terça-feira, 31 de março de 2015

Páscoa


Vi Jesus Cristo descer à terra.
Tornado outra vez menino, a correr e a rolar-se pela erva
e a arrancar flores para as deitar fora e a rir de modo a ouvir-se longe.
Tinha fugido do céu.
No céu tinha que estar sempre sério
e vez em quando de se tornar outra vez homem
e subir para a cruz,  e estar sempre a morrer
Alberto Caeiro


Antigamente, ou: era uma vez; enfim, tudo que é festa com o tempo acaba numa espécie de ruína da memória, perdida nos meandros informáticos e que só o Google pode rever. A insistir num retorno à espontaneidade, uns dizem que você não cresceu e outros que você já está gaga, na aparência e no espírito, apesar de todo óleo de fígado de bacalhau que nossa mãe empurrou goela abaixo, por culpa exclusiva do "seu" Scott.

Por mais estranho que pareça aos novos religiosos ou aos velhos ateus, todos esperavam estar presentes à ceia de Páscoa ou ser um dos escolhidos para a cerimonia da humildade: o lavapés. Aguardava-se a procissão do morto, enquanto ecoava o lamento da Madalena que, no gesto repetido por séculos, enxuga o rosto do Cristo, para sempre impresso no pano, e que botava um baita medo nas crianças.

No sábado, a coisa apertava, lá pros lados da Rua do Lavapés, no Glicério: a malhação do Judas adquiria contornos políticos e la se iam paus e pedras  no boneco; depois, botava-se fogo no enforcado de palha, nas máscaras de políticos e, pasmem, simbolicamente nos corruptos de então, cujas cinzas subiam aos céus nas volutas de papel queimado que recheavam as roupas velhas, para, por fim, sumirem nas sarjetas e nos esgotos. Lógico que os correligionários do Judas punham-se, também, com paus e pedras, a defender seu líder ou a disputar seus despojos, acabando-se num pega pra capar, igual à disputa pelos balões caídos das festas juninas. Bons tempos aqueles em que os tumultos só começavam no sábado de Aleluia, nada obstante terem os sociólogos e outros ólogos passado a admitir que dali surgiria – como no império romano – o germe dos movimentos de rua, contrários a qualquer espécie de ditadura ou imposição ideológica. Era uma revolta em miniatura, misturando-se povo, operariado e outras classes numa verdadeira orgia de caras-pintadas ou black blocs.

Depois da pajelança, aí sim, ou se ia para a cadeia ou sentava-se à mesa para comer o bacalhau, fosse o de posta ou aquele raquítico, com aparência de peixe desventrado; cadáver, que ficava pendurado na venda e o português apregoava ser da Noruega – até o dia em que se admitiu que o do Porto podia ser melhor.

Assim, enquanto alguns comiam a posta regada generosamente a azeite, ovos, pimentões e azeitoninhas pretas portuguesas; outros lambiscavam as raspas e chupavam as espinhas, fritando bolinhos, com o resto do resto do óleo do Matarazzo, envolto em desproporcionais porções de batatas e salsinha.

Sempre para os mais afortunados o coelho trazia ovos da Sonksen ou da Lacta, mais tarde da Kopenhagen, coelhos e galinhas de chocolate ou então um imenso ovo de cujo interior saltavam brinquedos, bombons e outras surpresas.

Não vale a pena aqui adiantar assuntos de Natal, mas a Páscoa acabou sendo também outra espécie de mercado de trocas, enquanto as crianças – raramente – podem acordar no Domingo para procurar os ovos que o coelho deixou espalhados pelo apartamento, pelo jardim ou pelo gramado do sítio. Felizes estes que ainda perseguem alguma espécie de sonho e cuja recompensa é o ovinho de chocolate.

Boa Páscoa, a todos, mas principalmente às crianças que ainda acreditam no coelho e no afeto dos pais, avós ou responsáveis.


