poetas do Café). Lançou em 2005, em parceria com o poeta do Amapá Herbert Emanuel, o livro de haicais ´Do Crepúsculo ao Outro Dia´, pela T´AI editora digital. No prelo ainda, ´Cão Faminto´ (Romance), Arabela e Frajola (Romance), Percepções Burlescas (Poemas) e Cinema Poema (Poesia). Próximo livro a ser lançado no primeiro semestre de 2015: ´Rastro de Pluma´ pela Editora Mondrongo, com prefácio de Ricardo Silvestrin.


Algumas Tankas do livro ´Rastro de Pluma´,  que será lançado em breve:

12
e o que dizer
de uma alma que se sente impura
diante do sol?

o céu não apresenta novidades
senão seu azul contínuo


13
hoje senti vontade
de abraçar uma estrela distante
com estes braços

o céu é um manto indecifrável
e a solidão é parte deste céu



14
minha alma dividida
deseja um paraíso que não existe -
meu corpo está vazio

adoecer é sinal de paz
no meio da treva ancestral


15
de onde vem
este medo de perder tudo?
não temos nada...

os pássaros ainda cantam
e todas as manhãs estão intactas


(Jiddu Saldanha)



BAP1: Sendo mímico e poeta, lidando com estas duas artes poéticas aparentemente antagônicas (uma se expressa através do silêncio, do gestual e, a outra, através das palavras – escritas ou faladas), me diga: como uma arte penetra na outra quando você está fazendo as suas performances ou quando você está compondo os seus poemas? Há palavras no silêncio e silêncio(s) nas palavras?

Jiddu Saldanha: Eu sempre me pergunto, porque fui seguindo estes caminhos. Eu falo demais, falo muito, sempre fui falante, no entanto, a mímica apareceu estranhamente na minha vida, de um lado porque conheci meu mestre, o Everton Ferre, que é um exímio artista do gesto. Eu o seguia pela cidade de Curitiba e depois fui seu aluno. Lembro-me que ele me estimulou a ter um ofício ligado à arte e de certa forma, me convenceu, pelo seu próprio sacerdócio, a ser mímico, aí, na faculdade de teatro (que não completei) recebi incentivo dos colegas para fazer mímica e fui sendo mímico nas ruas e guetos de Curitiba, até que comecei a viajar, e aí, sabe como é né, o Brasil é uma cachaça. Como mímico eu viajava passando o chapéu, vivia de forma franciscana mas viajava de um estado para o outro, era jovem e isso parecia dar algum futuro.
Já na poesia, na literatura, conheci o poeta Samaral, quando fui para o Rio de Janeiro, não sem antes passar por uma cidadezinha do Rio Grande do Sul chamada Nova Prata, onde fui, inclusive como mímico, em 1990. Conheci lá os poetas Mano Melo e Herbert Emanuel, dois anos depois, conheci, na mesma cidade Cairo Trindade e Paco Cac. Já em 1992, no Rio de Janeiro, fui morar com o poeta Samaral, do movimento Urbana e passei a trabalhar na edição do Fanzine URBANA, que na época congregava os mais significativos nomes da poesia carioca alternativa, dentre eles, Salgado Maranhão, Artur Gomes, Regina Pouchain e Wladimir Dias-Pino. Eu passava a noite vendo/ouvindo Samaral, conversando com Brasil Barreto, Kzé Magalhães e até a Elisa Lucinda, de vez em quando dava as caras. Quando me dei conta, estava bebendo no grande Rio. Estava cercado dos melhores poetas da geração 70. Todos ali, vendo minha mímica e me ensinando o beabá da poesia, foi uma escola e tanto. Eu era uma espécie de mascote, um "protegido" do grupo. Era aquele sulista tímido, sem vícios e artista performático, com um certo vigor físico que chamava a atenção. Então, a palavra se encaixou na minha mímica e passamos a viver uma espécie de ménage a trois!
Passei a década de 80 "cozinhando" minha poesia com os poetas do Paraná, todos transitavam por Curitiba. Helio Leites, Kátia Horn, Paulo Leminski, Geraldo Magela, Rollo de Resende, Helena Kolody, que eu admirava de longe e, claro, Paulo Leminski que eu poucas vezes cheguei a trocar algumas palavras, mas que estava sempre no agito da cidade. Tenho uma lembrança de quando tinha 13 ou 15 anos, na Biblioteca Pública do Paraná, quando tive a honra de pegar, por acaso, numa estante, um livro do poeta Leonardo Henke e ele, já velho, estava por coincidência, ao lado. Ele pegou o livro da minha mão e começou a ler os sonetos e no final, apertou minha mão, me deu um abraço e disse que era Leonardo Henke. Foi emocionante porque até então, eu só vira os poetas na TV. Fora meu pai, claro e meus amigos que escreviam mas que a gente achava que não era poesia.

