segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A BIBLIOTECA INVISÍVEL




Paulo Bentancur


Chego em casa e me debruço sobre os livros de sempre. De sempre? Não da eleição previsível dos que se deixam guiar pela lista, nem digo dos mais vendidos (esta é grosseira demais), não da lista dos recomendados pelos jornalistas bem-tratados pelas editoras e bem-tratados pela vida metropolitana que os pôs num posto de destaque, no bojo de um periódico frequentado por anunciantes caros. Bons anunciantes: pagam bem, segundo a tabela do departamento comercial, atendendo as leis severas da Publicidade e do Marketing; maus anunciantes: exigem bom espaço, na mídia onde anunciam, para seus produtos (livros, no caso) de qualidade rasa.

O fato é que me debruço sobre os livros de sempre. Não os dos leitores de sempre, guiados pelos sinais evidentes. Não os títulos, nunca!, selecionados pelo boca a boca fashion. Não. Mas os de sempre. Os de sempre para mim.

Reinaldo Santos Neves e sua erudição destilada nos trópicos, às margens do Atlântico, em pleno Espírito Santo. O homem tem uma fluência narrativa de mãos dadas com uma capacidade de criar ambiências, tipos e conflitos de plena Idade Média. E mora aqui, a 2.000km de onde escrevo, Porto Alegre. Leiam A Longa História (Bertrand Brasil, 2007) e me desmintam se conseguirem. Dou-lhes vinte séculos de produção literária ocidental para que se informem, se formem, e provem que votei no livro errado e que minha estante cedeu seu espaço em vão.

W. J. Solha. Edita, como Reinaldo, há 30 anos, e ninguém, nem público (que tradicionalmente tá por fora) nem crítica (que tradicionalmente “sabe das coisas”) percebe que História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005) é um monumento engenhoso em meio a uma literatura minguada como a nossa. Nesse livrão, 500 páginas, Solha reúne sete novelas onde reconta, humanizando-os, os mitos, e recolhe do extravio a despercebida grandeza contida no cotidiano esmagado pelas catástrofes – da antiguidade clássica à bomba atômica. Transcende o “simples” livro e atinge, ao refazer um percurso de violência quase impossível de narrar, o que merece ser chamado de projeto.

Há anos que está no forno, de Syllas Mendes David, um carioca, professor aposentado, que trabalhou durante décadas na Baixada Fluminense. Seu Caderno de Zoologia do Aluno Waldeney de Jesus da Primeira Série da Escola da Vida saiu em 1977, pela Civilização Brasileira, quando Enio Silveira dava as cartas. Soube agora que o autor, três décadas depois, reescreveu o livro e o prodígio voltará à tona, talvez nalgumas livrarias, apenas, aquelas, poucas, que não se sustentam apenas de besta-sellers.

Um já morreu, em 1998, Campos de Carvalho (no enterro “não tinha gente suficiente para carregar o caixão”), mas a reunião de suas quatro novelas – A Lua Vem da Ásia, Vaca de Nariz Sutil, A Chuva Imóvel e O Púcaro Búlgaro – fez desse volume, lançado em 1995 pela José Olympio, um fetiche cuja lombada namoro, de quando em quando, lançando olhares que misturam admiração e amargura. O non sense e a ironia, um humor ácido flertando eternamente com a lógica, marca da literatura de Carvalho, serviriam bem para resumir sua trajetória solitária. Livro de sempre.

Valêncio Xavier, autor de O Mez da Grippe e Outros Livros (1998), Minha Mãe Morrendo e Menino Mentido (2001) e Rremembranças da Menina de Rua Morta Nua e Outros Livros (2006), todos editados pela Companhia das Letras, faz colagem, monta ilustrações – desenho e foto – antigas com texto o menos literário possível, chegando a um resultado, sem exagero algum, inacreditável: reanima o passado das primeiras décadas do século XX e nos põe, leitores, dentro de um quarto escuro onde no fundo, trêmulas, vemos imagens antigas e lemos algo que vai além da legenda mas arrasta desta e seu gênero uma inocência pervertida – pelo que esconde.