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Caetano Lagrasta é  Consultor Jurídico e Jornalista. 
Autor  de livros de contos, poemas e poemas infantis. 
Articulista do Projeto Tempestade Urbana 
Colaborador do Boca a Penas
e mantém o site www.caetanolagrasta.com

segunda-feira, 30 de março de 2015

unidos para criar... criando para unir

Sim, nós estamos trabalhando juntos há algum tempo e tudo o que é bom tem que crescer!

Daí a ideia de lançar o selo TUBAP e abraçar novos projetos literários.

TUBAP é a união de páginas culturais, da arte e também da amizade. É a capacidade de unir forças para um objetivo comum, sem cair no comum, porque é feito no plural, renovando-se e dialogando com os amigos artistas. Aqui selamos e celebramos esta união com vocês.

Vida longa ao Tempestade Urbana e ao Boca a Penas... Avante TUBAP!!!


sexta-feira, 27 de março de 2015

NOVENTA ANOS, que susto!





por Nida Del Guerra Ferioli

Estou completando os meus.

O que sinto?  Preocupação, ansiedade, medo do futuro?

Não! de forma alguma, muito pelo contrário.

Estou me sentindo renascer, impelida a continuar vivendo com otimismo, bom humor, novos entusiasmos, objetivos e ...

Assim poder frequentar cursos que me completem e ajudem a manter a autoestima; que me façam, cada vez mais, conhecer meu eu interior e, enquanto puder, ajudar o próximo.

Viver:  enfrentando tudo que ainda está por vir na minha longa jornada, sempre com o mesmo amor, a mesma coragem e determinação; sem lamentações.

Vivam meninos e meninas! Trabalhem, estudem e aproveitem o tempo feliz, na espera dos

SEUS NOVENTA ANOS!





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NIDA DEL GUERRA FERIOLI (94) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014); 
Professora de italiano; Autora do livro “Vivendo a Vida” 
e colaboradora muito especial do BAP

quarta-feira, 25 de março de 2015

OS DADOS DE DEUS


por Marcus Fabiano


deus não joga dados, prefere o baralho. outras combinações do mesmo acaso. porém quando joga já sabe o resultado. ele é o crupiê que organiza o buraco e o jóquei do azarão de cada páreo. de quebra ainda é craque em sinuca de bico. o giz do seu taco é bendito. deus não gosta de bingos e acha o xadrez muito pouco instrutivo. falsamente rebuscado, uma maquete do homem como este é do macaco. aos domingos deus joga truco com o diabo. e lhe entrega pastores ladrões e padres devassos. são suas fichas falsas e seus dados chumbados. deus joga sujo com quem merece. às vezes ele finge que perde. e só o faz para que ganhar tenha graça. deus pratica mas não tolera trapaças. na roleta russa ele é sem adversários. só acerta na cabeça do avestruz e do veado. e isso quando joga no bicho. deus ensina que com a vida não se brinca. por isso jamais assiste a jogos olímpicos. ele disfarça e diz que paganismo não é consigo. no fundo deus não é nada competitivo. apenas monoteísta e muito polido. todavia não passa trancado em cassinos. joga tava, joga bocha, aposta em loterias. o pecado de deus é não ter outros vícios. não gosta de mulher nem de bebida. às vezes só curte um sambinha. prefere mesmo espreitar precipícios e distribuir paraquedas furados a anjos caídos. deus é bom porque conhece toda malícia. tem dedos mas não belisca. gosta mais de tirar par ou ímpar. deus compra a cartela inteira da rifa. e paga com a moeda do cara ou coroa. ele só joga com moedas de ouro. o resto ele tira no palitinho. graças a isso os perdedores o fazem de caça-níquel, o que o deixa muito triste. ele considera a probabilidade uma cretinice. o seu sonho sugere o palpite e inventa a esperança. deus prefere o dominó ao fliperama. em matéria de luz ele ganha de lambança. no pôquer o seu blefe é a maior catástrofe. deus esconde o curinga e inventa outros naipes. aliás disso só deus sabe: de onde vem o vocábulo naipe. em sânscrito governador é nabab, o mesmo que em árabe énaibi, que em hebraico vira feitiçaria. mas deus joga e não complica. sua fezinha já é profecia. ele abole as regras do jogo e ensina o riso na corte do bobo. deus salva da corda o enforcado porque o seu tarô tem dois lados. e em cada um deles gira uma roda da fortuna. a sorte de deus não conhece a palavra nunca. ano passado entretanto deus foi morto (de novo) pelos cientistas. disseram que ele encorajava a jogatina. e que suas ideias eram castelos de cartas. a ciência então se comprazia em assoprá-las. deus as recolheu e não fez nada. ele não tem pressa, apenas calma. um dia ele põe suas cartas na mesa e acerta essas desavenças. enquanto isso, deus joga paciência.


