sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Projetando/se/r


por Ana Sandra

O mundo que a vida me deu, às vezes, é grande demais e assusta. E colocar o pé no ponto primeiro, gera inquietação. É um pequeno grande espaço que ocupa tão pouco do meu corpo. Tenho medo do que ele possa me aprontar, pois, não percebo, nem sinto seu ataque.

Hoje talvez eu esteja melhor que ontem. Amanhã pretendo estar melhor que hoje. Quero todos os dias sonhar e posso. Quero saber como e porque dói. Mas, não sei. Aí, vem uma mistura de solidão com ocupação. Muita coisa. O passado vem à tona. Bem na superfície. Quase posso tocá-lo. Se fecho os olhos, vejo melhor.

A busca é árdua. A batalha é estafante. Às vezes, as nuvens cobrem o céu. Desnudam a beleza. Mesmo assim, posso pensar em amanhã. Desejar melhores hojes. Tem qualquer coisa de paz rondando o ambiente. Qualquer coisa. Mesmo quando as pedras das pedreiras roem o nosso sangue.

Está tudo ficando claro. A enorme busca é pelo amor. É a descoberta do inevitável. Toda euforia. Creio na sua existência. Mas, quando em vez, assusta num repente. E eu me aconchego no canto da vida. E é interessante a batalha do sol para mostrar a cara.

Existem infinitos projetos na cabeça. E todos se resumem num só: ser feliz. Hoje a vida é outra. Mas os lugares estão guardados e fechados no coração. As minhas posições estou cogitando e de todas as formas, eu tiro as minhas conclusões e me deleito.

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Ana Sandra é Jornalista, com várias crônicas publicadas 
nos jornais do estado e membro do Sindicato 
dos Escritores do estado de Alagoas.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Graffiti na Av 23 de maio — o maior da América Latina

    
por Ricardo Tatoo 

“Enquanto houver gente, haverá cidades. Enquanto houver cidades, haverá muros. “O povo escreve a história nas paredes.” Esse trecho de poema é também o título do primeiro livro de Mario Lago, escrito em 1948, O Povo Escreve História nas Paredes. Ator de novelas, compositor de marchinhas de Carnaval (Amélia que era uma mulher de verdade...), Mario Lago traduz a realidade das cidades, onde, desde os tempos antigos, os romanos já deixavam recados nos muros com os mais variados temas — algo como um mural de mensagens.

E o que o muro da Av. 23 de Maio tem a ver com o poema de Mário Lago? A partir deste trecho do livro entendo mais a cumplicidade e combinação que o graffiti e a arte urbana compõem com a cidade, ainda mais em São Paulo, megalópole e berço do graffiti no Brasil.

Se acatarmos a ideia de que “enquanto houver muros algum tipo de mensagem será escrita em alguma parede, inevitavelmente”, isso facilita a compreensão de que o muro é um suporte que nos acompanha em toda a cidade, quase como uma sombra. Vale, sim, a arte urbana interagindo com a cidade. Mais cor no cinza dos concretos, por favor!

Arte de Ricardo Tatoo na Av 23 de maio SP


Sou grafiteiro desde o final dos anos 80, e boa parte do amor pela arte urbana vem de grafitar em Sampa. Neste tanto de concreto, há uma poesia. Resta saber como decodificá-la.

Não é de hoje que a cidade e seus representantes flertam com a arte urbana, dos artistas de rua que cantam, dançam, fazem mágicas, malabares, tocam e brincam com a cidade, sempre em movimento. Algo circense de se apresentar a todos, expor-se e interagir com a cidade. VAI além das quatro paredes das galerias e salas fechadas.

Normalmente temos dois pontos de referência na cidade: o ponto de partida e o ponto de chegada — origem e destino. E o que fazer nesse vácuo chamado rua? Nesse vazio entre os dois pontos? Se pararmos para pensar, perdemos um tempão no transitar das ruas, no qual nada importa senão o ponto de chegada. No final do dia, contabilizamos horas de permanência nesse vácuo, vazio que não faz sentido por tanto tempo de nossos dias. Cabe à arte minimizar esse vácuo urbano.

2015 começou mais colorido para cidade. Aos apaixonados pela arte de rua, graffitis & CIA, o presente de ter a Av. 23 de Maio com mais de 70 muros e 15 mil metros quadrados de arte colorindo o cinza é como ter um álbum de figurinhas gigante! A realidade virtual fez dos graffitis uma mania em que clicar e compartilhar arte de rua pode ser o formato moderno de colecionar figuras e apreciar arte.

Mais de 400 grafiteiros — muitos grandes representantes do movimento atual em São Paulo e no exterior, outros mais influentes na periferia e, ainda, outros tantos amantes e viventes da arte — compuseram um painel, referência como o maior da América Latina.