Tem muito mais na minha biblioteca. Dezenas de autores, centenas de títulos. Só do Brasil. (Outros países também optam pela facilidade e escondem-esquecem-ignoram seus artistas de exceção, incômodos, inclassificáveis e, por isso, invendáveis.) Ninguém viu ou pouquíssimos viram. Ninguém leu ou pouquíssimos passaram os olhos. Posso adiantar alguns nomes: Ricardo Guilherme Dicke, o Guimarães Rosa do Mato Grosso; Vicente Franz Cecim, o Nietzsche poeta-filósofo, para além dos gêneros, do Pará; Tânia Jamardo Faillace, autora do maior romance do mundo, 7.000 páginas e 50 anos de vida política, repressão, guerrilha e miséria social no Brasil, do Rio Grande do Sul; Paulo Hecker Filho, o poeta desconcertante e o único crítico de verdade, enquanto opinião pessoal corajosa, para além da argumentação de restritiva elaboração teórica, do Rio Grande do Sul também; e Jamil Snege e sua estética da auto-demolição, inclusive moral, um anti-escritor sem pose de anti-nada, do Paraná.

Paro por aqui. Envolvido com meus livros de sempre, capas já coladas com fita durex, miolo amarelado pelo tempo de manuseio, conjunto heterogêneo a compor... o quê? Um cânone é que não. Apenas uma biblioteca. Como citá-la (feita de tantos desconhecidos, miseráveis quanto a uma desejável fortuna de reputação crítica) se não reconhecem um só título, um só?! Que dirá todos os demais que a fazem, ainda que uma biblioteca, invisível.


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Paulo Bentancur é escritor, poeta, crítico, oficineiro on line em 6 gêneros.
Autor de A solidão do Diabo (contos), Bodas de osso (poemas)

e Três pais (infanto-juvenil).
Foi premiado com o Açorianos em três categorias diferentes 5 vezes.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A Impossível Arte de não Ler



Paulo Bentancur

Leio, leio bastante, leio demais. Sempre li, leio todos os dias, lerei sempre. Como deixar de ler? Atravessei mais de quatro décadas, já alfabetizado, a experimentar pequenos milagres dentro do cotidiano que inclui a leitura. A leitura constante me ensinou a falar muito além da fala natural, aquela que todos somos capazes. A leitura constante me levou a chegar até o mais próximo possível do desenho complexo de quem sou de fato. Lendo tanto, e escrevo e falo a partir disso, como se a cada momento refizesse o mesmo caminho, aperfeiçoando-o a cada retomada. Desfazendo e refazendo esse percurso e, nele, me refazendo.
De alguma forma, pela palavra, me reinauguro. Não há nenhum exagero nisso. Exagero, penso, é não ler. Como podem existir pessoas que não lêem?!, me espanto. É espantoso pensar que alguém possa viver aquém do mundo verbal na sua expressão máxima (a desse mundo, na escrita impressa). Em tal situação, sem o remédio, sem a ferramenta, sem a arma que a palavra impressa representa, sofrem de um sério problema de saúde. Saúde mental. Ler deveria ser prescrito pelos médicos. Os psiquiatras, no caso.
Os que não lêem praticam uma arte dificílima, que ignoro qual seja. Uma arte que ignora a arte, uma arte de existir apenas, sem a vida que há na apreensão das mil variantes da existência, apreensão só possível através da leitura de textos que recriam todas as experiências humanas possíveis e impossíveis. A vida, mais que na própria vida, está nos livros. Uma vida especial, aprofundada de um modo que a vida mesma, sem o suporte verbal, não suporta.
Que difícil – que terrível! – deverá ser não ler. Nem imagino como se pode conseguir sobreviver a essa catástrofe.