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Marcus Fabiano Gonçalves nasceu no Rio Grande do Sul (Santana do Livramento, 1973). 
Radicado no Rio de Janeiro, é professor da Universidade Federal Fluminense. Em 2005 
publicou O Resmundo das Calavras (ws editor), obra finalista do Prêmio Jabuti. 
Mantém o blog Arame Falado: https://marcusfabiano.wordpress.com


segunda-feira, 23 de março de 2015

SEGREDO


por Maria Balé




Quando vais parar com esses delírios? E com as roupas rasgadas. E com essa cara suada. E com esses olhos esbugalhados. Vocifera, sem tirar os olhos do buraco da agulha que escapa às investidas do lambido fio de linha branca.



Indiferente à eletricidade da mãe, ao sumiço do botão da blusa e ao espinho encravado nos pés sujos, a menina ofega sobre o sapo com asas, a formiga vestida de noiva, a lesma bailarina e a aranha com olhos azuis.



Da idade, contemporiza o pai. Poeta, segreda-lhe o avô.



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Maria Balé é  pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC de São Paulo, 
fotógrafa, produtora de textos e escritora de contos.





sexta-feira, 20 de março de 2015

ALCOOLIRISMO


por Jorge Nagao






















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Jorge Nagao é escritor e jornalista

segunda-feira, 16 de março de 2015

Ola e buenas



por Vera Molina


Não recordo se foi a famosa antologia de contos Os nove do Sul, editada nos anos 1970, da qual participaram vários autores conhecidos, entre eles, Moacyr Scliar e Tania Faillace, adquirida no Bric da Redenção, ou após palestras que se sucediam aos sábados de manhã promovidas pela Coordenadoria do Livro da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, que encontrei o autor Aldyr Schlee.

O escritor é nascido em Jaguarão, embora tenha morado grande parte de sua vida em Pelotas, onde atuou como promotor público e professor universitário. Sendo Schlee nascido em Fronteira, também ele tinha uma ponte que o levava para um outro país de fala espanhola.

Eu morava em Porto Alegre há uma década e nunca deixava de me imaginar em Uruguaiana, melhor ainda se atravessando a ponte para Paso de los Libres. Li Schlee talvez porque alguém recomendou em palestra e, naquela época, no intervalo do cafés nos dirigíamos para as mesas arrumadas no saguão do Teatro Renascença e escolhíamos mais de um livro daqueles que haviam sido mencionados.

A obra que tenho hoje em mãos me foi recomendada no dia que autografei a segunda edição da novela Quarentena, em 2011, na Palavraria, em Porto Alegre. Um amigo que ocupou muitos cargos na Secretaria da Cultura (municipal e estadual), esse sim um doutor em literatura, falou-me com tanto prazer no livro de contos que, lidos em qualquer ordem, formavam um romance porque todos eles eram fragmentos (embora contos completos) da suposta história de como teria sido a vida de Carlos Gardel se tivesse nascido em Taquarembó (Uruguai), na concepção de doze vozes femininas.


O primeiro conto narra a história da filha de um fazendeiro que levanta todas as manhãs de madrugada para receber o leite das mãos do filho do tambeiro, que apenas diz “ola” ao se ajoelhar para derramá-lo na vasilha, sem que seus olhares se encontrem, e “buenas” quando tem às mãos o recipiente vazio e volta-se para ir embora.

A narradora-protagonista, Clara, adota a segunda pessoa do singular, já outros contos são narrados de diferentes formas.


