quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Dançou? Agora Kant!


DANÇOU? AGORA KANT!

por Paulo Magalhães



Não temos um filósofo de carteira assinada porque não temos cabeça filosófica. Essa afirmação do historiador Sílvio Romero, feita ainda no século XIX, permanece válida nos dias de hoje, ao menos nos círculos acadêmicos. Nós, estudantes de Filosofia, devemos aceitar esse estigma sem discussão? Para a nossa sobrevivência, é fudamental que não.

Ora, não nos falta aquilo que Kant chamaria de philosophischekopf. Nossas “kopfs” (cabeças) são tão boas quanto as dos compatriotas do bom e velho Immanuel. Aliás, se Kant tivesse vindo alguma vez ao Brasil, ficaria impressionado com o bom desempenho das “kopfs” brasileiras, filosóficas ou não. Funcionam muito bem, apesar do sol dos trópicos...

Imaginemos o ilustre filho de Kögnisberg numa temporada de férias brasileiras, nos anos 60/70. Certamente diria sobre Pelé, após assistir a mais um passeio do Santos: “Aquele gol de cabeça contra o Corinthians foi razão pura!”. E louvaria nossos pés filosóficos, aos quais associaria o imperativo categórico da habilidade, ao mesmo tempo transcendental e pragmática.

Mas Kant não ficaria só no circuito samba-futebol; está provado que isso é coisa de turista mané. Como bom filósofo, tomaria algumas caipirinhas metafísicas com a nossa intelectualidade, para conhecê-la melhor. Do Oiapoque à Chauí, se me permitem a cretinice.

Desenhemos mentalmente a cena: bar lotado, ao lado do campus da USP, sexta-feira à noite. Numa mesa quilométrica, formada pela união das esquerdas, com Kant à cabeceira para acentuar a incoerência, concentra-se a nata do pensamento brasileiro. Lá pelas tantas, meio tonto, mas ainda cheio de razão prática, o velho professor se levanta. Com ar solene, copo na mão, sentencia:

- Descobri qual a problema de vocês, brasileiras!

Por alguns segundos, faz-se um silêncio insuportável, logo quebrado por Fernando Henrique Cardoso – que não fora convidado:

- Vai, Kant, deixa de nhenhenhém, desembucha logo!

E o velho mestre, sem se virar para FHC, dispara:

- O que vocês não têm é philosophischebeinarbeit! – e volta a se sentar, mais quieto que antes.

Os intelectuais brasileiros se entreolham espantados. Qual o significado daquele palavrão? Todos concordam que seria indelicadeza pedir maiores explicações sobre o termo. E sinal de pouca cultura também. Assim, a alegre reunião vai se dissolvendo aos poucos.


Alguém aí sabe o que é PHILOSOPHISCHEBEINARBEIT?



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Paulo Magalhães é carioca,
formado em filosofia pela Universidade de Taubaté
e funcionário do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

3 comentários:

  1. ... tem que ter PHILOSOPHISCHEBEINARBEIT ... porque filosofia é para os fracos :) maravilha de texto, Paulo!

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  2. Muito bom, Paulo! rsrs. Traga mais textos ótimos assim para nós.
    Beijos, meu irmão!
    Chris

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  3. Pelo que pude deduzir, é filosofar no trabalho. Errado ou não, o artigo do Paulo Magalhães é maravilhoso! Palmas, amigo.

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