Através da palavra, recomeço a cada fala, a cada pensamento. Quem fala (e falar também é ler, porque é espelho de nossa leitura) se apresenta a quem escuta e nesse encontro nasce o novo, uma relação até então inédita. O escritor: eu. A cidade: o cenário, o personagem e o tema. Uma obra se inicia? Não. Ela já existe há muito tempo. É um capítulo que se abre e nele nos encontramos.
Já visitei mais de cem cidades no Rio Grande do Sul, e em todas elas estive a convite de escolas, universidades, feiras de livro organizadas por instituições. Fui “a trabalho”, isto é, dar palestras, ter encontros com alunos, professores. Sempre buscando, não promover meus livros, não, mas promover um dos bens mais preciosos que conheço: a palavra impressa, cuja convivência nos ajuda a nos entendermos melhor, a entendermos melhor nosso próximo, a acharmos um jeito eficiente e verdadeiro de mostrarmos quem somos para os outros e para nós mesmos.
Sem as palavras, seríamos seres ilegíveis.

A palavra nos desenha. Nos recorta. Nos seleciona. Nos traduz. Deixamos de ser um estranho, de ser um animal belo porém de poucos recursos. O uso das palavras – o bom uso delas, naturalmente – nos aproxima uns dos outros e nos aproxima dos mistérios da vida mais concreta (que é indiferente a nós sem tal ponte) e das profundezas mais insondáveis do espírito.
Aliás, através das palavras tais profundezas deixam de ser insondáveis.

Sempre achei que nasci duas vezes. Quando minha mãe me deu à luz e quando aprendi a ler.

Depois que comecei a ler, não parei. Não parei mesmo. E resolvi que queria escrever para, de alguma forma, retribuir o prazer que os livros me davam.
Decidi cedo que seria escritor. Acho que com doze anos eu já sabia que o meu destino seria o de publicar livros. Embora faltasse muito tempo ainda, claro.
Mas comecei, pré-adolescente, a escrever contos, poemas, quase todos os dias.
Eu era um menino como qualquer outro. Levantava pandorgas em Santana do Livramento, onde nasci (depois que fui para Porto Alegre não levantei mais), jogava futebol e era metido a craque (metido apenas, os adversários discordavam dessa minha opinião e geralmente estavam certos), me apaixonava mensalmente por uma colega de aula. Como todos. Ou quase todos, já que alguns de jeito nenhum que iriam... querer ser escritor! Apaixonar-se mensalmente dá menos trabalho.

Minha família mudou-se para Porto Alegre em 1967. Comecei a publicar contos, artigos e poemas nos jornais da capital aos 18 anos. Em seguida fui trabalhar em editoras. Minha tarefa consistia em ler livros escritos e convencer o dono da editora em publicá-los ou em recusá-los. 90% eram recusados, o que é normal. Nesse trabalho, acho que conquistei 10% de amigos e 90% de inimigos.
Demorei para decidir-me a publicar meus próprios livros. Primeiro, preferi testar meus escritos em concursos literários. Quando ganhava algum, mandava o texto premiado para alguma editora. Se a editora aprovava o texto, que bom. Eu topava e o livro saía. Foi assim que passei a publicar. Bastante até. Minha bibliografia consta de mais de 30 títulos, a maioria de infanto-juvenis. Por quê?, me perguntam. Acho que porque tenho um temperamento adolescente, ou seja, sou inquieto, curioso, em constante transformação, o que me parece um sinal de vitalidade.