BAP2: Por que lançar um livro, neste momento, se expressando através de haicais e tankas? 

JS: Nessa caminhada em busca da minha poesia, em 1995, fui parar novamente no Rio Grande do Sul, mas dessa vez, na cidade de Bento Gonçalves, patrocinado pelo jornal Lacônicos, do Ademir Antonio Bacca, que organizava e organiza até hoje o Congresso Brasileiro de Poesia. Lá, eu conheci a poeta nipo-brasileira Mitzuko Kawai, que se interessou por mim, no sentido poético. Ela me observou fazendo mímica e me falou da arte japonesa e então me falou dos tankas. Depois me enviou, nos anos seguintes, dois livros feitos à mão, "Uma Estrela Fugaz" e "Folhas Secas", de sua autoria. Percebi que a melancolia da forma tanka combinava comigo. Sou melancólico desde a infância e percebi que o tanka combina comigo e, também, por ser uma forma fixa de poesia, um estilo delicioso de escrever, o tanka é ótimo pra reclamar da vida, pra falar da nossa impotência, de revelar nossa condição diante dos desafios da vida.
Já o haikai é uma tradição da minha cidade, eu diria, sou contemporâneo do Paulo Leminski e convivi um bom tempo de minha vida com a presença dele na cidade de Curitiba e, tanto ele como Alice Ruiz, traziam esta demanda ligada ao haicai. Esse mergulho na poesia japonesa, na cultura nipônica, por assim dizer, já que também se via muito filmes do Kurozawa e do Ozu. Enfim, acho que a coisa japonesa sempre me pegou em cheio. E aos poucos fui percebendo que em quase todos os momentos da minha vida, escrevia haicai e tankas, a maioria Ruim, entretanto, devido à longa produção, alguns chamaram a atenção do meu editor, o Gustavo Felicíssimo, criador da Mondrongo editora e que resolveu editar meu livro "Rastro de Plumas"!

BAP3: Em seu novo livro – “Rastro de Plumas” – você enxerga os sonhos como utopias nunca alcançadas, mas que, mesmo assim, precisam ser perseguidas sempre. Em um de seus tankas está escrito: “todos os sonhos/ deviam ser chamados de saudade/já nascem tristes/ ainda que neles depositemos/ o melhor de nossa paixão.” Noutro tanka, lê-se: “um sonho é sempre algo que nunca tocaremos de fato.” Mais adiante, em um outro poema, um dos versos decreta: “minha alma dividida deseja um paraíso que não existe.” Num mundo cada vez mais feroz, mais triste e violento ainda há lugar para a poesia e para o sonho? Se todo sonho é utopia - céu que não conseguimos tocar - onde fica a vontade de nos levantarmos da cama e construirmos algo? Quais são as suas esperanças possíveis neste momento?

JS: Pois é, vocês tocaram num assunto interessante agora, (estou com os olhos cheios de lágrimas neste momento, a pergunta me acertou em cheio). Eu sou um otimista, um sonhador-realizador, com alguns acertos. No entanto, em alguns momentos, eu me visto do mais vil e mais derrotado dos homens e, acredite, há um certo prazer masoquista nisso, é como se estivesse ouvindo um fado. Eu me entrego a uma espécie de derrota conceitual e, de alguma forma, recarrego as baterias, não para o pessimismo, mas para um mergulho intenso na vida, algo como uma expiação de culpas e medos. Então, digamos, é preciso cultivar esperanças e sonhos, mas não podemos perder a dimensão da tristeza. Acho que a tristeza é uma descarga para a língua portuguesa, para o nosso sentir camoniano, talvez, não sei, porque também não sou intelectual, a sensibilidade me desarma quando piso fundo demais. Há algo nisso tudo. Eu senti isso quando vi aquele filme da Daniela Thomas, o "Terra Estrangeira" com a Fernanda Torres, lembra? Aquele filme me marcou, ele dialogou com a minha melancolia e ao mesmo tempo eu acho que essa melancolia é muito estética mesmo e o Tanka se abre para isso, é como fado, aquela música que "racha a alma" e no entanto é de uma beleza incrível!

