quarta-feira, 8 de abril de 2015

PARA QUÊ (AINDA) SERVE A POESIA?


por Pedro Lyra

(Tópico do livro O transe da poesia – Da grandiosidade do Clássico à banalidade do Pós-moderno. A sair.)


A situação da poesia se agravou e atingiu um ponto crítico na contemporaneidade, com o progressivo incremento da população mundial, gerando as sociedades de massa, com um público consumidor capaz de profissionalizar qualquer atividade – inclusive a do poeta, o último produtor cultural ainda amador, se direcionada nesse sentido. Bastava um programa regular de tevê: semanal... mensal... Não precisava ser diário. Este fica para o esporte, uma atividade culturalmente quase vazia. Deve ser por isso que os atletas são praticamente a única categoria com direito a voz ao vivo nas telas das tevês. Não têm nada a dizer.

Novos e mais eficientes meios de comunicação, transporte e informação, sob pressão da nova realidade, foram criados para e pela globalização do mercado consumidor. Paralelamente, a indústria burguesa prodigalizava novas e mais sedutoras formas de lazer, todas elas sociais, em oposição ao lazer solitário proporcionado pela leitura nas sociedades pré-industriais.
No mundo de hoje, quem ainda lê é o profissional da cultura. Aquele cidadão comum do século XIX e de princípios do XX, que pegava o seu Alencar ou o seu Bilac, o seu Eça ou o seu Camões para ler na sesta, esse continuou a ser comum, mas perdeu a sesta e deixou de ser leitor: virou assistente – telespectador ou ouvinte. Ou simplesmente fofoqueiro de boteco, turista de subúrbio, alienado internauta, pornoconsumidor...

Hoje, ao contrário de todas as demais, que não sobreviveriam sem um público extrínseco, de apreciadores comuns (os amantes da música, do cinema, da pintura, do romance, da telenovela etc.) sem vínculo pessoal ou profissional com nenhuma dessas artes, a poesia é também a única que sobrevive com um público quase exclusivamente intrínseco: os poetas da contemporaneidade praticamente só são lidos mesmo (com exceção de leitores compulsórios, como professores e estudantes) pelos outros poetas e seus raros críticos. Parentes e amigos fora do círculo intelectual vão aos lançamentos, às vezes abrem o livro – por mera curiosidade ou simples cortesia.

Algumas das novas formas artísticas souberam bem aproveitar a penetração popular dos meios de comunicação de massa e, beneficiadas pela criação anterior dos instrumentos de reprodução da obra, puderam industrializar-se e assim se transformaram em profissões, altamente rendosas. Foram aquelas que, sem maior compromisso com a tradição ou um projeto cultural e colocando seus produtos ao nível intelectual das massas, oferecem basicamente a emoção, o prazer ao seu público: a música, no rádio; a narrativa, no cinema; e ambas na tevê e hoje na Net.

Essas artes, através do disco e da fita, do filme e do vídeo, das telas das tevês e dos computadores, dos celulares ou dos tablets, saíram dos gabinetes ou dos salões para os estúdios e daí para a casa, para a rua, para o mundo, numa comunicação livre, direta, descontraída e espontânea, hoje interativa, com um público verdadeiramente universal.

A poesia bem que tentou, mas não teve como penetrar em nenhum desses meios; perdeu para a música popular praticamente todo o público leigo e jovem que havia conquistado; e, em busca de solução para a crise, começou a indagar-se sobre si mesma: para quê ainda sirvo?

De olho na consagração das instâncias legitimadoras (editoras, universidade e imprensa), esqueceu o leitor. Agora tenta “ressarcir-se” através das redes sociais: no Facebook, talvez seja a arte mais presente, por uma razão óbvia. Sendo a mais exigente quanto ao nível (a História só reconhece poetas até o 3º dos 5), é a mais simples quanto à produção: se antes bastava um caderno e um lápis (que todo menino possuía), hoje basta um celular (que todo mundo também possui).

Na prática, contentou-se com as noites de autógrafo, com os recitais em ambientes diminutos, com as recensões e entrevistas dos suplementos dos jornais, quase apenas dos pequenos, que adquirem dimensão maior transplantados justamente para o ciberespaço – mas nada na tevê. E com as aulas, cursos, congressos, monografias, dissertações e teses das Faculdades de Letras – que alguns autores fora do circuito universitário criticam, mas adoram quando são o tema, ou são convidados. E como se esmeram em fornecer material para os pós-graduandos! Eu também já fiz isso, mas eu sou universitário.

Em suma: a poesia continua servindo apenas para o que sempre serviu – a iluminação interior de uns poucos espiritualmente privilegiados. Ou seja: do ponto de vista pragmático, a resposta à pergunta do título seria: “Para nada”.

Mas a sua ausência serve ao menos para que espíritos ensombrecidos provoquem perguntas como essa.

E gerem respostas.




 

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Pedro Lyra é poeta, crítico, ensaísta, antologista de poesia
e professor de poética na Universidade Federal do Rio de Janeiro.




4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Não sei se cabe criar ou buscar espaços, além de valorizar a literatura e poesia na educação. Descobri positivamente surpresa que ainda há muitos que apreciam, criam, vivem e partilham poesia. Quem sabe as novas redes e as novidades tecnológicas das redes não serão instrumentais numa retomada? Sonho?

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  3. Não sei se cabe criar ou buscar espaços, além de valorizar a literatura e poesia na educação. Descobri positivamente surpresa que ainda há muitos que apreciam, criam, vivem e partilham poesia. Quem sabe as novas redes e as novidades tecnológicas das redes não serão instrumentais numa retomada? Sonho?

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  4. - É isso, Pedro Barbosa. Noutro artigo, afirmo que a tevê tem medo da força da palavra poética. E que a Net já está fazendo pela poesia mais do que a mídia impressa. O futuro dela está aqui.

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