Clara segue sua rotina com o filho do tambeiro desde a sua meninice até a idade em que seus pais lhe arranjam um casamento.

Os limites do impossível: contos gardelianos é da Editora ARdoTEmpo.


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VERA MOLINA é graduada em Letras e pós-graduada em Teoria da Literatura pela PUC-RS. 
Autora de livros infanto-juvenis, novelas e contos, integra várias 
antologias de conto e poesia, inclusive como organizadora. 




sexta-feira, 13 de março de 2015

Os chineses da dinastia Tang


por André Caramuru Aubert

Desde o início dos tempos (ou, pelo menos, vá lá, desde o Gilgamesh), a poesia vez por outra passa por momentos de especial efusão criativa e popularidade. Apenas para ficar em épocas recentes, poderíamos nos lembrar das décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos, quando nasceram e explodiram movimentos como os Beats, o Black Mountain, o Harlem Renaissance e a New York School. Ou então poderíamos pensar no início do século XX na Europa e nas Américas, que viu florescerem os modernismos de variadas cepas em diversos países – Brasil incluído.

Mas pense bem: se fosse para escolher um país e uma época em que a poesia foi mais valorizada, com os poetas retribuindo com poemas que figuram entre os mais belos jamais escritos, em quem você votaria? Apesar desse hipotético pleito ter quase que infinitos candidatos, e ser evidentemente bastante subjetivo, o meu voto iria, fácil, para a China da dinastia Tang (618-907 dC). Respeitados pelos imperadores e reverenciados pela população, os poetas deixaram como legado com uma produção inigualável. Contam-se às dezenas os grandes poetas do período Tang, mas as listas geralmente começam por aquele que os chineses consideram seu poeta maior, Du Fu. Entretanto, há muitos mais, e para lembrar apenas quatro, citemos Wang Wei, Li Po, Meng Hao-Jan e Han Shan.

É uma pena que nós, brasileiros, tenhamos muito pouco contato com os poetas dessa turma. Traduções aparecem, aqui e ali, nos blogues e em revistas, e têm sido tentadas desde Machado de Assis (quase todas, nem seria preciso dizer, retraduções). Se compararmos com o que acontece nos Estados Unidos, a diferença é abismal. Um bom número de poetas americanos foi atrás dos chineses clássicos (Ezra Pound, William Carlos Williams, Kenneth Roth, Gary Snyder, Witter Bynner...), e uma legião de tradutores profissionais têm oferecido as suas versões em língua inglesa. Nomes como David Hinton, Herbert Giles, Red Pine e David Young propõem ótimas traduções, muitas vezes dos mesmos poemas, enriquecendo as possibilidades de leitura. Dessa forma, enquanto passou e continua passando como que ao largo da costa brasileira, a poesia Tang influenciou diretamente as obras de grandes americanos, como os citados e, indiretamente, muitos mais.

A influência Tang sobre a poesia norte-americana acabou por fazer, na minha opinião, uma grande diferença. Talvez não seja por acaso a sensação de modernidade que os poemas de Du Fu e companhia passam (e não vamos nos esquecer de que ele já era um poeta consagrado quando Carlos Magno, o futuro imperador do Sacro Império Romano-Germânico, ainda usava fraldas). Mas, se fosse para resumir em poucas palavras o que mais me chama a atenção, nos poetas da dinastia Tang, eu diria que é o fato de eles serem mestres na arte da concisão verbal ligada à exuberância lírica. Conseguindo pintar cenários multicoloridos usando apenas tons pastéis, eles sabiam, como ninguém, escrever muita poesia em poucas e contidas palavras.

A seguir, uma amostra grátis da poesia Tang, a partir de traduções para o inglês de David Young, David Hinton, Red Pine e Kenneth Rexroth:





Meng Hao-Jan (689-740)


Começa o outono

O outono começa discretamente. As noites aos poucos se alongam,
e pouco a pouco, ventos límpidos se tornam mais e mais frios,

as chamas do verão abrindo caminho. Minha cabana de palha vai ficando solitária.
Na escada de baixo, no mato rasteiro, o orvalho brilha com a luz.