Falei de Mário Lago e agora relembro o grande Velho Guerreiro Chacrinha, que disse: “vim ao mundo para confundir, e não explicar”. A arte de rua é controversa, polêmica, decorativa e audaciosa. Tudo ao mesmo tempo. Muito natural que não agrade a todos, mas ao expressar os mais variados estilos de arte urbana, como o graffiti, o graffiti com stencil, os cartazes lambe-lambe, o rolinho e  a tinta látex, os polêmicos bombs e tags (assinaturas) etc... ao se apropriar do espaço urbano e colorir o cinza frio da cidade, faz-se um caminho VERDADEIRO, que em São Paulo existe desde os anos 70, com os mestres Alex Vallauri e Maurício Villaça, Ozi, Rui Amaral, John Howard, Celso Gitahy e mais uns seis artistas de vanguarda — os precursores da arte urbana no Brasil.

Vale, sim, a polêmica. Vale, sim, suprimir o cinza com cores. Vale a reflexão de qual é o papel da arte na vida de todos e na saúde da cidade.Confundir ao invés de explicar pode criar novas reflexões. Uma nova visão e respeito com o meio em comum. Costumamos apreciar o belo mais do que o cinza.

Quem gosta de graffiti tem outra visão da cidade. Acostumado a apreciar as artes dos muros, encontra no tédio do caos urbano mensagens, códigos, estilos e cores incríveis em lugares degradados, que nos perseguem quando estamos presos no trânsito, esperando o ônibus e no tal vácuo entre os dois pontos.

A partir do momento em que reconhecemos um ou outro artista por suas obras, faz-se um mapeamento das artes, e o que é um grande tédio se torna menos árduo ao buscar as artes nos muros, ultrapassando o limite da monocromia urbana.

Tudo que é novo causa estranhamento. Vale a nós, moradores da Vila Mariana e região, experimentarmos o impacto da arte urbana e darmos uma chance aos nossos olhos.

Experimentar e compartilhar, com filhos, sobrinhos e amigos, um jogo sobre o qual graffiti agrada mais é um exercício criativo. A arte de rua é para todos, e todos fazem parte dela.

Enquanto existir seres humanos haverá cidades e seus muros, que esses sejam grandes painéis de uma grande galeria a céu aberto, sim!

Por uma cidade mais colorida, mais limpa e criativa!

*** o texto foi publicado originalmente no jornal da Vila Mariana, Pedaço da Vila.

http://www.pedacodavila.com.br/materia/?matID=1906


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Ricardo Tatoo é arte educador, diretor de arte,
artista urbano. Assina uma coluna sobre arte urbana 
no jornal Pedaço da Vila e é colaborador do BAP.

*** FESTIVAL DE VÍDEO BAPoesia ***



Está aberto o festival de poesia em vídeo de Boca a Penas!
De hoje, 20 de fevereiro a 22 de março de 2015 assistiremos aqui a poesia com olhos de cinema! Emoticon smile
Participe enviando links de poemas de sua autoria, de sua interpretação, edição ou de amigos poetas.
Os vídeos deverão celebrar a poesia, seja ela em forma de gravações de voz, filmagem, slides de poemas, montagem de fotos, com ou sem música de fundo.
Aceitaremos links de vídeos postados no facebook ou Youtube.
Envie suas sugestões de links por mensagem (inbox) do BAP.
Então vamos lá... Atenção... CÂMERA, POESIA e AÇÃO!!

As editoras.

Apuração 2015: Unidos do BAP



Chris Herrmann e Adriana Aneli abrem alas
colombinas em verso e prosa
pierrôs e arlequins respondem
Na ponta da língua as marchinhas
quem traz é Jorge Nagao
Caetano Lagrasta equilibra máscaras
ao som de Chiquinha Gonzaga
Rosa Ramos rodopia... é frevo! festa de miçangas
Virginia Finzetto lança confetes
a boca confessa e cai na festa
Albino Alves na ginga brasileira
Maria Goreti joga contas:
as dores os amores
Felicidade imprevisível, Maria Balé avisa,
mas dura só até quarta-feira!
Que até lá a morte espere, decreta Ivy Menon
depois, canta Lourença Lou, tudo
é quarentena e a inexorabilidade da vida
É a vez de Bentancur mergulhar na avenida:
desfilam mitos de um carnaval particular
e se o bloco é de Paulo
Paterniani é irreverência
Bp é alegria fugaz
Adriane Garcia é paixão de passista:
vale tanto e vale tudo: hoje é carnaval!
Que se cale toda a tristeza! decreta, Carmem Lúcia
Mas a dor é alegoria
que sempre chega no Porto:
que da horda, fujam os foliões, avisa Wander,
porque paixão acaba em sangue,
a máscara amor é a cor da véspera, alerta Líria
“Carnavalha” constata Tere Tavares
em sua visão sem cortes
navalha na carne diz Consuelo Rezende,
enquanto Ingrid Morandian costura os fatos:
vida esgarça aos remendados do peito
muito pano pra manga, comenta Joelma Bittencourt
Mas se erra a Colombina, Flavia D'Angelo bem sabe por quê...
quando duas almas se atraem, a pele sofre, explica Zuleica Oliveira
enquanto Leninha Barros aparta:
... só um rio que passou em nossa vida.
Apressa o desfile que o tempo corre!
Então vamos, Jô Diniz! antes
do encanto apagar
do desatino silenciar
vem, Cely de Ceci, sai da janela!
A música é melhor aqui fora, Alvaro Posselt!
Rita De Cássia já vem descendo o morro de babel
Tania Amares traz pra Lira, confetes e serpentinas
vamos todos
bailar sobre os telhados, Gustavo Adonias !
uma violinha, uma sambadinha,
Chris e Carlos Gurgel
Aneli e César Hobbyfotos
no reverso da folia
tomando um porre de estrelas com Jose Regi!
E por estas ruas insanas
seguimos Marcello Bastazini
e Carlos Magno Sena
papais noéis na fuzarca
sonhos livres de Bianca Velloso
bailarinas de Eliane Oliveira
rainhas ...
dourada de Marcelo Moro
ou leviana e triste do passado brasileiro, diz Neuza Ladeira
Seguimos Vera Molina, vestidos com plumas e paetês
Ilusão mascarada, Arlete Castro,
Só pra esquecer por um dia
das agruras da nossa guerra, Nil Kremer,
da lida e da féria, Ira Machado,
da tristeza tatuada na consciência da gente...
Deixando um pouco a tristeza pra lá
pergunto:
este samba deixa saudade, Janet I. Zimmermann?
Carnaval de vidas picadas
das mil cores de Cristina Arruda
Carnaboca a penas
no quesito amizade
tirou NOTA DEZ!