BAP4: A segunda parte de seu novo livro revela tankas, em sua maioria, de cunho filosófico. Uns falam de sonhos, outros pensam sobre a realidade, o mundo, a busca pelos sentidos de se viver e de ainda se ter esperanças. Já outros poemas refletem - a partir das imagens colhidas na natureza - a passagem do tempo, o significado de suas lembranças e saudades e também as suas perspectivas futuras. Esta parte do livro revela um artista fazendo um inventário de tudo que já fez e avistando o que ainda pretende fazer? Seria um acerto de contas com seu passado e um rascunho do que talvez venha a ser o seu futuro?

JS: Olha, acho que esse lance do acerto de contas acontece mesmo. Eu tenho um grande amigo aqui, o professor Italo Luiz Moreira, trabalhamos juntos num curso de teatro, o OFICENA,  e ele me chama de velho. Quando ele me chama de velho eu sinto algo como que um respeito, é estranho, até porque sou mais novo que ele, uns 4 anos mais ou menos, fiz 50 anos em janeiro de 2015. Parece que vivi muitas vidas até aqui e ao mesmo tempo, me sinto um pouco isolado nesse meu mundo, não é um isolamento que me torna vítima de nada, mas algo como um  náufrago. Aquele mar imenso em volta de você e você apoiado numa boia e sempre achando que vai ter que "negociar a vida com um tubarão". É estranha esta sensação mas ela me faz sempre reler e rever o passado, talvez porque vivi e vivo uma vida muito ausente de aventuras, tenho uma forte vocação para a repetição, para a rotina, e sinto algum prazer nisso. Desde que cheguei em Cabo Frio, em 2013, faço todos os percursos da cidade de bicicleta. É estranho e ao mesmo tempo prazeroso, porque a cidade guarda um silêncio e ao mesmo tempo se abre para um barulho de mar o tempo todo. De madrugada, você sente o barulho do mar e acho que isso traz alguma conexão com o passado, com pensares e a vida que só pode ser expressa mesmo num tanka, pra onde a melancolia se estende, e a sensação do fado, se prolonga, como se fosse um orgasmo do coração!

BAP5: Seu site - www.jiddusaldanha.com.br – logo que chegamos a ele, nos revela a seguinte frase: “A arte não é um caminho de perfeição é um caminho de coração.” Em que proporção a técnica e a emoção aparecem em sua arte? Elas têm pesos iguais ou diferentes? Quais os artistas que mais te influenciaram, mais te ensinaram coisas? Um artista deve ser apenas um autodidata ou deve procurar fazer cursos e oficinas artísticas?

JS: A técnica nasce de boas leituras, hoje em dia, talvez, escrever pouco acaba levando as pessoas a estudar mais do que produzir, acho que tem que ter um equilíbrio entre as duas coisas, mas se eu tivesse que escolher, preferiria a produção. É incrível como os poetas hoje produzem pouco, não vou generalizar, mas vejo que a produção é pouca e repetida. Quando vou nos recitais vejo poetas dizendo sempre os mesmos poemas e fico pensando, poxa, esse cara deve ter algo além disso. Mas também não sei se é isso, porque conheci poetas que estudam bem mais do que eu, por exemplo, o Cairo Trindade, pra mim é um modelo de poeta que estuda. Outro poeta interessante, que mergulha nas formas é o João Pedro Roriz, que é de uma geração mais jovem que a minha, no entanto, vejo em sua obra um foco na técnica, com resultados incríveis.
No meu caso, eu uso a técnica mas não me prendo à ela, busco a liberdade na expressão da forma, mas tenho meus limites. Por exemplo o Paulo Leminski era poliglota, os Irmãos Campos, sentiam a poesia em outras línguas também, não é o meu caso, eu tenho um domínio médio da língua portuguesa e me expresso no meu limite. O poeta Herbert Emanuel, faz exercícios aprofundados da linguagem quando escreve. Ele é capaz de deduzir, estudar e aprender um novo idioma mesmo que para cumprir um período de sua poesia. Acho isso fascinante, essa capacidade de se abrir para a técnica, para a língua e para as referências. Comigo eu diria que há algo forte ligado à intuição e ao mesmo tempo, a referência e a leitura, afia a navalha e você acaba adquirindo algum técnica também.
Sobre leitura, eu sempre fui muito exigente. Cresci lendo o melhor da literatura Latina. Garcia Márquez, Caepinter, Cesar Vallejo, Borges e os brasileiros, dos melhores, além de ir fundo na poesia de João Cabral e ter lido grande parte da produção do haikai nacional, tive a sorte de conviver com monstros sagrados da literatura atual como por exemplo, o Ronaldo Werneck, de Cataguases, o Mano Melo, o Claufe Rodrigues, o Herbert Emanuel, além de revisitar sempre a obra do Nejar, por exemplo, que para mim é um poeta maior. Recentemente estive no Chile e estive numa roda de leitura da obra de Roberto Bolaño, o escritor Chileno que tanto me impressionou. Estou, somente agora, lendo a poesia de Nicanor Parra, que eu marginalizava, mas que agora me sinto em paz. A perfeição da forma é algo admirável em alguém como Borges, por exemplo, mas minha obra, não tem essa prentensão. Eu busco uma literatura que sai muito mais do meu desejo de se comunicar do que, propriamente, de ser alguém expressivo, dentro desse panteão de eternidades e eternos.