Wang Wei (701-761)


Enlutado por Men Hao-Jan

Em lugar algum vejo meu bom amigo,
este rio Han segue correndo para o leste.

E agora, se procuro pelos velhos mestres,
eu encontro rios e montanhas vazios.



Li Po (701-762)


Inscrito numa parede no Templo do Alto da Montanha

Passando a noite no Templo do Alto da Montanha,
onde você pode alcançar e tocar as estrelas,

eu me atrevo a emitir não mais do que um sussurro,
com medo de acordar os que moram no céu.



Du Fu (712-770)

Difícil noite

Os bambus estalam no frio
o som invade meu sono

a lua acima das planícies
ilumina uma parte do meu jardim

incontáveis pequenas gotas
formam uma pesada névoa

estrelas dispersas
vem e vão sem avisar

vagalumes piscam para a frente
e para trás na escuridão

pássaros grasnando perto do riacho
delicadamente chamam uns aos outros

enquanto prosseguem
a violência e a guerra

eu me sento, vazio por dentro
e a clara noite vai passando



Han Shan (datas de nascimento e morte desconhecidas)


67

O frio nessas montanhas é feroz,
e tem estado assim todos os anos desde o princípio.

Picos lotados trancados sob neves perenes,
reclusas e escuras florestas expirando névoas,

grama que nunca brota antes do solstício
e folhas que começam a cair no começo de agosto.

Esta confusão inclui agora um hóspede perdido,

Buscando, buscando — não há céu que se possa ver.



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André Caramuru é historiador, editor e escritor. 

domingo, 8 de março de 2015

8 de Março


Sobre datas e o Dia 8 de março


por Leninha Barros


Nossos calendários nos avisam com antecedência da importância de certas datas. Algumas nacionais, outras comemoradas mundialmente; sejam locais ou regionais, todas, no entanto, simbolizam um acontecimento que, teoricamente, deveria ser lembrado.

As datas especiais deveriam incitar antes uma reflexão que uma comemoração. Mas o que tenho observado é que com o tempo vai-se perdendo o sentido do porquê de uma festa, do pra que de uma comemoração desvirtuada de seu real significado e, passamos a repetir fórmulas prontas de cumprimentos, aproveitamo-nos do feriado da data para "apreguicionar" pachorrentamente o dia…
Certas datas impõem uma ditadura consumista, outras apelam para uma comemoração em volta de mesas de bar ou de uma família que só se reúne uma vez por ano. Há um apelo praticamente de tudo: flores, corações, abraços. Flores, corações e abraços, que deveriam ser de si doados todos os dias, passam a ter dia marcado…

Param-se as guerras no Dia Internacional da Paz e recomeçam-nas, celeremente, na próxima meia-noite; empanturramo-nos de chocolate nas Páscoas e começamos o regime nas segundas que as sucedem; é preciso um dia para se lembrar da "Pátria Amada"; suspira-se de amor no Dia dos Namorados e a rotina impera no dia-a-dia dos casais; cumprimentam-se as mulheres no Dia Internacional da Mulher …

Decretado pela ONU, em 1977, como o Dia Internacional dos Direitos das Mulheres e pela Paz, o dia 8 de março, para além de cumprimentos às mulheres, deveria evocar, em sua importância simbólica, um sentimento de defesa e de luta pelos direitos fundamentais reconhecidos. A revolta das 129 tecelãs ocorrida a 8 de março de 1857 em Nova York terminou em tragédia. Ao serem cercadas e mortas incendiadas dentro da fábrica em que trabalhavam tornaram-se símbolo de uma luta de equiparação de direitos que continua a ser travada até os dias atuais…