Ser leitor não significa ser escritor, é claro. Mas como sou escritor e como a coisa que um escritor mais faz na vida não é escrever, mas é ler, sou um leitor antes de mais nada. Um leitor voraz, insaciável.
Vivo, dentro do universo, como todos, um universo em especial, o do livro, do escritor e da leitura. Universo que passa pela escola, que pode formar leitores mas também pode destruí-los. Passa pelas feiras de livro, que, como qualquer evento, qualquer festa, servem de convite – nem sempre irrecusável, infelizmente – para o convívio com o livro. Passa, em resumo, por diversos aspectos, uns e outros contribuindo ou atrapalhando uma relação que deveria ser natural, como nossa vontade de ir ao cinema, de escutar música: a relação do ser humano com o ato de ler.
Ler – faço questão de destacar – QUALQUER COISA. Existem gibis fantásticos, histórias em quadrinhos maravilhosas.  Algumas graphic novels superam muita literatura metida a besta que anda por aí. Questão de ler, ler bem e então poder distinguir. Há revistas com matérias insuperáveis, reportagens com todos os ingredientes de uma boa ficção (e com o tempero de a personagem principal ser a realidade), artigos, crônicas e entrevistas de excelente qualidade. Tem jornal cuja leitura constante nos deixa pessoas mais completas.
Ler. Isso é o que importa. Leitura que não se resume apenas à palavra, mas que não a dispensa. Leitura que igualmente se dá no ato de olhar uma gravura, uma foto, um quadrinho, um olhar de ressaca ou um olhar limpo, um expressão de contrariedade ou um sorriso no que ele tem de menos evidente.
Falo mais em livros porque é neles que em geral há material impresso mais denso, é neles que moram os clássicos, os autores importantes. Mas eu, por exemplo, além dos 2.000 livros que possuo em casa, assino dois jornais e três revistas. E ainda fico com vontade de assinar outros mais.
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* Escritor, poeta, crítico, oficineiro on line em 6 gêneros.
Autor de A solidão do Diabo (contos), Bodas de osso (poemas)

e Três pais (infanto-juvenil). Foi premiado com o Açorianos em três categorias diferentes 5 vezes.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Dançou? Agora Kant!


DANÇOU? AGORA KANT!

por Paulo Magalhães



Não temos um filósofo de carteira assinada porque não temos cabeça filosófica. Essa afirmação do historiador Sílvio Romero, feita ainda no século XIX, permanece válida nos dias de hoje, ao menos nos círculos acadêmicos. Nós, estudantes de Filosofia, devemos aceitar esse estigma sem discussão? Para a nossa sobrevivência, é fudamental que não.

Ora, não nos falta aquilo que Kant chamaria de philosophischekopf. Nossas “kopfs” (cabeças) são tão boas quanto as dos compatriotas do bom e velho Immanuel. Aliás, se Kant tivesse vindo alguma vez ao Brasil, ficaria impressionado com o bom desempenho das “kopfs” brasileiras, filosóficas ou não. Funcionam muito bem, apesar do sol dos trópicos...

Imaginemos o ilustre filho de Kögnisberg numa temporada de férias brasileiras, nos anos 60/70. Certamente diria sobre Pelé, após assistir a mais um passeio do Santos: “Aquele gol de cabeça contra o Corinthians foi razão pura!”. E louvaria nossos pés filosóficos, aos quais associaria o imperativo categórico da habilidade, ao mesmo tempo transcendental e pragmática.

Mas Kant não ficaria só no circuito samba-futebol; está provado que isso é coisa de turista mané. Como bom filósofo, tomaria algumas caipirinhas metafísicas com a nossa intelectualidade, para conhecê-la melhor. Do Oiapoque à Chauí, se me permitem a cretinice.

Desenhemos mentalmente a cena: bar lotado, ao lado do campus da USP, sexta-feira à noite. Numa mesa quilométrica, formada pela união das esquerdas, com Kant à cabeceira para acentuar a incoerência, concentra-se a nata do pensamento brasileiro. Lá pelas tantas, meio tonto, mas ainda cheio de razão prática, o velho professor se levanta. Com ar solene, copo na mão, sentencia:

- Descobri qual a problema de vocês, brasileiras!

Por alguns segundos, faz-se um silêncio insuportável, logo quebrado por Fernando Henrique Cardoso – que não fora convidado:

- Vai, Kant, deixa de nhenhenhém, desembucha logo!

E o velho mestre, sem se virar para FHC, dispara:

- O que vocês não têm é philosophischebeinarbeit! – e volta a se sentar, mais quieto que antes.

Os intelectuais brasileiros se entreolham espantados. Qual o significado daquele palavrão? Todos concordam que seria indelicadeza pedir maiores explicações sobre o termo. E sinal de pouca cultura também. Assim, a alegre reunião vai se dissolvendo aos poucos.


Alguém aí sabe o que é PHILOSOPHISCHEBEINARBEIT?