BAP6: Affonso Romano de Sant’anna definiu, certa vez, você desta forma: “Jiddu é o mágico multiplicador de gestos e palavras, espalhando poesia, ingenuidade e esperança por onde passa. Na verdade, pertence à estirpe dos antigos saltimbancos, um saltimbanco da utopia”. Dá pra viver de arte no Brasil? Como anda o atual panorama artístico brasileiro em termos de talentos, de espaços para mostrar estes talentos e de remuneração adequada para estes artistas? Qual a maior utopia ainda a ser buscada por este saltimbanco poeta ingênuo esperançoso de nome Jiddu Saldanha?

JS: Essa questão é complexa. Acho que dá pra se viver de qualquer coisa no mundo de hoje. Vivemos numa era de grande produção de riquezas e alguma coisa sobra para o artista. O que eu vejo é muita gente covarde, muita gente se escondendo atrás de salários de fome e de um certo conformismo. Eu diria que dá pra viver de arte sim, mas o artista tem que aceitar "tudo". Eu por exemplo, aceito doações, sem culpa, atualmente, tenho levado meu grupo de teatro, o TCC - Teatro Cabofriense de Comédia, para passar o chapéu na rua. É lindo ver os jovens do grupo, sem medo, depois de uma bonita apresentação, estender o chapéu e receber a recompensa do público que, muitas das vezes é sofrido. Recentemente, numa escola, deixamos uma urna disponível para doações e fizemos dois belos espetáculos, a féria foi boa e um professor doou instrumentos musicais para o grupo. Ganhamos um afoxé, um pandeiro, e um agogô de coco. Não dá pra sacralizar arte, colocá-la dentro de um pacote de consumo pra fazer pose. O artista precisa trabalhar, como todo mundo e dar um duro danado, tem que acreditar, e aí, a recompensa é possível, mas sem exageros. Minha arte nunca me pagou carrões e nem viagens para o exterior, mas tá bom do jeito que tá, tô feliz assim e o que vier eu traço!
Sobre o Affonso, olha, o Affonso é um escritor incrível, sou seu leitor desde muito jovem e desde os anos 90 eu o encontro na estrada nos eventos literários. Ele sempre me elogia quando me vê. O elogio mais bonito que recebi do Affonso foi na Bienal de Campos, de 2004, quando ele me viu em sua plateia, assistindo sua palestra e lançando um livro que fizera com a Marina Colassanti, ele perguntou se alguém queria perguntar algo e quando eu levantei o dedo e fiz minha pergunta, ele reconheceu minha voz e disse "Quem é que está ali, é o Jiddu? O Jiddu é o nosso Fellini". Esse elogio foi incrível porque eu sempre amei a obra do Fellini e o meu ideal na mímica era chegar na víscera Felliniana, coisa que nunca consegui mas sempre busquei, e aí, o Affonso me faz um comentário desses. O que eu posso mais querer depois disso?
Sobre Utopia, bom, minha maior utopia, no momento, são meus alunos de teatro, eles me enchem de vida, me dão um norte, um sentido mais forte de viver. Eu quero dar a eles um pouco da luz do meu coração, quero que eles não desistam, não percam a esperança, trabalho todos os dias para inspirá-los sempre e cada vez mais, a viver com dignidade buscando fazer o que gostam com muita coragem. Eu ando sempre em busca da UTOPIA POSSÍVEL!