Avanços, por certo houve; mas, as estatísticas ainda revelam uma humilhante discriminação das mulheres sob várias formas , presentes desde o seio familiar até o ambiente de trabalho externo. No Brasil temos uma lei para coibir a violência contra a mulher (Lei n. 11.340) , particularmente no âmbito doméstico : a Lei Maria da Penha. O nome desta lei é uma homenagem à biofarmacêutica Maria da Penha Maia, vítima de inúmeras agressões pelo marido Marco Antônio Herredia. Este, após duas tentativas de assassiná-la, deixou-a paraplégica. Marco Antônio só foi preso após 19 anos de julgamento, tendo passado apenas 2 anos em regime fechado…Parece-me ainda ser necessária a diferenciação como degrau para a isonomia; são ainda imprescindíveis as leis para que se internalize uma norma maior, ética de respeito e valorização do outro enquanto semelhante…
Vários atributos como ternura, desprendimento, amor incondicional, beleza, entre outros, são associados à figura feminina. Mas, prefiro falar destes atributos e ligá-los aos homens e não a um gênero. Prefiro falar de homens e mulheres ternos, desprendidos, que sabem amar incondicionalmente, que são belos de corpo e de mente. Prefiro falar de fraternidade, igualdade, de respeito e admiração recíprocos, de complementariedade…

Penso que na data de hoje deveriam todos – homens e mulheres – refletirem sobre os avanços em suas relações um para com o outro. Deveriam as mulheres se engajarem na luta por isonomia salarial, mas se perguntarem se estão felizes no trabalho. Deveriam os homens se perguntarem se têm demonstrado respeito para com suas companheiras que optaram pelo trabalho doméstico. Deveriam as mulheres se perguntarem se na luta por direitos iguais elas abririam mão de privilégios. Deveriam os homens se perguntarem se ao tratá-las como "iguais" não repetem seus padrões de disputa e competitividade que têm entre si. Deveriam as mulheres se perguntarem em quais situações abusam de sua fragilidade em proveito próprio. Deveriam os homens enxergarem a força que se esconde na fragilidade de suas mulheres. Deveriam as mulheres perguntarem aos homens e os homens às mulheres o porquê de se distanciarem, o porquê de não caminharem juntos… Deveriam ouvir as respostas…


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Leninha Barros é natural de Uberlândia, Minas Gerais,
graduada em Medicina Veterinária e Psicologia
pela Universidade Federal de Uberlândia
e colaboradora do Boca a Penas

quarta-feira, 4 de março de 2015

A Fábrica de Cubos




por Caetano Lagrasta

Era uma vez uma fábrica de cubos. Ensinava-se a construção de quadrados, com a chatice peculiar da forma reta, do ângulo reto que inverte o quadrado das distâncias, bem... vai daí que, na frente desta fábrica existia outra, dedicada à feitura de esferas, cujos diâmetros eram tão variados e a  alegria de uma esfera a girar era tão contagiante que as diferenças de criação e postura, diante da natureza e da vida, tornavam as duas fábricas inimigas. Como se não bastasse, os quadrados eram convencidos de possuir uma superioridade formal e conceptual, por estarem colados ao solo. Onde eram postos, ficavam; às vezes, permaneciam invertidos, de cabeça para baixo, mas não reclamavam, ocupavam com galhardia e ostentação o espaço do terreno, com a sua irritante e insípida quadradez; sentiam-se, isto é verdade, donos do solo, projetavam sombras e enalteciam-se mutuamente a felicidade e honra de assim terem nascido - quadrados!

As esferas eram belas e vivazes, deslocavam-se com a leveza e a graça de uma gaivota, espelhando-se no mar. Não projetavam sombras duradouras, o que as norteava era o espírito de renovação: não agasalhavam qualquer forma, eram lascivas, sensuais, na sua redondez de seios adolescentes.

De um lado, a austeridade fingida, o orgulho, a paranoia da mistificação; do outro lado da rua, a brejeirice e o descortino das largas vistas; sentia-se o bafejar de mudança, de movimento e vida.

A instabilidade comunal refletia-se no comportamento violento das ruas. Naquela, mais do que em outras, transparecia um constante antagonismo, uma guerra sempre latente, um desejo inconsciente de agressão e mágoa. No fundo, os quadrados sabiam, intimamente, que a sua forma era frágil e estava fadada ao desaparecimento. Negaceavam a si mesmos os conhecimentos de um determinismo trágico que os levaria ao esquecimento. As esferas, por sua vez, pulavam, naquela alegria passarinheira dos que aceitam as mutações e se entusiasmam, excessivamente, com vislumbrar o poder que se lhes estende aos pés, como armadilha.

