segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ONZE PASSOS PARA SERMOS INCENTIVADOS A LER







por Paulo Bentancur

Tudo começa, naturalmente, na infância. Mas qual a criança que não se interessa por um livro, um gibi, a contação de uma história? Depois, crescemos, e, envolvidos com tantas coisas “séééérias” (sim, são sérias, mas ler é algo muuuuito sério, questão de saúde mesmo. E saúde mental”), crescemos, eu dizia, e vamos passando a ler menos, menos, cada vez menos. Deixando de brincar e de buscar o grande tesouro que está enterrado num só lugar: na nossa imaginação. Uma perda terrível, irrecuperável. Daí que a única solução é JÁ-MAIS parar de ler.
É preciso ler, ler muito, para poder pensar, pensar bem, para poder ler bem, para poder escrever, e escrever bem. Para poder falar, e falar bem. Para poder escutar, e muito nitidamente, a imensa sinfonia do mundo. E até mesmo o discurso mudo do nosso amigo amargurado ao lado. Ou de nosso amigo feliz ao lado. Compreendê-lo de fato: isto também é ler. E só a leitura anterior nos permite tal coisa.
A seguir, alguns passos para o incentivo à leitura, quando o leitor ainda está verde e, de certa forma, SEMPRE estamos verdes. Eu próprio me sinto jovenzinho diante dos grandes desafios, e aprender tudo de fantástico, e curtir tudo de fantástico que a vida tem a me proporcionar é uma provocação diária. E é preciso estar pronta para enfrentá-la. E só lendo muito deixo minha mente com                    a agilidade necessária para acompanhar tudo, na mesma velocidade, com as mesmas cores e músicas com que a realidade me fala e me desenha seu rosto múltiplo.
Eis aqui meus eternos primeiros passos.

1. A faixa etária adequada para o contato inicial com livros se dá entre os dois e os cinco anos.
Mas depois essa faixa se estende. E nunca tem fim esse começo. Pode-se começar aos 15, aos 20, aos 30, ou no último dia de vida (o que seria triste, mas, ainda assim, uma vitória);

2. É importante que o professor indique o livro correspondente à idade e à capacidade de concentração da criança ou que os pais avaliem a adequação desse material.
Mas depois, já crescidos, temos plena capacidade para avaliar a adequação do material de leitura às nossas necessidades e expectativas.

3. A leitura deve transcorrer em um ambiente calmo, sem interferências ou ruídos (rádio, televisão etc.). O adulto deve assumir o papel do narrador da história, familiarizando assim o pequeno “leitor” com o autor que apresenta a narrativa.
Mas depois, bem mais tarde, aprendemos a achar o ambiente adequado, formamos nosso ambiente, construímos a região aconselhável na qual podemos viajar fundo, mergulhar através da leitura. E, cá pra nós, mesmo com um barulhinho perto, se de fato estamos interessados, nada nos tira a concentração.

4. É fundamental que o adulto que está apresentando o livro à criança faça comentários sobre a aparência do volume, sobre as figuras, o formato, talvez até contando algum fato da vida do autor. Enfim, é decisivo mostrar à criança interesse em folhear o livro, demonstrando que ali, naquelas páginas, muita coisa se pode descobrir e se quer descobrir. E na hora de ler, faça-o dramatizando, com emoção escancarada. Tudo para que jamais o ato da leitura pareça algo chato ou desinteressante.
A mesma coisas faremos conosco mesmo anos mais tarde. E sempre, sempre, sempre. Quando temos um CD, um DVD, para ouvir, ou ver, executamos exatamente esta mesma operação, nos informando acerca de todos os detalhes que cercam aquela gravação.

5. Se a criança quiser tomar o livro de suas mãos e folheá-lo devagar, de qualquer jeito, “erradamente”, nenhum problema. Deixe. Não se deve ter pressa, e esse processo de convivência com o livro, no início, vai ser assim mesmo.
E será eternamente assim. Eu, aos 51, folheio alguns livros apressadamente. Outros, muuuuito devagar. Outro nem folheio, cruz-credo! Leitura, como tudo no mundo, contém maravilhas e porcarias, ofertas para todos os gostos, e a gente deve ter a liberdade de fazê-la segundo nosso ritmo pessoal.

6. Cada ilustração e cada palavra devem ser mostradas. Uma dúvida, uma hesitação? Pare, explique, volte atrás. É decisivo não perder o fio da meada. Compreender direitinho a história para gostar dela.
Sabem que a verdadeira leitura não é ler só uma vez? A verdadeira leitura é RE-LER. Porque na releitura (como quando vemos uma pessoa mais de uma vez) é que a gente começa mesmo a enxergar detalhes importantes que num primeiro olhar passam desapercebidos, que num primeiro olhar nem é possível perceber.