BAP7: Voltando ao seu novo livro que está prestes a ser lançado, o “Rastro de plumas”. Um de seus tankas fala: “que música é esta?/ ela flui subitamente na alma/e é orvalho da flor/ há dor e paz no infinito/ e eu aqui olho o manto do céu.” Até que ponto em sua poesia há esta mescla de observar atentamente a vida e, ao mesmo tempo, desgrudar-se dela? É preciso, para se fazer arte, estar-se atento ao chão e ao céu simultaneamente? E o horizonte, o quê ele fala para você que só você pode ouvir? O poeta é mesmo o xamã que anuncia/revela todas estas visões transcendentais para o seu público?

JS: Pois é, eu estou tentando buscar uma revelação através da minha poesia, uma espécie de transcendência e ao mesmo tempo, estou investigando o mundo misterioso por trás da melancolia do meu coração. Esta auto-observação vem desde a infância quando eu me pegava, em Curitiba, deitado na relva, olhando para o céu, em longos períodos. Eu queria ver algo, não sei se naves espaciais, mas nunca vi. Mas vi muitas estrela cadentes e fiz o meu pedido. Lembro que sempre pedi sabedoria, mas não sei quem, no universo pode me dar isso. A poesia, de certa forma, é uma conexão profunda com a gente mesmo e com o universo fora da gente, mas há algo que transborda e é como se alma fosse elástica e quisesse sair do corpo. O público, espero, terá que fazer esta viagem comigo, flutuando como pluma. Eu fiquei muito feliz, diria até, envaidecido, quando descobri que meu editor é também um leitor do que escrevo. Esse jogo das letras, do pensar poético com o universo plural dos sentimentos, nos joga diante de um paradoxo. Escrever para o leitor, mas também deixar algo parque possa virar poeira um dia. Não basta morrer uma vez, para o poeta, é preciso virar poeira e que essa poeira, de um certo modo, viva através dos espanadores de bibliotecas!

BAP8: Um outro tanka deste seu novo livro diz: “mergulhei no escuro/ emergi com o lodo na língua/ havia um sabor de luz/ há um buraco em meu ser/um coração que se faz pedaços”. Dizem que o palhaço, por muitas vezes, é o ser que por dentro está chorando mesmo tendo que fazer o seu trabalho, que é levar poesia e alegria para o público. Este livro busca mostrar este lado humano, este lado escondido de Jiddu Saldanha? O saltimbanco da esperança, neste livro, abre seu coração e mostra, através de vários poemas, um lado triste, confuso, autoquestionador, reflexivo, deprimido, solitário ou é só criação artística e meramente um eu-lírico fingidor? Até que ponto este livro pode ser visto como um retrato seu?

JS: Este livro sou eu em toda a extensão. Eu sempre cultivei a tristeza porque dela flui o silêncio, mas também sou alegria e leveza. Eu tenho sentido falta do engajamento da melancolia no mundo contemporâneo. Parece que ser feliz, e sorrir virou uma obrigação, mas é preciso chorar também. Quando eu choro, há uma sensação orgástica no entorno do meu globo ocular. É um choro solitário, triste, mas que me enche de vida, um paradoxo, porque eu não sou nem um pouco baixo astral, mas gosto muito de chorar, aquele choro que derrama lágrimas. Mas quando subo no palco, faço meu público feliz, trago-o para gargalhar comigo e viajo pelo mundo com a ingenuidade do palhaço e do mímico. O público é frágil na sua força, ele me conduz numa troca onde a sintonia vai além dos clichês. O chorar e o sorrir me compõem por inteiro. Eu sou feliz, num certo sentido, mas me permito não sufocar minha tristeza e, talvez, por isso, tenho sonos profundos e sonhos azulados, suaves. A companhia da minha esposa, minha filha, meus gatos e meu cachorro, me dá uma sensação de completude e agora, no jardim de casa, me sinto numa ilha de silêncio e tranquilidade, de onde posso dar a partida além do portão de casa e sair de bicicleta, pedalando devagar e sempre, em direção ao meu desconhecido destino!





___
Entrevista realizada pela equipe do BAP:
Denise Moraes, Andrea Guarçoni e Marcelo Mourão