No início, as batalhas - se é que assim podemos chamar os atritos geométricos - não passavam de encontrões, que produziam o ruído enervante de bonecos de boliche sendo derrubados; aos poucos, a situação foi se agravando, com nítida vantagem para as esferas, que causavam lesões profundas aos quadrados, não tanto formais (no sentido de físicas) como comportamentais (no sentido de espirituais). As esferas dominavam a rua. Os quadrados recolhiam-se ao ódio, espreitando a alegria, através das vidraças empoeiradas da fábrica. A vida e a expansão estavam cada vez mais próximas - os quadrados, acuados, sentiam o fim das trevas e do domínio. O poder da forma, que fora conservado durante séculos, esvaziava-se de conteúdo. A alegria estava no poder.

Eis que, por desgraça das esferas, descobre-se o princípio de captação da reta e seria muito difícil explicar os fundamentos científicos de tal descoberta. Apenas podemos dizer que as esferas foram esmagadas pelo despreparo formal da leveza conceptual e consequente.  A destruição não foi unicamente física - empastelamento da fábrica circular - houve também a desintegração de corpos geométricos, num desencadear de imbecilidades. Esfacelou-se o equilíbrio, a rua recaiu rapidamente na escuridão, na sobriedade e vetustez da hipocrisia dos poderosos. Os quadrados tomaram posse do solo, com suas nádegas chatas e viciosas, projetando sombras que provocaram o desaparecimento de qualquer forma de vida, que não a quadrada, animada exclusivamente pela mediocridade.

A fábrica circular foi transferida, pelo poder comunal, para um desvão burocrático, para um beco sem saída, na periferia, no ostracismo, porque a alegria é o que se esquece mais depressa e as feridas mal cicatrizadas foram reabertas pela humilhação.

Ouvem-se gritos anêmicos e passageiros. Floresce a quadratura, conseguem provar novamente que a Terra é o centro do Universo. A Terra é redonda! - tentam gritar alguns. Não! é quadrada! - é um centro quadrilátero, voltado para o infinito da própria sabedoria dos quadrados. A terra é um espelho que, dos quatro lados (aparentes), expulsa brilho e movimento: somos fixos e sem luz!

Não sei, esta estória me faz lembrar uma ideia antiga de meu avô, ele dizia: no fundo, todos nós somos marginais. É isso. Por que as esferas não reagiram, deixando-se levar pela ilusão, primeiro do poder depois do perdão? Por que a alegria, diante do efêmero?

Esta é a base da prova pelo absurdo dos teoremas, quaisquer que sejam. Não sei... é melhor repetirmos todos juntos: “A Terra é fixa.” “A Terra é o centro do Universo.”.

E deu a aula por encerrada.


* Conto extraído do livro "1968 e Outras Estórias", ed. Le Calmon, Brasília,  2013

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Caetano Lagrasta é  Consultor Jurídico e Jornalista. 
Autor  de livros de contos, poemas e poemas infantís. 
Articulista do Projeto Tempestade Urbana 
e colaborador do Boca a Penas

terça-feira, 3 de março de 2015

A VOLTA AO MUNDO, um livro de Anselmo Vasconcellos




Dia desses recebi um presentão pelo correio: um livro que, ao contrário de qualquer biografia que se lê por aí sobre este excepcional ator, diretor, professor e escritor, há nele várias revelações sobre suas experiências vividas.

Uma viagem da qual me sinto honrada de ter ´participado´. Um mundo à sua volta confrontado pelo interior. Memórias e pensamentos regados a anseios, espantos, desafios, risos, reflexões e letras de música.

"A volta ao mundo - uma pista para o futuro" de Anselmo Vasconcellos, é um livro para não esquecer.

Leiam mais sobre a viagem nesta excelente resenha pelo escritor Caetano Lagrasta:




Eu li, viajei, adorei e recomendo!

