domingo, 8 de março de 2015

Sobre datas e o Dia 8 de março


por Leninha Barros


Nossos calendários nos avisam com antecedência da importância de certas datas. Algumas nacionais, outras comemoradas mundialmente; sejam locais ou regionais, todas, no entanto, simbolizam um acontecimento que, teoricamente, deveria ser lembrado.

As datas especiais deveriam incitar antes uma reflexão que uma comemoração. Mas o que tenho observado é que com o tempo vai-se perdendo o sentido do porquê de uma festa, do pra que de uma comemoração desvirtuada de seu real significado e, passamos a repetir fórmulas prontas de cumprimentos, aproveitamo-nos do feriado da data para "apreguicionar" pachorrentamente o dia…
Certas datas impõem uma ditadura consumista, outras apelam para uma comemoração em volta de mesas de bar ou de uma família que só se reúne uma vez por ano. Há um apelo praticamente de tudo: flores, corações, abraços. Flores, corações e abraços, que deveriam ser de si doados todos os dias, passam a ter dia marcado…

Param-se as guerras no Dia Internacional da Paz e recomeçam-nas, celeremente, na próxima meia-noite; empanturramo-nos de chocolate nas Páscoas e começamos o regime nas segundas que as sucedem; é preciso um dia para se lembrar da "Pátria Amada"; suspira-se de amor no Dia dos Namorados e a rotina impera no dia-a-dia dos casais; cumprimentam-se as mulheres no Dia Internacional da Mulher …

Decretado pela ONU, em 1977, como o Dia Internacional dos Direitos das Mulheres e pela Paz, o dia 8 de março, para além de cumprimentos às mulheres, deveria evocar, em sua importância simbólica, um sentimento de defesa e de luta pelos direitos fundamentais reconhecidos. A revolta das 129 tecelãs ocorrida a 8 de março de 1857 em Nova York terminou em tragédia. Ao serem cercadas e mortas incendiadas dentro da fábrica em que trabalhavam tornaram-se símbolo de uma luta de equiparação de direitos que continua a ser travada até os dias atuais…

Avanços, por certo houve; mas, as estatísticas ainda revelam uma humilhante discriminação das mulheres sob várias formas , presentes desde o seio familiar até o ambiente de trabalho externo. No Brasil temos uma lei para coibir a violência contra a mulher (Lei n. 11.340) , particularmente no âmbito doméstico : a Lei Maria da Penha. O nome desta lei é uma homenagem à biofarmacêutica Maria da Penha Maia, vítima de inúmeras agressões pelo marido Marco Antônio Herredia. Este, após duas tentativas de assassiná-la, deixou-a paraplégica. Marco Antônio só foi preso após 19 anos de julgamento, tendo passado apenas 2 anos em regime fechado…Parece-me ainda ser necessária a diferenciação como degrau para a isonomia; são ainda imprescindíveis as leis para que se internalize uma norma maior, ética de respeito e valorização do outro enquanto semelhante…
Vários atributos como ternura, desprendimento, amor incondicional, beleza, entre outros, são associados à figura feminina. Mas, prefiro falar destes atributos e ligá-los aos homens e não a um gênero. Prefiro falar de homens e mulheres ternos, desprendidos, que sabem amar incondicionalmente, que são belos de corpo e de mente. Prefiro falar de fraternidade, igualdade, de respeito e admiração recíprocos, de complementariedade…

Penso que na data de hoje deveriam todos – homens e mulheres – refletirem sobre os avanços em suas relações um para com o outro. Deveriam as mulheres se engajarem na luta por isonomia salarial, mas se perguntarem se estão felizes no trabalho. Deveriam os homens se perguntarem se têm demonstrado respeito para com suas companheiras que optaram pelo trabalho doméstico. Deveriam as mulheres se perguntarem se na luta por direitos iguais elas abririam mão de privilégios. Deveriam os homens se perguntarem se ao tratá-las como "iguais" não repetem seus padrões de disputa e competitividade que têm entre si. Deveriam as mulheres se perguntarem em quais situações abusam de sua fragilidade em proveito próprio. Deveriam os homens enxergarem a força que se esconde na fragilidade de suas mulheres. Deveriam as mulheres perguntarem aos homens e os homens às mulheres o porquê de se distanciarem, o porquê de não caminharem juntos… Deveriam ouvir as respostas…


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Leninha Barros é natural de Uberlândia, Minas Gerais,
graduada em Medicina Veterinária e Psicologia
pela Universidade Federal de Uberlândia
e colaboradora do Boca a Penas

2 comentários:

  1. Parabéns, Leninha Barros, pelo excelente texto, de uma transparência que nos remetem mesmo à profundas reflexões. O diálogo aberto, franco e com respeito mútuos, creio ser a chave para os avanços no sentido de a mulher conquistar mais espaços na sociedade. Parabéns! Um feliz dia da mulher pra ti!.

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