quarta-feira, 25 de março de 2015

OS DADOS DE DEUS


por Marcus Fabiano


deus não joga dados, prefere o baralho. outras combinações do mesmo acaso. porém quando joga já sabe o resultado. ele é o crupiê que organiza o buraco e o jóquei do azarão de cada páreo. de quebra ainda é craque em sinuca de bico. o giz do seu taco é bendito. deus não gosta de bingos e acha o xadrez muito pouco instrutivo. falsamente rebuscado, uma maquete do homem como este é do macaco. aos domingos deus joga truco com o diabo. e lhe entrega pastores ladrões e padres devassos. são suas fichas falsas e seus dados chumbados. deus joga sujo com quem merece. às vezes ele finge que perde. e só o faz para que ganhar tenha graça. deus pratica mas não tolera trapaças. na roleta russa ele é sem adversários. só acerta na cabeça do avestruz e do veado. e isso quando joga no bicho. deus ensina que com a vida não se brinca. por isso jamais assiste a jogos olímpicos. ele disfarça e diz que paganismo não é consigo. no fundo deus não é nada competitivo. apenas monoteísta e muito polido. todavia não passa trancado em cassinos. joga tava, joga bocha, aposta em loterias. o pecado de deus é não ter outros vícios. não gosta de mulher nem de bebida. às vezes só curte um sambinha. prefere mesmo espreitar precipícios e distribuir paraquedas furados a anjos caídos. deus é bom porque conhece toda malícia. tem dedos mas não belisca. gosta mais de tirar par ou ímpar. deus compra a cartela inteira da rifa. e paga com a moeda do cara ou coroa. ele só joga com moedas de ouro. o resto ele tira no palitinho. graças a isso os perdedores o fazem de caça-níquel, o que o deixa muito triste. ele considera a probabilidade uma cretinice. o seu sonho sugere o palpite e inventa a esperança. deus prefere o dominó ao fliperama. em matéria de luz ele ganha de lambança. no pôquer o seu blefe é a maior catástrofe. deus esconde o curinga e inventa outros naipes. aliás disso só deus sabe: de onde vem o vocábulo naipe. em sânscrito governador é nabab, o mesmo que em árabe énaibi, que em hebraico vira feitiçaria. mas deus joga e não complica. sua fezinha já é profecia. ele abole as regras do jogo e ensina o riso na corte do bobo. deus salva da corda o enforcado porque o seu tarô tem dois lados. e em cada um deles gira uma roda da fortuna. a sorte de deus não conhece a palavra nunca. ano passado entretanto deus foi morto (de novo) pelos cientistas. disseram que ele encorajava a jogatina. e que suas ideias eram castelos de cartas. a ciência então se comprazia em assoprá-las. deus as recolheu e não fez nada. ele não tem pressa, apenas calma. um dia ele põe suas cartas na mesa e acerta essas desavenças. enquanto isso, deus joga paciência.


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Marcus Fabiano Gonçalves nasceu no Rio Grande do Sul (Santana do Livramento, 1973). 
Radicado no Rio de Janeiro, é professor da Universidade Federal Fluminense. Em 2005 
publicou O Resmundo das Calavras (ws editor), obra finalista do Prêmio Jabuti. 
Mantém o blog Arame Falado: https://marcusfabiano.wordpress.com


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