quarta-feira, 1 de abril de 2015

OITO PERGUNTAS A PENAS, com ADRIANE GARCIA






Adriane Garcia, nascida em Belo Horizonte/MG, em 1973. Historiadora, funcionária pública, arte-educadora, atriz. Escreve poesia, infanto-juvenis, contos e dramaturgia. Venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Paraná, Helena Kolody, em 2013, com o livro de poesia Fábulas para adulto perder o sono. Publicou em 2014 o livro de poemas O nome do mundo, pela editora Armazém da Cultura. Integra o site Escritoras suicidas e colabora na Revista Mallarmargens. Tem poemas publicados na CULT, Vox, Germina, Eutomia, Palávoraz, Diversos afins e na antologia Hiperconexões, realidade expandida, organizada por Luiz Braz. Seu livro premiado sairá em breve pela editora Confraria do Vento.


Tão grande quanto

Amar é fácil
Difícil é reconhecer o desamor
E eu desamo

Desamo a despeito de Paulo
Em Coríntios capítulo treze
E me impaciento

Meu amor não espera nada
E suspeito que não seja benigno
Cresce desordenado

No fim de tudo desamo
Irrito-me e não tolero
Metástase.


BAP1: Seus dois poemas que saíram editados na Revista Cult – “Tão grande quanto” e “Chafurdando” – passa ao leitor uma visão bastante pessimista da relação amorosa vivida entre duas pessoas, principalmente do amor que surge entre um homem e uma mulher. A mesma forma de enxergar tal sentimento também aparece em outro poema seu, “O morador”. Para compor estes três poemas você se utilizou de reminiscências pessoais ou apenas usou a máscara literária, o fingimento poético, na construção do eu-lírico destes textos? Qual a sua visão do amor nos dias de hoje? O amor verdadeiro pode existir ou é somente um mito, um conto de fadas?

Adriane: Para compor os poemas sobre amor eu, geralmente, uso reminiscências pessoais e misturo com invenções. Noutras vezes utilizo histórias que me contaram, ouvi ou li. Por incrível que pareça, o amor para mim sempre deu certo, porque sempre vivi o amor com muita intensidade e amei e fui amada em minhas relações. Mas creio que até mesmo por causa da intensidade disso os términos também são terríveis.  Em O morador eu quis muito mais que ser pessimista, eu quis mostrar o amor como algo que se instala e pronto. Não oferece tudo o que promete porque é maior que nossa fome e, ao mesmo tempo, nossa fome se torna maior. Em Chafurdando eu creio que há uma desilusão quanto ao casal. Claro que o que um poeta sente, ou vê, ou percebe, ou declara num poema pode valer apenas para aquele momento e não mais. Fica o artefato para ser possuído pelo leitor. Do poeta já se desprendeu e, noutro dia, já se pode estar dizendo o contrário. O poeta não tem compromisso com verdades estáticas. Minha visão do amor nos dias de hoje é a de que o amor é algo maravilhoso de ser vivido como em todos os tempos. Sorte daqueles que encontram a pessoa disposta a amar e ser amada e isso, no caso de duas pessoas dispostas à vida conjunta, envolve uma equação que precisa mais do que amor. Nem todos estão dispostos. O amor é caro. Claro que o amor verdadeiro existe. Aliás, se é amor, é verdadeiro.

BAP2: A cultura pop aparece em vários de seus poemas, principalmente o universo dos quadrinhos. Há outros momentos em que você lança mão do mundo das fábulas, como foi o caso dos poemas do seu premiado livro Fábulas para adulto perder o sono. Tudo a seu redor pode virar poema e/ou sua poesia nasce de mergulhos a seus paraísos e abismos interiores?

Adriane: Tudo pode virar poema. Olho o mundo e o mundo me instiga a palavra. Gosto do diálogo, desde pequena. Acho que por isso minha poesia conversa com a conversa que tive com um amigo, um filme que vi, uma fábula que li, uma apresentação de orquestra que acabei de ouvir, um grupo de meninos batendo lata, uma pintura, um personagem de HQ... Mas mesmo que seja exterior o tema, o paraíso e o abismo são sempre interiores. Sensibilizo-me porque de certa forma aquilo toca meu coração.

BAP3: No poema “Conhecer-te” você diz:
"Guardo monstros horrorosos
No armário
Iguais aos que me assustam
Nos outros
Um dos meus monstros
É o que vigia a porta
Se me provocam
Ele abre o armário
Não gosto de me ver
No espelho."
Dói muito olhar pra si mesma? Você já fez terapia psicanalítica? Jung disse certa vez: “Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda.” Você prefere sonhar ou acordar?

Adriane: Olhar para nós mesmos, na minha opinião, é o ato mais corajoso que podemos realizar. Fiz seis anos de terapia. Fez-me muito bem. Fui por causa de um casamento que finalizava e acabei por trabalhar outras questões, que nem imaginava que estivessem agindo ali naquele caso. Melhorou minha relação comigo e consequentemente com o mundo. Mas é sempre um mergulho doloroso. Feridas narcísicas mexidas, remexidas e a gente tem que crescer e encarar que nem tudo é verdade e que nem tudo é mentira. Eu prefiro acordar. Por isso minha poesia é muito mais dura que leve.

BAP4: Se, por exemplo, um poeta tailandês te pedisse para explicar a ele o que vem a ser a poesia contemporânea mineira, a poesia contemporânea brasileira e o nosso país atualmente, o quê você diria para ele?