- adriana aneli

uma homenagem a todos aqueles que participaram e curtiram nosso BLOCO!!!!

 Emoticon heart
 
Emoticon heart 

Emoticon heart

E O BAP É SEIS!!!


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ALÉTHEIA

por Rita de Cássia Ramos

Um texto que produzi estabelecendo um diálogo com um conto de Guimarães Rosa, chamado "João Porém, o criador de perus". A história do literato trata, dentre outros temas, do amor platônico de um sertanejo por uma moça, chamada Alice, que foi inventada pela população local para ridicularizá-lo, a quem ele evidentemente jamais encontra, mas que passa a ser o móvel de sua existência.

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As tranças dos cabelos de Alice, no formato de um oito, cediam à entrada do vento na janela da torre. Seu perfil, àquela hora, lembrava uma rosa de infinitas pontas. A moça afastava com o pé, num gesto grácil, o Licorne, este animal que não desconfia que nem existe, o qual insistia em ficar no caminho da donzela e seu celular. Aliás, dele já haviam soado três tristes toques, enquanto ela, trêmula, temia, sobretudo, o calar desse chamamento. Os ponteiros dos relógios suspensos --- quem vive em seu refúgio vive bem? --- mostravam-lhe que o tempo sempre recomeça a correr. Nem precisava se vestir, porém... Porém seus olhos marejavam sob o negro delineio de um traço. Quem conhece a dimensão da dor de um ser de ficção? Quem, afinal, era ela: luz, sombra, talvez um borrão de qualquer cor? Reminiscências... E se ele, tendo-a a peito, não mais acreditasse na existência dela? Quando o som da campainha rompeu o silêncio e a sua espera, a urdida, acreditando-se real, levantou-se e abriu a porta. Ele chegara ali, além das cercanias...


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Rita de Cássia Ramos é Especialista em Ciências Humanas pelo CEU,
 mestre em Língua Portuguesa pela PUC-SP, Doutoranda em Literatura pela USP-
Psicanálise, em formação, pelo NPP-SP; Professora de Literatura

e análise de texto no Colégio e curso Objetivo

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A HORA E A VEZ DO MEDÍOCRE




por Pedro Lyra

Trecho de abertura do primeiro capítulo (“A lógica do mercado cultural”) do livro A tevê e o fim da era do amor – A banalização do sexo no cotidiano e no mercado cultural. A sair.
Publicado na revista Tempo Brasileiro nº 189/190. Rio de Janeiro, abr.-set. 2012. p.323-369. Revisto. 


