sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

CALLE BALCARCE





por Vera Molina


Un café con crema, por favor. Consigo imitar a fala deles para o garçom. Mesas sob as árvores que separam as cafeterias, toalhas, guardanapos de pano, a água gelada que acompanha o café, em copo de cristal. Discretos vestidos de verão em tons pastéis, cabelos brilhosos, perfumes suaves.


Nem vestígio de carnaval em pleno mês de fevereiro. Eu não sou uma foliã, mas em Florianópolis sempre tivemos bailes animados, muito porre, muita gente de fora. Otávio não quis esperar uma semana, tinha de mostrar interesse pelo trabalho, não era qualquer um que conseguia um cargo na embaixada sem ter passado pelo Itamaraty. (Quem conseguiu foi o meu pai, digo aqui com os meus botões). Faz três dias que chegamos e só hoje reagi: se tenho de ficar alguns anos, vou ao menos retomar minhas caminhadas. Parques não faltam em Palermo, mas creio que estou em , outro bairro. Caminhei quilômetros.

As falas másculas dos homens, ao mesmo tempo suaves. Riem alto. E essa tristeza que não passa? “Por favor vai embora, é minh’alma que chora, está perto o meu fim, fez do meu coração a sua moradia, já é demais o meu penar...” Como um povo pode viver sem carnaval? Eu mesma não participava da festa há pelo menos dez anos, mas havia as escolas de samba na TV, os vizinhos se preparando para os clubes, sei lá, tinha carnaval.

La silla está ocupada, chica? Um homem jovem, uns trinta anos, cabelos longos, preso num rabo de cavalo, me olha, sorriso nos lábios e nos olhos, espera uma resposta. Si, no, no sé, no, no está. Chica, pelo menos aqui me chamam de chica, tento me consolar. Não é qualquer mulher de trinta e nove anos que passa por chica.

O café chega. Entorno o creme, vou me encher de calorias, afinal, não conheço ninguém nesta terra. Me fascina aquela espécie de espuma em que se transformou o líquido escuro, mas não posso continuar brincando, me sinto observada. Não quero olhar para o rapaz, ele pode pensar que sou jovem e depois se decepcionar, ou pensar que sou rica e vou pagar bons programas, ou que costumo ter namorados que encontro na rua, ou... Si pué? É ele aqui e eu não tenho coragem de levantar os olhos, está sentado e eu não quero ... que vá embora. Vou dizer que não falo a língua dele e estou de saída, mas minha própria língua se enrola e eu não digo nada. Eu não necessito ficar nervosa, ou algo assim, ele só quer conversar um pouco, tenho os ojos tão tristes. Se eu quiser, ele vai embora, pegando o jornal e colocando-o sob o braço forte, mas não muito musculoso. Digo que fique, mas que eu nunca fiz isso antes. Sou casada há quinze anos e não costumo sentar em cafés com rapazes. Não sou chica, tenho quase quarenta anos, sempre vivi em Florianópolis, capital de um estado do Sul do Brasil, não falo espanhol, só entendo um pouco. Odeio aquele rapaz que me expõe a olhares indiscretos, sinto vontade de chorar, mas é de raiva. Ele traz a mão até o meu rosto: no, no necesita llorar, si quieres me voy. Não, não quero que vá e ele entende. Deixo o dinheiro do café sobre a mesa, atendendo ao convite dele: vamos a caminhar.

Andamos sob árvores enormes na direção de um cemitério. Nunca tinha passeado num lugar assim. Uma jovem desenha tendo por modelo um anjo de alabastro, um homem, sentado sobre um túmulo, escreve num quando criança, depois a mãe foi embora (ah, era por isso que se interessava por mim?), o pai ficou com dois filhos e decaiu não terminara o curso porque trabalhava para se manter e pagar os estudos. Eu não queria conhecer o território dele?

Tomamos um coletivo numa avenida do bairro Recoleta. Tentei convencê-lo a irmos de táxi. No necesita, me convenceu, um sorriso largo me fazendo sentir ingênua e mimada pela sugestão.

No trajeto, ele perguntou muito sobre mim, e eu, no momento, achei importante falar da minha vida. Estudei francês e inglês, mas não falava uma palavra; fiz curso de piano, mas só tocava Parabéns a você e Für Elize. E ele ria, ria, como se eu estivesse fazendo piadas muito inteligentes. Depois ficou sério, íamos ter de caminhar mais um pouco depois de descer do ônibus. Por mim estava ótimo. Entramos numa rua tortuosa, calle Balcarce. Caminhamos até o quatrocentos e pouco, entramos numa casa antiga de dois pisos. Ele me apresentou a moças e rapazes: una amiga brasileña. Subimos a escadaria. Um salão decorado em dourados e veludos. Um tango irrompeu e o meu amigo subiu ao palco com uma das moças. Três pares florearam o Caminito.

Ele desceu do palco e caminhou ao meu encontro. O ensaio duraria uma hora, eu queria esperar? Olhei aquelas três moças de cintura fina e pernas bonitas. Não, quem sabe outro dia? Alguém chamou: te esperamos, Eduardo. Me pediu para anotar la direción. Balcarce, quatrociento y pico, que eu não esquecesse dele.

Desço ruas estreitas até chegar a uma avenida: Paseo Colón. Chamo um taxi: Palermo, e mostro meu endereço escrito na agenda. Passamos pela Faculdade de Engenharia e o meu coração acelera, outros prédios públicos, costeamos o rio e depois nos perdemos em ruas e avenidas. Ele não quis me ofender, eu é que sou paranoica. Mas não podia esperar, tinha de voltar para casa.

Otávio pode voltar cedo e vai me encontrar perturbada. Ele disse que iríamos ao território dele, teve paciência comigo, me escutou. Eu devia ter me mostrado menos ansiosa. Fingir que nada era novo para mim. Ainda bem que não voltarei a encontra-lo. Assim tudo volta ao normal.

O apartamento escuro, abro as janelas. Pratos, xícaras, talheres empilhados sobre a mesa de jantar, almofadas pelo chão, roupas sobre o sofá. Preciso dar um jeito nisso. A chuva começa a cair forte como um tango, penso, enquanto fecho as vidraças. As árvores brilham, pessoas correm, automóveis buzinam.

Uma garoa fina acaricia os vidros enquanto eu encho os armários e roupeiros. As almofadas sobre os estofados, os vasos e cinzeiros sobre a mesa de centro. Um cansaço aliviado ao ver tudo nos lugares.

O barulho do elevador, passos no corredor, está na hora de Otávio voltar? Ele entra elogiando a arrumação do apartamento. Falo do meu cansaço. Ele bate os olhos no meu Como água para chocolate sobre o sofá: tu não acabas nunca de ler esse livro? Eu encontrei esse livro hoje. Talvez leia de novo. Ele espera que eu queira jantar fora, está morto de fome. Olho para a rua: as luzes acesas, nem senti a tarde passar.

O parque coberto de folhas amarelas. Um vento frio. Blusões, jaquetas, casacos de lã. Otávio só voltará de noite. E se eu for a San Telmo? Passo na Balcarce, não preciso chegar no endereço, almoço por perto e já estou me dirigindo para lá no mesmo ônibus que tomei com Eduardo.

Me olho na vitrine de um bar, as roupas de inverno deixam a mulher mais elegante. Fico em dúvida se devo deixar o cabelo preso em coque. Estás divina, uma voz alegre e uma carícia no meu braço. Me volto, é Eduardo. Desta vez não vou embora, temos todo o dia, esses três meses em Buenos Aires me fizeram bem, onde estive? Já gosto daqui?

O mozo traz as xícaras, o prato com biscoitos, o açucareiro e dois bules. Aqueço as mãos no vapor do café e Eduardo elogia a luz que vem dos meus olhos, do meu sorriso. Foi o primeiro fósforo que se acendeu, respondo. O quê? O calor e o garçom de aspecto indiático me trazem o trecho que Otávio sublinhou no Como água para chocolate e lemos tanto que sei de cor. Eduardo não leu nem viu o filme.

Luz do Amanhecer, uma índia Kikapoo, avó de um médico que amava a personagem principal, contava para o neto que todos nascem com uma caixa de fósforos dentro de si. Não podemos acendê-la sozinhos. Precisamos de oxigênio e da ajuda de uma vela. O oxigênio vem do hálito da pessoa amada, a luz da vela pode ser qualquer coisa que dispare o detonador e acenda um dos fósforos. Eduardo prende a minha mão esquerda entre as mãos dele. Continuo mais confiante, não quero esquecer nem um pedaço: cada pessoa tem que descobrir quais são seus detonadores para poder viver, porque é a chama do fósforo que nutre a alma de energia. Eduardo acaricia o meu rosto e me abraça. Se não há detonador, prossigo, a caixa umedece e jamais poderemos acender nem um deles. Há muitas maneiras de secar uma caixa úmida. Pode ter certeza de que tem remédio. Ele aproxima os lábios dos meus, afasto o rosto e gesticulo com o dedo como se o repreendesse: é importante acender os fósforos um por um porque, se por uma intensa emoção, acender todos de uma vez, o esplendor será tão forte que aparecerá diante de nossos olhos um túnel mostrando o caminho que esquecemos ao nascer e nos chamará de volta à nossa perdida origem divina.

