sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A HORA E A VEZ DO MEDÍOCRE




por Pedro Lyra

Trecho de abertura do primeiro capítulo (“A lógica do mercado cultural”) do livro A tevê e o fim da era do amor – A banalização do sexo no cotidiano e no mercado cultural. A sair.
Publicado na revista Tempo Brasileiro nº 189/190. Rio de Janeiro, abr.-set. 2012. p.323-369. Revisto. 


Em face da ascensão de produtos culturais menos exigentes como o filme, a música popular e a telenovela – todos ao alcance de analfabetos – chegou-se ao ponto de afirmar que vivemos hoje “uma época medíocre”.
Muito ao contrário: vivemos a época mais complexa da história, interdependente e interconectada, em que todas as realizações e conquistas (e problemas) das gerações anteriores se acumularam – como sempre, e sempre em quantidades maiores. Se constatamos uma evidente quebra de valores, tanto no campo da estética quanto no da ética, constatamos também a introdução de outros e um evidente e acelerado progresso científico/tecnológico.
O que motivou aquela afirmação do início foi este fato novo: trata-se de uma época em que, no campo da cultura, o medíocre adquiriu as condições e os meios de triunfar. Entre nós, Nelson Rodrigues foi o primeiro a constatar o fenômeno, com sua furiosa lucidez. Numa frase célebre, que se pode citar de memória, ele afirmou, já nos anos 60: “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.
Não foi na Antiguidade grega, nem no Renascimento, nem no século XVIII, mas sim na nossa época que surgiu uma forma teatral de “sucesso” que não hesitou em se auto-denominar de besteirol; nem um cinema que não se envergonha de ser considerado como pornochanchada; nem uma música que chega a se vangloriar de ser brega. Vendem bem! É uma típica salada (a)estética do nosso tempo: besteirol, pornochanchada, breguice – no teatro, no cinema, na tevê, na música, artes e veículos de grande penetração e repercussão popular, o que talvez baste para “justificar” a indigência cultural do pós-moderno. Referindo-se ao circo, o cartunista Miguel Paiva (O Globo. Rio, 12.11.2006) resumiu tudo numa frase, que pode no entanto estender-se a todas essas artes: “Quanto mais fuleiro, mais legal”. Antes da era da cultura de massa, pensador era Platão, Hegel, Nietzsche e alguns outros. Hoje, qualquer um pode se autonomear “pensador”. A mídia associada repercute. A massa, claro, acaba introjetando.
É que, em conseqüência da diversificação, do desenvolvimento e da universalização da mídia, formou-se um vasto público de pessoas comuns – um público anônimo, amorfo e mundial, instantaneamente atingível por um botão ou uma tecla, um microfone ou uma câmera. Televisão, cinema, rádio (e, em certas condições, a Internet) explorando preferencialmente a narrativa trivial e a música melosa ou dançante – duas artes preponderantemente emotivas – se nivelaram à massa por interesses e razões comerciais. A sua platéia não faz maiores exigências e até pode ser analfabeta: basta que seja sensível – o que toda pessoa normal é. A indústria cultural não apenas não pode desprezar um auditório tão vasto como o elegeu por seu alvo preferencial, pois sobrevive mesmo é dele: sem ele, não haveria patrocinador, que apenas “transfere” à mídia parte do que ela o ajuda a arrecadar dentre esse público, como numa autêntica “meação”. Não tendo condições culturais de questioná-la, esses inocentes aceitam como “boa” a programação que lhes é não oferecida, mas imposta.
Tanto quanto na cultura de massa, o medíocre adquiriu as condições de triunfar até na política, pela possibilidade de exploração da mídia. Com uma exibição simpática, qualquer candidato pode ser eleito, isto é: conquistar o voto do eleitor ingênuo, como neste emblemático caso, acontecido em Natal. Um anão se elegeu vereador com este slogan-apelo: “Vote em mim! Dos males, o menor”.
Estamos longe, muitíssimo longe de Horácio a condenar os “medianos”.

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Pedro Lyra é poeta, crítico, ensaísta, antologista de poesia
e professor de poética na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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