Em face da ascensão de produtos culturais menos exigentes como o filme, a música popular e a telenovela – todos ao alcance de analfabetos – chegou-se ao ponto de afirmar que vivemos hoje “uma época medíocre”.
Muito ao contrário: vivemos a época mais complexa da história, interdependente e interconectada, em que todas as realizações e conquistas (e problemas) das gerações anteriores se acumularam – como sempre, e sempre em quantidades maiores. Se constatamos uma evidente quebra de valores, tanto no campo da estética quanto no da ética, constatamos também a introdução de outros e um evidente e acelerado progresso científico/tecnológico.
O que motivou aquela afirmação do início foi este fato novo: trata-se de uma época em que, no campo da cultura, o medíocre adquiriu as condições e os meios de triunfar. Entre nós, Nelson Rodrigues foi o primeiro a constatar o fenômeno, com sua furiosa lucidez. Numa frase célebre, que se pode citar de memória, ele afirmou, já nos anos 60: “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.
Não foi na Antiguidade grega, nem no Renascimento, nem no século XVIII, mas sim na nossa época que surgiu uma forma teatral de “sucesso” que não hesitou em se auto-denominar de besteirol; nem um cinema que não se envergonha de ser considerado como pornochanchada; nem uma música que chega a se vangloriar de ser brega. Vendem bem! É uma típica salada (a)estética do nosso tempo: besteirol, pornochanchada, breguice – no teatro, no cinema, na tevê, na música, artes e veículos de grande penetração e repercussão popular, o que talvez baste para “justificar” a indigência cultural do pós-moderno. Referindo-se ao circo, o cartunista Miguel Paiva (O Globo. Rio, 12.11.2006) resumiu tudo numa frase, que pode no entanto estender-se a todas essas artes: “Quanto mais fuleiro, mais legal”. Antes da era da cultura de massa, pensador era Platão, Hegel, Nietzsche e alguns outros. Hoje, qualquer um pode se autonomear “pensador”. A mídia associada repercute. A massa, claro, acaba introjetando.
É que, em conseqüência da diversificação, do desenvolvimento e da universalização da mídia, formou-se um vasto público de pessoas comuns – um público anônimo, amorfo e mundial, instantaneamente atingível por um botão ou uma tecla, um microfone ou uma câmera. Televisão, cinema, rádio (e, em certas condições, a Internet) explorando preferencialmente a narrativa trivial e a música melosa ou dançante – duas artes preponderantemente emotivas – se nivelaram à massa por interesses e razões comerciais. A sua platéia não faz maiores exigências e até pode ser analfabeta: basta que seja sensível – o que toda pessoa normal é. A indústria cultural não apenas não pode desprezar um auditório tão vasto como o elegeu por seu alvo preferencial, pois sobrevive mesmo é dele: sem ele, não haveria patrocinador, que apenas “transfere” à mídia parte do que ela o ajuda a arrecadar dentre esse público, como numa autêntica “meação”. Não tendo condições culturais de questioná-la, esses inocentes aceitam como “boa” a programação que lhes é não oferecida, mas imposta.
Tanto quanto na cultura de massa, o medíocre adquiriu as condições de triunfar até na política, pela possibilidade de exploração da mídia. Com uma exibição simpática, qualquer candidato pode ser eleito, isto é: conquistar o voto do eleitor ingênuo, como neste emblemático caso, acontecido em Natal. Um anão se elegeu vereador com este slogan-apelo: “Vote em mim! Dos males, o menor”.
Estamos longe, muitíssimo longe de Horácio a condenar os “medianos”.

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Pedro Lyra é poeta, crítico, ensaísta, antologista de poesia
e professor de poética na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

UM ÓBOLO PARA CARONTE



por Marcus Fabiano



venera a empáfia dos revolucionários e milita uma afoiteza frívola nos percalços do mais amargo. compensa o balouçar dos promontórios pelo escarpado odioso dos setores securitizados. face às lufadas oblíquas, estima o lamaçal das umidades relativas. avô dos draconianos, remorde a mesma cláusula entesourada em certa mira dada a varreduras por milimétricos escrutínios. de ar extremoso e carregado, camufla-se sob a eloquência dos bons exemplos. aparente rã tranquila em águas pantanosas. espia o céu em angulação telescópica. cultivou junquilhos, grimpou Troias. monos e batráquios ajustaram suas molas reforçando o estaqueamento de palafitas miraculosas. mas evadia-se da contação de histórias, da pecha grudenta das façanhas grandiloquentes. oscilava entre sutis intermitências. era um apanhador de mínimos detalhes. e os retinha até que se assimilassem a seus contrários. ou a aparentes disparates. suas moedas no Styx vinham sob línguas sem sintaxe. desconfiava de quem só o bem lhe desejasse. barqueiro bêbado na travessia do Hades. ribeirinho das margens móveis do quase.


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Marcus Fabiano Gonçalves nasceu no Rio Grande do Sul (Santana do Livramento, 1973). 
Radicado no Rio de Janeiro, é professor da Universidade Federal Fluminense. 
Em 2005 publicou O Resmundo  das Calavras (ws editor),
 obra finalista do Prêmio Jabuti.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

REMEMBRANÇA



por Maria Balé


A cada tanto o ritual se repete. Cuidadosa e coreográfica, ela abre a velha caixa de chapelaria francesa. Sem pressa.

Intocada, quase sagrada. Do abrigo sai para ser lavada, passada e borrifada com água de lavanda. Ao abrigo retorna, antes de qualquer ameaça. Já não é a mesma. As cores pálidas no tecido em tramas frágeis trazem as marcas de longa jornada. Quantos lençóis a ela haviam se juntado?

Lentos mergulhos em água e espuma azulada. Sopro de vento calculado. Ainda úmida, ali jaz, estendida na fina tábua de passar roupa. A golpes de calor, o brilho da seda quente ludibria os sulcos e as ranhuras da sua história tantas vezes evocada.

As flores de cetim, as rendas delicadas e as medidas do corte enviesado já não pertencem aos contornos dilatados cuja pele a eles não mais se ajusta. A lágrima equilibrista, enfim, se liberta das pálpebras e altera a paisagem do olhar estiado. Seu rosto, em volátil suavidade, curva-se em reverência àquela camisola.