Adriane: Diria que a  poesia contemporânea mineira está tendente a ser direta e objetiva sem abrir mão de todo lirismo. Creio que, num todo -  com a exceção do pessoal que está criando um novo idioma a que ninguém possui entendimento -  temos uma poesia ancorada na tradição, porém, nova ( e não estranha – faço aqui a mesma distinção que faz Carlos Felipe Moisés, que o novo possui bases na tradição e o estranho não se acha em nada). Falo de uma poesia mais recente, que quer comunicar. Diria ainda que a poesia contemporânea é bastante diversificada, onde cabem vários estilos e acho isso muito bom. Creio que revelam uma diversidade que só a democracia permite. Quanto ao meu país eu diria que estamos, no momento confuso, tentando nos encontrar. E espero que nosso caminho seja sempre o democrático.

BAP5: Adriane, sua formação original é História. Creio que o saber adquirido na sua graduação exerça alguma influência na sua forma de escrever. Se isso for verdade, você poderia nos dizer até que ponto conhecer a História a influenciou e influencia? E, se esse conhecimento abriu horizontes para novos conhecimentos, tipo filosofia, sociologia, antropologia, psicanálise e/ou outros mais?

Adriane: Ter estudado História me ensinou sobretudo a ler, a perceber entrelinhas, a contextualizar e  duvidar. Isso não tem preço e sua importância em minha vida é fundamental. Hoje, o que mais gosto de ler (há uns quatro anos, na verdade) é filosofia. Costumo revezar minhas leituras entre poesia, filosofia, ficção e crítica literária.

BAP6: Você escreve, dentre outras coisas, literatura infanto-juvenil. Pressupõe- se que você tenha lido bastante na sua infância e juventude. Na sua opinião, qual a importância de se começar a ler cedo e de que modo isso pode ser estimulado às crianças de hoje em dia? Complementado essa pergunta, gostaria de saber qual a sua opinião sobre a situação da literatura no mundo acadêmico atual?

Adriane: Sim, li muito cedo e fui encantada pelos livros. Minha casa não teve televisão até muito tarde, eu já era adolescente quando ela chegou. Não tínhamos dinheiro para comprar e isso acabou ajudando a que eu passasse mais tempo na biblioteca escolar. Ler cedo é fundamental porque pode desenvolver o gosto. Mas também nunca é tarde, porém mais difícil, creio. Minhas filhas foram acostumadas com livro desde que estavam na barriga. E sempre levei em livrarias e bibliotecas para a escolha de livros. No Dia do Livro, comemoramos como se fosse Dia da Criança. Isso tudo fez com que o livro não tomasse ares de obrigação e sim de presente, de brinquedo, de festa.
Eu não posso dizer exatamente sobre a literatura no mundo acadêmico atual porque não frequento este meio. Mas costumo ler aqui e ali, vou a palestras de acadêmicos. O que percebo, limitada ao que percebo, é que há uma defasagem entre a literatura que estudam e a literatura que tem acontecido.

BAP7: Pela sua biografia, observamos que você desempenha diversas atividades além de escrever. De que modo você se dedica a essas outras atividades? Como você divide seu tempo para exercer todas elas?

Adriane: Ah, ufa! Nem eu sei. Ponho umas coisas no automático e vou. E outra é que aprendi que o difícil é começar. Começou, a gente vai. Mas, ufa!

BAP8: Você considera o lazer importante para a criatividade dos artistas? Se você concorda com isso, de que maneira isso a inspira e quais são suas atividades preferidas nesse sentido? Complementando essa pergunta, qual sua opinião sobre o " ócio criativo"?

Adriane: Acho o lazer importantíssimo. Eu mesma tenho vezes de, apesar de gostar de estar em casa escrevendo, lendo, ter que sair e dar uma volta na Lagoa da Pampulha pra respirar. A poesia me deixa num mundo muito denso, muito pra ela. Se eu não arejo a própria poesia para. Asfixia. Eu me alimento para a poesia de quando não estou escrevendo poesia. Acho que Domenico De Masi é um homem que conseguiu ver o trabalho como meio e não como finalidade. A finalidade é a vida.


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Entrevista realizada pela equipe do BAP:
Denise Moraes, Andrea Guarçoni e Marcelo Mourão

5 comentários:

  1. Muito bom conhecer, um pouco mais, Adriane. Há algum tempo tive oportunidade de ver o vídeo de uma entrevista sua, e foi excelente a impressão que me ficou. Pois agora, através de suas respostas às excelentes perguntas formuladas pela equipe do BAP, aquele meu sentimento se confirmou: a par de seu talento extraordinário, a poeta traz consigo muita simplicidade e alguém já disse que essa virtude é a forma mais extrema do requinte. Quero deixar aqui o registro de minha satisfação com essa leitura e meus cumprimentos para Adriane, Denise, Andrea e Marcelo. Abraços.

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  2. Nenhuma surpresa, partindo da palavra desta Poeta mineira, agora de nós conhecida.Parabéns ao BAP e à equipe de entrevistadores pela inteligência de perguntas e respostas, coisa rara por estas plagas. Será que estamos, finalmente, a escapar às "panelas" e 'rodinhas' que obscurecem a produção poética? Já não é sem tempo.

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  3. Parabéns pela estreia deste botão com uma das minhas poetas favoritas. Adriane e sua delicadeza firme, transparente em palavras, é um farol no mar cibernético, sempre apontando novos e intensos caminhos a se navegar. Sua poesia é "ouro de Minas". Turma do BAP, mais uma vez, arrasa com esta iniciativa. Sou fã!

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  4. Tão bom saber mais de uma poeta amada! Sou fã!

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  5. Leí con agrado toda la entrevista, también los comentarios. Cada vez entiendo mejor el portugués. Buenas preguntas de BAP e iluminadoras respuestas de Adriane. Felicitaciones.

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