segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

REMEMBRANÇA



por Maria Balé


A cada tanto o ritual se repete. Cuidadosa e coreográfica, ela abre a velha caixa de chapelaria francesa. Sem pressa.

Intocada, quase sagrada. Do abrigo sai para ser lavada, passada e borrifada com água de lavanda. Ao abrigo retorna, antes de qualquer ameaça. Já não é a mesma. As cores pálidas no tecido em tramas frágeis trazem as marcas de longa jornada. Quantos lençóis a ela haviam se juntado?

Lentos mergulhos em água e espuma azulada. Sopro de vento calculado. Ainda úmida, ali jaz, estendida na fina tábua de passar roupa. A golpes de calor, o brilho da seda quente ludibria os sulcos e as ranhuras da sua história tantas vezes evocada.

As flores de cetim, as rendas delicadas e as medidas do corte enviesado já não pertencem aos contornos dilatados cuja pele a eles não mais se ajusta. A lágrima equilibrista, enfim, se liberta das pálpebras e altera a paisagem do olhar estiado. Seu rosto, em volátil suavidade, curva-se em reverência àquela camisola.

Na pulsação da hora, um longínquo aroma de flor de laranjeira. E na velha caixa de chapelaria francesa repousam promessas costuradas nas nervuras do lamê.

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Maria Balé é  pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC de São Paulo, 
fotógrafa, produtora de textos e escritora de contos.

2 comentários:

  1. Cada linha uma agradável surpresa, querida Maria Balé... "Cuidadosa e coreográfica, ela abre a velha caixa de chapelaria francesa. " Parabéns pelo belo conto e obrigada por enriquecer o BAP! Beijos.

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  2. Ah, um conto que arranca a gente do nosso dia tão complicado e nos convida a mergulhar em um sonho de passado que poderá ser de qualquer uma, um dia... lindo!!!!

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