Na pulsação da hora, um longínquo aroma de flor de laranjeira. E na velha caixa de chapelaria francesa repousam promessas costuradas nas nervuras do lamê.

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Maria Balé é  pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC de São Paulo, 
fotógrafa, produtora de textos e escritora de contos.

Se fosse apenas, por Rosa Ramos

Emocionante homenagem de Rosa Ramos ao BAP!!!
Obrigada, poeta, pela grande alegria!!!

Se fosse apenas

Se fosse apenas o vento
as folhas amarelas voando
soltas no ar de chumbo.
Se fosse apenas o pássaro
mudo, quedo, cinzento
a asa a bater no muro.
Se fosse apenas o homem
e sua sombra velando o sangue
mais denso agora no escuro.
Se fosse apenas um curvar-se
sem gemidos, sem lamentos
liberto de todo o jugo.
Se fosse apenas o tempo
relâmpago na superfície
do pensamento sem rumo.
Se fosse apenas o hálito
de alabastro das nuvens
soprando contra os túmulos.
Se apenas um só momento
bastasse ao túnel do esquecimento
mais fundo na noite insone.
Se apenas essa fome
de vida bastasse à vida
e esse anjo corcunda
Não nos curvasse a espinha
nem nos tombasse a fronte
à hora absoluta.
Se fosse apenas...

- Rosa Ramos


G.R.E.S. Unidos do BAP, por Jorge Nagao


O BAP está em festa! e que presente ganhou!!! Feliz aniversário, Jorge!!!!!

Samba Enredo - É Hoje
G.R.E.S UNIDOS DO BAP

A minha poesia encontrou o BAP
E se encantou muito com ELAS
Fez um desembarque fascinante
No maior show na estreia

Será que serei
bem-vindo nesta festa
Eu sei
Sou mais um entre os poetas

Eu vi a Adriana Aneli
Cheia de euforia para declamar
O mundo inteiro espera
Hoje é o dia da Chris postar

Levei o meu poema
Pra editora olhar
Depois de ter olhado
Meu ego quis decolar

Acredito muito nessa gente
Nessa luta do Bem contra o Mal
É hoje o dia da alegria
E a tristeza
Não vem aqui nem a pau

Diga espelho meu
Se há nesta vida
Alguém mais feliz que eu

Diga espelho meu
Se há nesta vida
Alguém mais feliz que eu

- Jorge Nagao

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

CALLE BALCARCE





por Vera Molina


Un café con crema, por favor. Consigo imitar a fala deles para o garçom. Mesas sob as árvores que separam as cafeterias, toalhas, guardanapos de pano, a água gelada que acompanha o café, em copo de cristal. Discretos vestidos de verão em tons pastéis, cabelos brilhosos, perfumes suaves.


Nem vestígio de carnaval em pleno mês de fevereiro. Eu não sou uma foliã, mas em Florianópolis sempre tivemos bailes animados, muito porre, muita gente de fora. Otávio não quis esperar uma semana, tinha de mostrar interesse pelo trabalho, não era qualquer um que conseguia um cargo na embaixada sem ter passado pelo Itamaraty. (Quem conseguiu foi o meu pai, digo aqui com os meus botões). Faz três dias que chegamos e só hoje reagi: se tenho de ficar alguns anos, vou ao menos retomar minhas caminhadas. Parques não faltam em Palermo, mas creio que estou em , outro bairro. Caminhei quilômetros.

As falas másculas dos homens, ao mesmo tempo suaves. Riem alto. E essa tristeza que não passa? “Por favor vai embora, é minh’alma que chora, está perto o meu fim, fez do meu coração a sua moradia, já é demais o meu penar...” Como um povo pode viver sem carnaval? Eu mesma não participava da festa há pelo menos dez anos, mas havia as escolas de samba na TV, os vizinhos se preparando para os clubes, sei lá, tinha carnaval.

La silla está ocupada, chica? Um homem jovem, uns trinta anos, cabelos longos, preso num rabo de cavalo, me olha, sorriso nos lábios e nos olhos, espera uma resposta. Si, no, no sé, no, no está. Chica, pelo menos aqui me chamam de chica, tento me consolar. Não é qualquer mulher de trinta e nove anos que passa por chica.

O café chega. Entorno o creme, vou me encher de calorias, afinal, não conheço ninguém nesta terra. Me fascina aquela espécie de espuma em que se transformou o líquido escuro, mas não posso continuar brincando, me sinto observada. Não quero olhar para o rapaz, ele pode pensar que sou jovem e depois se decepcionar, ou pensar que sou rica e vou pagar bons programas, ou que costumo ter namorados que encontro na rua, ou... Si pué? É ele aqui e eu não tenho coragem de levantar os olhos, está sentado e eu não quero ... que vá embora. Vou dizer que não falo a língua dele e estou de saída, mas minha própria língua se enrola e eu não digo nada. Eu não necessito ficar nervosa, ou algo assim, ele só quer conversar um pouco, tenho os ojos tão tristes. Se eu quiser, ele vai embora, pegando o jornal e colocando-o sob o braço forte, mas não muito musculoso. Digo que fique, mas que eu nunca fiz isso antes. Sou casada há quinze anos e não costumo sentar em cafés com rapazes. Não sou chica, tenho quase quarenta anos, sempre vivi em Florianópolis, capital de um estado do Sul do Brasil, não falo espanhol, só entendo um pouco. Odeio aquele rapaz que me expõe a olhares indiscretos, sinto vontade de chorar, mas é de raiva. Ele traz a mão até o meu rosto: no, no necesita llorar, si quieres me voy. Não, não quero que vá e ele entende. Deixo o dinheiro do café sobre a mesa, atendendo ao convite dele: vamos a caminhar.

Andamos sob árvores enormes na direção de um cemitério. Nunca tinha passeado num lugar assim. Uma jovem desenha tendo por modelo um anjo de alabastro, um homem, sentado sobre um túmulo, escreve num quando criança, depois a mãe foi embora (ah, era por isso que se interessava por mim?), o pai ficou com dois filhos e decaiu não terminara o curso porque trabalhava para se manter e pagar os estudos. Eu não queria conhecer o território dele?

Tomamos um coletivo numa avenida do bairro Recoleta. Tentei convencê-lo a irmos de táxi. No necesita, me convenceu, um sorriso largo me fazendo sentir ingênua e mimada pela sugestão.

No trajeto, ele perguntou muito sobre mim, e eu, no momento, achei importante falar da minha vida. Estudei francês e inglês, mas não falava uma palavra; fiz curso de piano, mas só tocava Parabéns a você e Für Elize. E ele ria, ria, como se eu estivesse fazendo piadas muito inteligentes. Depois ficou sério, íamos ter de caminhar mais um pouco depois de descer do ônibus. Por mim estava ótimo. Entramos numa rua tortuosa, calle Balcarce. Caminhamos até o quatrocentos e pouco, entramos numa casa antiga de dois pisos. Ele me apresentou a moças e rapazes: una amiga brasileña. Subimos a escadaria. Um salão decorado em dourados e veludos. Um tango irrompeu e o meu amigo subiu ao palco com uma das moças. Três pares florearam o Caminito.

Ele desceu do palco e caminhou ao meu encontro. O ensaio duraria uma hora, eu queria esperar? Olhei aquelas três moças de cintura fina e pernas bonitas. Não, quem sabe outro dia? Alguém chamou: te esperamos, Eduardo. Me pediu para anotar la direción. Balcarce, quatrociento y pico, que eu não esquecesse dele.

Desço ruas estreitas até chegar a uma avenida: Paseo Colón. Chamo um taxi: Palermo, e mostro meu endereço escrito na agenda. Passamos pela Faculdade de Engenharia e o meu coração acelera, outros prédios públicos, costeamos o rio e depois nos perdemos em ruas e avenidas. Ele não quis me ofender, eu é que sou paranoica. Mas não podia esperar, tinha de voltar para casa.

Otávio pode voltar cedo e vai me encontrar perturbada. Ele disse que iríamos ao território dele, teve paciência comigo, me escutou. Eu devia ter me mostrado menos ansiosa. Fingir que nada era novo para mim. Ainda bem que não voltarei a encontra-lo. Assim tudo volta ao normal.

O apartamento escuro, abro as janelas. Pratos, xícaras, talheres empilhados sobre a mesa de jantar, almofadas pelo chão, roupas sobre o sofá. Preciso dar um jeito nisso. A chuva começa a cair forte como um tango, penso, enquanto fecho as vidraças. As árvores brilham, pessoas correm, automóveis buzinam.

Uma garoa fina acaricia os vidros enquanto eu encho os armários e roupeiros. As almofadas sobre os estofados, os vasos e cinzeiros sobre a mesa de centro. Um cansaço aliviado ao ver tudo nos lugares.

O barulho do elevador, passos no corredor, está na hora de Otávio voltar? Ele entra elogiando a arrumação do apartamento. Falo do meu cansaço. Ele bate os olhos no meu Como água para chocolate sobre o sofá: tu não acabas nunca de ler esse livro? Eu encontrei esse livro hoje. Talvez leia de novo. Ele espera que eu queira jantar fora, está morto de fome. Olho para a rua: as luzes acesas, nem senti a tarde passar.

O parque coberto de folhas amarelas. Um vento frio. Blusões, jaquetas, casacos de lã. Otávio só voltará de noite. E se eu for a San Telmo? Passo na Balcarce, não preciso chegar no endereço, almoço por perto e já estou me dirigindo para lá no mesmo ônibus que tomei com Eduardo.

Me olho na vitrine de um bar, as roupas de inverno deixam a mulher mais elegante. Fico em dúvida se devo deixar o cabelo preso em coque. Estás divina, uma voz alegre e uma carícia no meu braço. Me volto, é Eduardo. Desta vez não vou embora, temos todo o dia, esses três meses em Buenos Aires me fizeram bem, onde estive? Já gosto daqui?

O mozo traz as xícaras, o prato com biscoitos, o açucareiro e dois bules. Aqueço as mãos no vapor do café e Eduardo elogia a luz que vem dos meus olhos, do meu sorriso. Foi o primeiro fósforo que se acendeu, respondo. O quê? O calor e o garçom de aspecto indiático me trazem o trecho que Otávio sublinhou no Como água para chocolate e lemos tanto que sei de cor. Eduardo não leu nem viu o filme.

Luz do Amanhecer, uma índia Kikapoo, avó de um médico que amava a personagem principal, contava para o neto que todos nascem com uma caixa de fósforos dentro de si. Não podemos acendê-la sozinhos. Precisamos de oxigênio e da ajuda de uma vela. O oxigênio vem do hálito da pessoa amada, a luz da vela pode ser qualquer coisa que dispare o detonador e acenda um dos fósforos. Eduardo prende a minha mão esquerda entre as mãos dele. Continuo mais confiante, não quero esquecer nem um pedaço: cada pessoa tem que descobrir quais são seus detonadores para poder viver, porque é a chama do fósforo que nutre a alma de energia. Eduardo acaricia o meu rosto e me abraça. Se não há detonador, prossigo, a caixa umedece e jamais poderemos acender nem um deles. Há muitas maneiras de secar uma caixa úmida. Pode ter certeza de que tem remédio. Ele aproxima os lábios dos meus, afasto o rosto e gesticulo com o dedo como se o repreendesse: é importante acender os fósforos um por um porque, se por uma intensa emoção, acender todos de uma vez, o esplendor será tão forte que aparecerá diante de nossos olhos um túnel mostrando o caminho que esquecemos ao nascer e nos chamará de volta à nossa perdida origem divina.

O sol toca meu rosto e Eduardo afasta o dele para me observar melhor, apanha a conta e deixa o dinheiro sobre a mesa. Caminhamos para o apartamento dele. Um prédio bege, escurecido, sacadas esculpidas, arrematadas por parapeitos de bronze. As persianas das janelas de madeira, a porta de ferro. Estamos próximos à praça Dorrego, diz Eduardo. Olho para ele sem nada entender, enquanto ele fecha a porta e caminhamos pelo hall. Nunca ouvi falar da feira de antiguidades de San Telmo? Pois é ali. O elevador chega fazendo muito barulho, ele abre a porta de ferro. No terceiro andar paramos. A irmã trabalha para uma agência de turismo, hoje passa o dia dentro de um ônibus mostrando a cidade para os estrangeiros; o pai passa as tardes nos cafés, ele nem sabe onde o velho se mete.

O living é amplo, os móveis sólidos e escuros, os estofados de couro, rasgados. Um quarto fechado, uma cama de casal, não pergunto de quem é. Ele fecha a porta a chave e eu me sinto mais calma, mas não soltei a bolsa e ele começa a rir porque estou na pontinha da cama como se fosse dar um impulso e sair correndo. Rimos, juntos, eu, mais de nervosa. Ele apanha a bolsa e a coloca numa poltrona, desabotoa o meu casacão e eu começo a desabotoar a jaqueta dele, invadida por um perfume que comprime a minha garganta como se eu estivesse prestes a chorar. O torso forte e jovem. Solto os cabelos dele. Você é bonito demais, Eduardo, e olho para os meus seios murchos. Ele entende e começa a lamber os mamilos e tenho a sensação de que os meus seios estão recebendo a energia do fogo que se acendeu lá bem dentro de mim e tudo o que ele faz é lento e delicado e eu sinto vergonha de não ter a calma dele e ele passa as mãos nas minhas coxas, no meu ventre trêmulo e eu peço que ele venha bem perto e fico tão leve e penso que essa sensação deve ser parecida com a morte, mas não sinto medo, ao contrário, ele tem o sexo tão rijo que eu morro de novo muitas vezes com aquele homem entre as minhas pernas até ele me encharcar com o líquido brilhante. Nos afastamos para respirar e os nossos corpos estão nacarados. Continuamos nos beijando, enquanto o céu vai se tornando vermelho. É tarde, falo dentro da boca dele, tenho que ir, é longe. Ele vai me deixar lá perto, é quase noite. Peço que não. Não quero quebrar o encanto da despedida. Sim, eu volto. É só dizer quando.

Você está mais bonita, Lívia, e Otávio me olha de um jeito estranho. Eu tenho uma expressão nova no olhar, como se estivesse mais jovem. Ele não devia me deixar tanto tempo sozinha num lugar estranho. Por que não passávamos um fim de semana em Mendoza? Verdade mesmo, estou diferente, até o corpo: os seios estão maiores, mais firmes. Quero ir a Mendoza ou não? Quero sim. E sinto uma espécie de fisgada nas mamas, como se estivessem inchando. Há quanto tempo não vou ao ginecologista? Anos. Por que essa preocupação agora? Desistimos há muito de ter filhos, nunca fizemos um tratamento, só verificamos que não precisávamos de anticoncepcionais. Prometo que trato disso esta semana e vou para a frente do espelho. Há uma chama em meu olhar, meu corpo está mais bonito, mas não quero que a caixa de fósforos se acenda inteira.

