segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A BIBLIOTECA INVISÍVEL




Paulo Bentancur


Chego em casa e me debruço sobre os livros de sempre. De sempre? Não da eleição previsível dos que se deixam guiar pela lista, nem digo dos mais vendidos (esta é grosseira demais), não da lista dos recomendados pelos jornalistas bem-tratados pelas editoras e bem-tratados pela vida metropolitana que os pôs num posto de destaque, no bojo de um periódico frequentado por anunciantes caros. Bons anunciantes: pagam bem, segundo a tabela do departamento comercial, atendendo as leis severas da Publicidade e do Marketing; maus anunciantes: exigem bom espaço, na mídia onde anunciam, para seus produtos (livros, no caso) de qualidade rasa.

O fato é que me debruço sobre os livros de sempre. Não os dos leitores de sempre, guiados pelos sinais evidentes. Não os títulos, nunca!, selecionados pelo boca a boca fashion. Não. Mas os de sempre. Os de sempre para mim.

Reinaldo Santos Neves e sua erudição destilada nos trópicos, às margens do Atlântico, em pleno Espírito Santo. O homem tem uma fluência narrativa de mãos dadas com uma capacidade de criar ambiências, tipos e conflitos de plena Idade Média. E mora aqui, a 2.000km de onde escrevo, Porto Alegre. Leiam A Longa História (Bertrand Brasil, 2007) e me desmintam se conseguirem. Dou-lhes vinte séculos de produção literária ocidental para que se informem, se formem, e provem que votei no livro errado e que minha estante cedeu seu espaço em vão.

W. J. Solha. Edita, como Reinaldo, há 30 anos, e ninguém, nem público (que tradicionalmente tá por fora) nem crítica (que tradicionalmente “sabe das coisas”) percebe que História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005) é um monumento engenhoso em meio a uma literatura minguada como a nossa. Nesse livrão, 500 páginas, Solha reúne sete novelas onde reconta, humanizando-os, os mitos, e recolhe do extravio a despercebida grandeza contida no cotidiano esmagado pelas catástrofes – da antiguidade clássica à bomba atômica. Transcende o “simples” livro e atinge, ao refazer um percurso de violência quase impossível de narrar, o que merece ser chamado de projeto.

Há anos que está no forno, de Syllas Mendes David, um carioca, professor aposentado, que trabalhou durante décadas na Baixada Fluminense. Seu Caderno de Zoologia do Aluno Waldeney de Jesus da Primeira Série da Escola da Vida saiu em 1977, pela Civilização Brasileira, quando Enio Silveira dava as cartas. Soube agora que o autor, três décadas depois, reescreveu o livro e o prodígio voltará à tona, talvez nalgumas livrarias, apenas, aquelas, poucas, que não se sustentam apenas de besta-sellers.

Um já morreu, em 1998, Campos de Carvalho (no enterro “não tinha gente suficiente para carregar o caixão”), mas a reunião de suas quatro novelas – A Lua Vem da Ásia, Vaca de Nariz Sutil, A Chuva Imóvel e O Púcaro Búlgaro – fez desse volume, lançado em 1995 pela José Olympio, um fetiche cuja lombada namoro, de quando em quando, lançando olhares que misturam admiração e amargura. O non sense e a ironia, um humor ácido flertando eternamente com a lógica, marca da literatura de Carvalho, serviriam bem para resumir sua trajetória solitária. Livro de sempre.

Valêncio Xavier, autor de O Mez da Grippe e Outros Livros (1998), Minha Mãe Morrendo e Menino Mentido (2001) e Rremembranças da Menina de Rua Morta Nua e Outros Livros (2006), todos editados pela Companhia das Letras, faz colagem, monta ilustrações – desenho e foto – antigas com texto o menos literário possível, chegando a um resultado, sem exagero algum, inacreditável: reanima o passado das primeiras décadas do século XX e nos põe, leitores, dentro de um quarto escuro onde no fundo, trêmulas, vemos imagens antigas e lemos algo que vai além da legenda mas arrasta desta e seu gênero uma inocência pervertida – pelo que esconde.

Tem muito mais na minha biblioteca. Dezenas de autores, centenas de títulos. Só do Brasil. (Outros países também optam pela facilidade e escondem-esquecem-ignoram seus artistas de exceção, incômodos, inclassificáveis e, por isso, invendáveis.) Ninguém viu ou pouquíssimos viram. Ninguém leu ou pouquíssimos passaram os olhos. Posso adiantar alguns nomes: Ricardo Guilherme Dicke, o Guimarães Rosa do Mato Grosso; Vicente Franz Cecim, o Nietzsche poeta-filósofo, para além dos gêneros, do Pará; Tânia Jamardo Faillace, autora do maior romance do mundo, 7.000 páginas e 50 anos de vida política, repressão, guerrilha e miséria social no Brasil, do Rio Grande do Sul; Paulo Hecker Filho, o poeta desconcertante e o único crítico de verdade, enquanto opinião pessoal corajosa, para além da argumentação de restritiva elaboração teórica, do Rio Grande do Sul também; e Jamil Snege e sua estética da auto-demolição, inclusive moral, um anti-escritor sem pose de anti-nada, do Paraná.

Paro por aqui. Envolvido com meus livros de sempre, capas já coladas com fita durex, miolo amarelado pelo tempo de manuseio, conjunto heterogêneo a compor... o quê? Um cânone é que não. Apenas uma biblioteca. Como citá-la (feita de tantos desconhecidos, miseráveis quanto a uma desejável fortuna de reputação crítica) se não reconhecem um só título, um só?! Que dirá todos os demais que a fazem, ainda que uma biblioteca, invisível.


___________________________________________________________
Paulo Bentancur é escritor, poeta, crítico, oficineiro on line em 6 gêneros.
Autor de A solidão do Diabo (contos), Bodas de osso (poemas)

e Três pais (infanto-juvenil).
Foi premiado com o Açorianos em três categorias diferentes 5 vezes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário