terça-feira, 31 de março de 2015

Páscoa


Vi Jesus Cristo descer à terra.
Tornado outra vez menino, a correr e a rolar-se pela erva
e a arrancar flores para as deitar fora e a rir de modo a ouvir-se longe.
Tinha fugido do céu.
No céu tinha que estar sempre sério
e vez em quando de se tornar outra vez homem
e subir para a cruz,  e estar sempre a morrer
Alberto Caeiro


Antigamente, ou: era uma vez; enfim, tudo que é festa com o tempo acaba numa espécie de ruína da memória, perdida nos meandros informáticos e que só o Google pode rever. A insistir num retorno à espontaneidade, uns dizem que você não cresceu e outros que você já está gaga, na aparência e no espírito, apesar de todo óleo de fígado de bacalhau que nossa mãe empurrou goela abaixo, por culpa exclusiva do "seu" Scott.

Por mais estranho que pareça aos novos religiosos ou aos velhos ateus, todos esperavam estar presentes à ceia de Páscoa ou ser um dos escolhidos para a cerimonia da humildade: o lavapés. Aguardava-se a procissão do morto, enquanto ecoava o lamento da Madalena que, no gesto repetido por séculos, enxuga o rosto do Cristo, para sempre impresso no pano, e que botava um baita medo nas crianças.

No sábado, a coisa apertava, lá pros lados da Rua do Lavapés, no Glicério: a malhação do Judas adquiria contornos políticos e la se iam paus e pedras  no boneco; depois, botava-se fogo no enforcado de palha, nas máscaras de políticos e, pasmem, simbolicamente nos corruptos de então, cujas cinzas subiam aos céus nas volutas de papel queimado que recheavam as roupas velhas, para, por fim, sumirem nas sarjetas e nos esgotos. Lógico que os correligionários do Judas punham-se, também, com paus e pedras, a defender seu líder ou a disputar seus despojos, acabando-se num pega pra capar, igual à disputa pelos balões caídos das festas juninas. Bons tempos aqueles em que os tumultos só começavam no sábado de Aleluia, nada obstante terem os sociólogos e outros ólogos passado a admitir que dali surgiria – como no império romano – o germe dos movimentos de rua, contrários a qualquer espécie de ditadura ou imposição ideológica. Era uma revolta em miniatura, misturando-se povo, operariado e outras classes numa verdadeira orgia de caras-pintadas ou black blocs.

Depois da pajelança, aí sim, ou se ia para a cadeia ou sentava-se à mesa para comer o bacalhau, fosse o de posta ou aquele raquítico, com aparência de peixe desventrado; cadáver, que ficava pendurado na venda e o português apregoava ser da Noruega – até o dia em que se admitiu que o do Porto podia ser melhor.

Assim, enquanto alguns comiam a posta regada generosamente a azeite, ovos, pimentões e azeitoninhas pretas portuguesas; outros lambiscavam as raspas e chupavam as espinhas, fritando bolinhos, com o resto do resto do óleo do Matarazzo, envolto em desproporcionais porções de batatas e salsinha.

Sempre para os mais afortunados o coelho trazia ovos da Sonksen ou da Lacta, mais tarde da Kopenhagen, coelhos e galinhas de chocolate ou então um imenso ovo de cujo interior saltavam brinquedos, bombons e outras surpresas.

Não vale a pena aqui adiantar assuntos de Natal, mas a Páscoa acabou sendo também outra espécie de mercado de trocas, enquanto as crianças – raramente – podem acordar no Domingo para procurar os ovos que o coelho deixou espalhados pelo apartamento, pelo jardim ou pelo gramado do sítio. Felizes estes que ainda perseguem alguma espécie de sonho e cuja recompensa é o ovinho de chocolate.

Boa Páscoa, a todos, mas principalmente às crianças que ainda acreditam no coelho e no afeto dos pais, avós ou responsáveis.


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Caetano Lagrasta é  Consultor Jurídico e Jornalista. 
Autor  de livros de contos, poemas e poemas infantis. 
Articulista do Projeto Tempestade Urbana 
Colaborador do Boca a Penas
e mantém o site www.caetanolagrasta.com

Um comentário:

  1. Poucas vezes vi a Páscoa tão bem proseada, Caetano. Seu texto reúne informações interessantes, pitorescas, irônicas e sensíveis para nos fazer refletir sobre uma data que, assim como o Natal, parece ter virado um mercado de trocas, como você mencionou com toda razão. Parabéns pelo texto que me arrebatou e imagino que a outros leitores do BAP. Obrigada. Abraços e uma Páscoa poética! ;)

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