7. A criatividade da criança deve ser encorajada. Antes de cada cena seria interessante perguntar o que ela acha que vai acontecer.
Ora, naturalmente é o que fazemos a vida inteira, desconfiando de uma cena num filme, imaginando as possibilidades do desenvolvimento em certa altura em um texto. Somos (que bom!) incuravelmente curiosos e imaginativos, e estamos sempre nos antecipando ao que pode acontecer. É muito bom observar com atenção e paciência, para deixar rolar. Mas é ótimo também exercitar nosso dom de perceber qual o próximo lance do jogo.

8. O ato da leitura – nessa fase inicial – deve ser em conjunto. É uma ótima oportunidade para pais e filhos se sentirem juntos, unidos. Manifestando carinho, calor, o adulto envolve afetivamente a criança e a faz lembrar desse momento – a leitura – como um instante prazeroso.
Aí crescemos, e, claro, lemos sozinhos. Certos livros são fundamentais que sejam lidos na solidão. Mas outros livros e revistas, bem, é bastante legal compartilhar com a galera uma leitura em grupo, como quando alguém conta uma história em voz alta e o restante da turma se liga, estabelecendo assim vínculos e laços de amizade e de entendimento cada vez mais fortes.

9. Se a criança reagir negativamente ou não quiser terminar o livro, é importante deixar que isso aconteça. O livro não pode ser uma obrigação, uma sentença, um castigo.
Eu, por exemplo, já desisti de tanto livro nesta minha vida. Livro é como gente. Tem gente bacanérrima e gente muito mala. Tem livro mala. E livro pra lá de sensacional. A gente só precisa ter humildade para não decretar só por impaciência que o livro é mala e ponto, estamos conversados. Não. É fundamental agüentar um pouquinho para ter certeza de que não é má-vontade da gente. Se for mesmo má-vontade do livr

10. Terminado o livro, deve-se conversar com a criança sobre a história lida. Pede-se que a criança conte o que acabou de ser lido. Pode-se ir escrevendo a história, agora contada pela criança, observando o nexo entre as partes, a correta ligação entre as diversas cenas do enredo. Com isso, a criança vai aprendendo que o pensamento tem uma estrutura com começo, meio e fim.

11. Não é raro a criança solicitar que se leia mais de uma vez a mesma história. Satisfaça-a, sem maiores preocupações quanto ao retorno, repetidas vezes, ao mesmo livro. Isso serve para fixar uma identificação com determinada trama, determinado estilo, determinado assunto. Não esquecer, entretanto, de oferecer livros bem diferentes, comparando-os, indicando assim a diversidade de opções de leitura


CONSELHOS PARA UM JOVEM LEITOR

A leitura é uma ação delicada, difícil – só na aparência simples. Pega-se um livro que se elegeu, com certa incerteza (como ter certeza acerca do que vamos encontrar no miolo do volume?), e abre-se, como abrimos uma porta para entrar numa casa, num auditório, em algum espaço no qual coisas acontecerão. Não sabemos o que vai acontecer. E isso nos deixa curiosos, às vezes ansiosos, às vezes pressionados pela atenção que é preciso colocar durante o ato da leitura, essa visita a esse espaço onde muita ação e muitas personagens surgirão diante de nossos olhos.

A ação pode ser pouca lenta, complicada (mais psicológica que movimento externo) – e nos aborrecer.
Pode ser vertiginosa, cheia de detalhes, e nos deixar sem fôlego, emocionados pelos acontecimentos.
Pode ser uma ação delicada, uma única trama sem grandes lances acrobáticos ou perigosos, mas no entanto repletos de riqueza humana no que os protagonistas realizam. E isso pode nos tocar fundo. Fixar raiz em nossa memória.

Quando se fala em ação, pensa-se logo em diversão, distração. Isso faz parte, sem dúvida, porém (e que ótimo “porém” esse) uma obra literária sonha geralmente com algo maior: comover o leitor, deixar-lhe sinais de que a vida é mais rica ainda do que aparenta. E é fundamental estarmos alertas para captar esses sinais.

As personagens. Pode-se dizer “os” personagens ou “as” personagens. É substantivo comum de dois gêneros. Alguns estranharão: por que “a” personagem? Porque uma de suas fontes vem da palavra latina “persona”, que quer dizer máscara. E ser uma personagem é vestir uma máscara, cumprir à risca um papel. O autor não perdoa. Mas a personagem também não. Muitas vezes, enquanto estou escrevendo, a personagem resolve fazer coisas que eu nem imaginaria ela fazendo. A personagem tem, sim, a sua independência. Controlada por mim, mas ainda independência. Sob esse aspecto, a personagem nunca é um “túmulo”, expressão que utilizamos para definir pessoas tímidas, discretas, que não dizem nada sobre si e sobre os outros ou dizem quase nada. Num livro, as personagens são expostas cruamente, impiedosamente pelo escritor. E o leitor tem a afortunada oportunidade de (como um espião) descobrir tudo, os segredos mais invioláveis, na vida jamais mostrados, na literatura sempre, de um jeito ou de outro, exibidos. Sem, claro, que a personagem saiba.
Você, leitor, fica a par de tudo. E a personagem não irá persegui-lo, fique tranqüilo. Ela ignora o quanto você sabe.
Basta ler como se espiasse por uma fresta que o levasse a um mundo paralelo.