Olho pela janela. Pouco movimento, as pessoas encasacadas correm para dentro de táxis, de ônibus. Todo o apartamento aquecido pela calefação, vou para a cozinha preparar um chocolate quente, fazer planos. Amanhã faremos compras para o enxoval do bebê. Eduardo terá de ficar longe de nós. Daqui a algum tempo, poderemos voltar para o Brasil. Talvez eu ainda leve amigos brasileiros a Calle Balcarce, sentindo apenas uma saudade calma. Por enquanto ficarei longe, se ouvir alguém dizer no necesita, talvez eu tenha dúvidas da minha decisão.


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VERA MOLINA é graduada em Letras e pós-graduada em Teoria da Literatura pela PUC-RS. 
Autora de livros infanto-juvenis, novelas e contos, integra várias 
antologias de conto e poesia, inclusive como organizadora. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

BOM CARNAVAL!

por Jorge Nagao


Aproveite o carnaval como os amigos abaixo e Feliz 2015!
Bombeiro - vou apagar o fogo dos foliões com a Mangueira, a minha escola favorita.
Professor - Vou pra escola de samba para esquecer os alunos. Bendito carnaval.
Coveiro- vou enterrar minha tristeza nesta folia..
Tintureiro - vou passar o carnaval passando: olha lá a pilha de roupas.
Contabilista - No carnaval, vou perder a conta do que vou aprontar e nem vou te contar.
Leiteiro - carnaval é puro deleite, então vou beber tudo, menos leite.
Sapateiro - Vou entrar de sola: Maria Sapatão, sapatão, sapatão, de dia é Maria, de João.
Juiz - vou fazer jus ao feriado e aproveitar, sem perder o juízo, claro.
Cabeleireiro - Está aqui na ponta da língua: – O teu cabelo não nega/ Olha a cabeleira do Zezé e É dos carecas que elas gastam mais.
Boleiro - vou me jogar no Cordão da Bola Preta e não vou pisar na bola.
Desenhista - Brincar o carnaval é tudo de bom. Vou correr o risco de ser feliz.
Jardineiro -  “ Ô jardineira porque está tão triste..” Esqueça a Camélia e vamos brincar quatro dias sem parar.
Pescador - Caiu na rede é peixe, leleá, eu não posso bobear. Quem bobeia espanta a sereia.
Sushiman - Vou deitar e rolar e depois enrolar um sushi e tomar um sake pra animar.
Presidenta - Daqui não saio, daqui ninguém me tira. E o cordão dos puxa-saco cada vez diminui mais..
Carioca - Largo do Machado mas não largo do copo, este é o meu bloco.
Porteiro - se o carnaval é a porta da alegria, então seja bem-vindo.
Publicitário - vou desfilar com meu ego e tomar birinaites pra ter insights.
Relojoeiro - Carnaval é “da hora”. Vou aproveitar porque o tempo é diminuto.
Revisor - Ficarei em casa, no Bom Retiro, para revisar a minha vida.
Salva-vidas - Salvar bêbados para que não morram na praia, eis meu carnaval.
Empresário - Estarei no bloco “o negócio tá feio e o seu nome tá no meio”.
Bibliotecário- No carnaval, viro a página, me livro dos livros e caio na gandaia.
Bancário- Vou deixar de ser um caixa sério e ser um ‘caixaceiro”. Hic!
Caseiro- Vou ficar em casa, trabalhando, uai!, se não um dia a casa cai.
Babá - o bebê serei eu: “Me dá chupeta pro bebê não chorar”.
Barbeiro - No carnaval, vou fazer barba, cabelo e bigode, ou seja, vou trabalhar e muito.
Jornalista - Vou encontrar meus colegas no bloco “Imprensa que eu gamo”.
Enfermeiro- já decorei a paródia: “Melhoral está chorando pelo amor da Novalgina, no meio das injeções”.
Taxista- vou aproveitar porque o carnaval é passageiro.
Pasteleiro - “ de carne, queijo ou palmito?” Vou trabalhar, estou frito.
Pernambucano - Depois do Galo da Madrugada vou pro bloco “Já que tá dentro, deixa”
Zelador - Tô fora. Vou zelar  pela minha saúde.
Pintor - Vou brincar porque pode pintar um novo amor.
Advogado - que esta Data Vênia pois quero requerer a minha cachaça pois é um Direito meu, meu!
Alfaiate - Vou sair da linha e vou pintar e bordar, brother.
Corretor imobiliário - Ninguém me segura. Vou pro bloco dos corretores: Os imóveis  e depois o Concentra mas não sai, me aguarda, aguardente.
Black bloc - Vou cantar: “na mesma máscara negra que esconde o seu  rosto…” e, na próxima manifestação, vamos botar pra quebrar.
Op.de TeleMKT - vou estar pulando, vou estar bebendo, vou estar curtindo, vou estar me acabando, cara.
Médico - Não se esqueça: Cachaça não é água, não, beba com demoração.
Carnavalesco - Leandro de Itaquera diz à Mocidade Alegre: Vai- vai mas não se esqueça da camisinha verde-e-branco para não dar Nenê da Vila Matilde.

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Jorge Nagao é escritor e jornalista