Chris Herrmann

Sete Mil Alegrias!!


segunda-feira, 2 de março de 2015

Seria tudo diferente?


por Rita Ribeiro

Quem nunca ficou se questionando como teria sido sua vida, se tivesse aceitado um convite que não aceitou ou virasse aquela rua que não virou; ou não participou daquela festa em que todos foram, mas não foi; ou, ainda, não passou na rua em que ficou de passar; não caminhou logo cedo, como ficou de caminhar? Será que algum acontecimento nessas escolhas que não fizemos, mudaria algo muito importante em nossa vida?

Será que ela poderia ser toda diferente, para o bem ou para o mal? Se eu aceitasse o convite, poderia conhecer alguém interessante? Se eu virasse aquela rua, teria descoberto outros caminhos? Se eu fosse àquela festa, algo novo poderia acontecer? E se eu caminhasse logo cedo, meu dia teria sido muito diferente? Seria tudo melhor? Ou pior? Ufa! 

E se eu tivesse ficado solteira e não tivesse filhos; e se eu tivesse filhos, mesmo sendo solteira; e se eu tivesse escolhido outra profissão; ou um namorado diferente; ou tido outros amigos; saísse para outros lugares; ou me mudado para outro país? O que seria? E se eu fosse diferente? É... Nunca saberíamos. 

Quantas hipóteses e quantas probabilidades estão nos caminhos por que percorremos durante toda nossa vida! Mas, nossas escolhas são sempre individuais, pensadas e repensadas, apesar de existirem aquelas resultantes de mudanças de acontecimentos inesperados, não pretendidos. 
Por isso, lembrei-me de uma comédia romântica - até meio desconhecida - a que assisti há tempos, chamada “De caso com o acaso”, protagonizada pela atriz Gwyneth Paltrow, que vive Helen, uma jovem relações públicas que é demitida. Ao voltar para casa conformada com a notícia, dirige-se ao metrô, corre, mas a porta se fecha. Daí em diante, sua vida é mostrada em uma espécie de realidade paralela. A Helen que fica ali no metrô, e a que consegue passar por aquela porta. 

E vamos vendo que, ao pegar o metrô, ela chega mais cedo em casa e flagra seu namorado em uma traição. Consequentemente, rompe o relacionamento. No entanto, tudo isso faz com que Hellen consiga transformar sua vida pessoal e profissional, e ainda encontrar um novo amor. 
Já aquela que não consegue entrar no trem, não chega a flagrar a traição de seu namorado e continua seu relacionamento; não consegue um emprego como o que tinha; e vai se virando em empregos bem mais difíceis, e começando a suspeitar de uma possível traição do namorado. 

Mas, apesar de vidas tão diferentes, o fato de Helen continuar lutando e crescendo é o que existe em comum entre ambas. 

Seria assim nossa vida? Cheia de acasos que, como numa teoria do caos, um simples acontecimento geraria efeitos tão inesperados e surpreendentes? 

Citei o filme para ilustrar melhor essa nossa tendência de achar que tudo em nossa vida "teria de ser assim mesmo" resultado de uma espécie de destino. 

Fazemos escolhas e modificamos nossa vida a todo instante. Podem ser pequenas e inesperadas ou grandes e planejadas mudanças. Porém, quaisquer que sejam essas mudanças, elas existem porque estamos vivos, experimentando, crescendo lenta ou mais rapidamente, porque não temos controle sobre os acontecimentos da vida, o que pode torná-la difícil ou interessante, assim, como as vidas de Helen. 

E mesmo que criemos percursos diferentes e mais difíceis, o fato de sermos únicos em essência, nos dá a certeza de que chegaremos onde quisermos, e talvez nem saibamos onde. E será que isso é assim, tão importante? 

Perder o metrô, o emprego ou o namorado (ou os três ao mesmo tempo!) é triste, claro. Mas, também é uma forma de enxergarmos a vida por outros pontos de vista. 

E viver sem tantos medos e questionamentos. A vida é o que é.


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Rita Ribeiro é professora, revisora de textos e mantém o blog


http://pensamentomeleve.blogspot.com