Sim, a literatura é um mundo paralelo. E um mundo – uau! – com a ambição saudável de examinar quase microscopicamente tudo o que neste mundo, o real, de onde escrevo, não se examina, exceto os cientistas (descobertas que só ficam entre eles no momento em que ocorrem, e que só são divulgadas tempos depois, já de uma forma um tanto simplificada). A literatura não, a literatura é um mundo secreto mas o mais democrático dos mundos secretos. O mais popular.

Por isso peço-lhe, jovem amigo que ainda está treinando olhar a página impressa pelo menos uma vez a cada dois dias: aguce os ouvidos. Ouça as palavras que o autor utiliza, o seu vocabulário. Socorra-se no dicionário se alguma delas lhe soar estranha. Escute a harmonia das frases, o ritmo dos parágrafos. A música do texto todo. A linguagem de que se utiliza um autor é como o modo de falar de uma pessoa. E uma pessoa mostra muito quem é pelo jeito como se expressa, mesmo que minta.

Ler com todas as antenas ligadas ajuda-nos a flagrar a mentira, a achar a verdade até em lugares que ela parecia nem existir, de tão singelos que são (uma estrela cabe num grão de areia, é uma idéia e uma imagem a se pensar). E, mais que tudo, a beleza. A beleza é a verdadeira verdade, a verdadeira bondade, a arte expressa com toda sua musculatura à mostra.

E, por fim, leia procurando, não só ao autor, à história que ele conta, aos personagens que ele pinta, aos cenários que descreve, à linguagem com a qual ele conversa com você. Leia procurando a si mesmo. Em algum trecho, no meio do caminho, ou até no fim, quando menos esperar, você poderá se deparar com algum fragmento do livro que diz tudo aquilo que você sempre desejou dizer ou precisou dizer e não sabia como. Agora sabe. Agora pode.

Porque leu, e, lendo, pode escrever-dizer a voz que se somou à sua e, desta forma, ajudou a sua voz a então poder, a partir da leitura, começar a desenhar o rosto que você de fato tem (até então ilegível para você), a história que é sua (e que você nem sabia que havia uma história possível de ser contada). O jovem leitor em geral não descobriu ainda que somente com a leitura ele conquista não apenas o conhecimento “externo” do que muitos escritores quiseram dizer e incontáveis histórias e as figuraças que vivem essas histórias, conquista não apenas uma “cultura”, a permitir-lhe ser, inclusive, um bom falante e um bom ouvinte. Mais que isso, conquista a si e começa enfim a infinita aventura de desvendar os mistérios que ele próprio carrega, há anos.


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Paulo Bentancur é Escritor, poeta, crítico, oficineiro on line em 6 gêneros. 
 Autor de A solidão do Diabo (contos), Bodas de osso (poemas) e Três pais (infanto-juvenil). 

Foi premiado com o Açorianos em três categorias diferentes 5 vezes.

6 comentários:

  1. Texto maravilhoso! Eu estou saindo daqui da página diferente da forma que entrei, aprendi e fiquei encantada. Parabéns ao escritor Paulo Bentancur e às editoras Chris Herrmann e Adriana Aneli!!!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Encantadas estamos nós também do BAP, Sonia Salim, com o seu comentário de leitora, poeta e participante da comunidade.
      Agradecemos muito!!

      As editoras.

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  2. Agradeço imensamente a sensibilidade da tua leitura, a valorizar ainda mais o texto postado. Sobretudo vindo de alguém com o teu talento, de artista, de leitora. Obrigado, Sonia Salim. Abraço grande.

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  3. Parabéns pelo belo texto, Paulo. Sugestões importantes para a iniciação da criança no mundo da leitura, bem como para as outras fases de nossa vida. Um texto ricamente construído por quem, é obvio, sabe muito de Literatura! Obrigada por compartilhar teus conhecimentos!abraços

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  4. Eu que agradeço a leitura e comentário de uma grande leitora e poeta como tu, querida Helena da Rosa, para quem este tema e estas instruções não te soam estranhos. Beijos e gratíssimo pela fidelidade na recepção ao meu trabalho e pela lucidez de tua análise.

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