O sol toca meu rosto e Eduardo afasta o dele para me observar melhor, apanha a conta e deixa o dinheiro sobre a mesa. Caminhamos para o apartamento dele. Um prédio bege, escurecido, sacadas esculpidas, arrematadas por parapeitos de bronze. As persianas das janelas de madeira, a porta de ferro. Estamos próximos à praça Dorrego, diz Eduardo. Olho para ele sem nada entender, enquanto ele fecha a porta e caminhamos pelo hall. Nunca ouvi falar da feira de antiguidades de San Telmo? Pois é ali. O elevador chega fazendo muito barulho, ele abre a porta de ferro. No terceiro andar paramos. A irmã trabalha para uma agência de turismo, hoje passa o dia dentro de um ônibus mostrando a cidade para os estrangeiros; o pai passa as tardes nos cafés, ele nem sabe onde o velho se mete.

O living é amplo, os móveis sólidos e escuros, os estofados de couro, rasgados. Um quarto fechado, uma cama de casal, não pergunto de quem é. Ele fecha a porta a chave e eu me sinto mais calma, mas não soltei a bolsa e ele começa a rir porque estou na pontinha da cama como se fosse dar um impulso e sair correndo. Rimos, juntos, eu, mais de nervosa. Ele apanha a bolsa e a coloca numa poltrona, desabotoa o meu casacão e eu começo a desabotoar a jaqueta dele, invadida por um perfume que comprime a minha garganta como se eu estivesse prestes a chorar. O torso forte e jovem. Solto os cabelos dele. Você é bonito demais, Eduardo, e olho para os meus seios murchos. Ele entende e começa a lamber os mamilos e tenho a sensação de que os meus seios estão recebendo a energia do fogo que se acendeu lá bem dentro de mim e tudo o que ele faz é lento e delicado e eu sinto vergonha de não ter a calma dele e ele passa as mãos nas minhas coxas, no meu ventre trêmulo e eu peço que ele venha bem perto e fico tão leve e penso que essa sensação deve ser parecida com a morte, mas não sinto medo, ao contrário, ele tem o sexo tão rijo que eu morro de novo muitas vezes com aquele homem entre as minhas pernas até ele me encharcar com o líquido brilhante. Nos afastamos para respirar e os nossos corpos estão nacarados. Continuamos nos beijando, enquanto o céu vai se tornando vermelho. É tarde, falo dentro da boca dele, tenho que ir, é longe. Ele vai me deixar lá perto, é quase noite. Peço que não. Não quero quebrar o encanto da despedida. Sim, eu volto. É só dizer quando.

Você está mais bonita, Lívia, e Otávio me olha de um jeito estranho. Eu tenho uma expressão nova no olhar, como se estivesse mais jovem. Ele não devia me deixar tanto tempo sozinha num lugar estranho. Por que não passávamos um fim de semana em Mendoza? Verdade mesmo, estou diferente, até o corpo: os seios estão maiores, mais firmes. Quero ir a Mendoza ou não? Quero sim. E sinto uma espécie de fisgada nas mamas, como se estivessem inchando. Há quanto tempo não vou ao ginecologista? Anos. Por que essa preocupação agora? Desistimos há muito de ter filhos, nunca fizemos um tratamento, só verificamos que não precisávamos de anticoncepcionais. Prometo que trato disso esta semana e vou para a frente do espelho. Há uma chama em meu olhar, meu corpo está mais bonito, mas não quero que a caixa de fósforos se acenda inteira.

Olho pela janela. Pouco movimento, as pessoas encasacadas correm para dentro de táxis, de ônibus. Todo o apartamento aquecido pela calefação, vou para a cozinha preparar um chocolate quente, fazer planos. Amanhã faremos compras para o enxoval do bebê. Eduardo terá de ficar longe de nós. Daqui a algum tempo, poderemos voltar para o Brasil. Talvez eu ainda leve amigos brasileiros a Calle Balcarce, sentindo apenas uma saudade calma. Por enquanto ficarei longe, se ouvir alguém dizer no necesita, talvez eu tenha dúvidas da minha decisão.


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VERA MOLINA é graduada em Letras e pós-graduada em Teoria da Literatura pela PUC-RS. 
Autora de livros infanto-juvenis, novelas e contos, integra várias 
antologias de conto e poesia, inclusive como organizadora. 

3 comentários:

  1. "... meu corpo está mais bonito, mas não quero que a caixa de fósforos se acenda inteira" ... cautela: a felicidade está assim disposta ao alcance de um único pedido; resta se saber pronta para a renúncia ou para o recomeço. Lindo, Vera! Um presente para o BAP!

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  2. Muito obrigada, Adriana, grande poeta, fico feliz

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  3. Impressionante o toque suave que você dá aos detalhes em seus contos, Vera. Parabéns pelo talento! Destaco um dos trechos que me encantou:
    "Uma garoa fina acaricia os vidros enquanto eu encho os armários e roupeiros. As almofadas sobre os estofados, os vasos e cinzeiros sobre a mesa de centro. Um cansaço aliviado ao ver tudo nos lugares."
    Nós do BAP temos muita sorte em tê-la em nosso time de prosadores.
    Obrigada!

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