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Paulo Magalhães é carioca,
formado em filosofia pela Universidade de Taubaté
e funcionário do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ONZE PASSOS PARA SERMOS INCENTIVADOS A LER







por Paulo Bentancur

Tudo começa, naturalmente, na infância. Mas qual a criança que não se interessa por um livro, um gibi, a contação de uma história? Depois, crescemos, e, envolvidos com tantas coisas “séééérias” (sim, são sérias, mas ler é algo muuuuito sério, questão de saúde mesmo. E saúde mental”), crescemos, eu dizia, e vamos passando a ler menos, menos, cada vez menos. Deixando de brincar e de buscar o grande tesouro que está enterrado num só lugar: na nossa imaginação. Uma perda terrível, irrecuperável. Daí que a única solução é JÁ-MAIS parar de ler.
É preciso ler, ler muito, para poder pensar, pensar bem, para poder ler bem, para poder escrever, e escrever bem. Para poder falar, e falar bem. Para poder escutar, e muito nitidamente, a imensa sinfonia do mundo. E até mesmo o discurso mudo do nosso amigo amargurado ao lado. Ou de nosso amigo feliz ao lado. Compreendê-lo de fato: isto também é ler. E só a leitura anterior nos permite tal coisa.
A seguir, alguns passos para o incentivo à leitura, quando o leitor ainda está verde e, de certa forma, SEMPRE estamos verdes. Eu próprio me sinto jovenzinho diante dos grandes desafios, e aprender tudo de fantástico, e curtir tudo de fantástico que a vida tem a me proporcionar é uma provocação diária. E é preciso estar pronta para enfrentá-la. E só lendo muito deixo minha mente com                    a agilidade necessária para acompanhar tudo, na mesma velocidade, com as mesmas cores e músicas com que a realidade me fala e me desenha seu rosto múltiplo.
Eis aqui meus eternos primeiros passos.

1. A faixa etária adequada para o contato inicial com livros se dá entre os dois e os cinco anos.
Mas depois essa faixa se estende. E nunca tem fim esse começo. Pode-se começar aos 15, aos 20, aos 30, ou no último dia de vida (o que seria triste, mas, ainda assim, uma vitória);

2. É importante que o professor indique o livro correspondente à idade e à capacidade de concentração da criança ou que os pais avaliem a adequação desse material.
Mas depois, já crescidos, temos plena capacidade para avaliar a adequação do material de leitura às nossas necessidades e expectativas.

3. A leitura deve transcorrer em um ambiente calmo, sem interferências ou ruídos (rádio, televisão etc.). O adulto deve assumir o papel do narrador da história, familiarizando assim o pequeno “leitor” com o autor que apresenta a narrativa.
Mas depois, bem mais tarde, aprendemos a achar o ambiente adequado, formamos nosso ambiente, construímos a região aconselhável na qual podemos viajar fundo, mergulhar através da leitura. E, cá pra nós, mesmo com um barulhinho perto, se de fato estamos interessados, nada nos tira a concentração.

4. É fundamental que o adulto que está apresentando o livro à criança faça comentários sobre a aparência do volume, sobre as figuras, o formato, talvez até contando algum fato da vida do autor. Enfim, é decisivo mostrar à criança interesse em folhear o livro, demonstrando que ali, naquelas páginas, muita coisa se pode descobrir e se quer descobrir. E na hora de ler, faça-o dramatizando, com emoção escancarada. Tudo para que jamais o ato da leitura pareça algo chato ou desinteressante.
A mesma coisas faremos conosco mesmo anos mais tarde. E sempre, sempre, sempre. Quando temos um CD, um DVD, para ouvir, ou ver, executamos exatamente esta mesma operação, nos informando acerca de todos os detalhes que cercam aquela gravação.

5. Se a criança quiser tomar o livro de suas mãos e folheá-lo devagar, de qualquer jeito, “erradamente”, nenhum problema. Deixe. Não se deve ter pressa, e esse processo de convivência com o livro, no início, vai ser assim mesmo.
E será eternamente assim. Eu, aos 51, folheio alguns livros apressadamente. Outros, muuuuito devagar. Outro nem folheio, cruz-credo! Leitura, como tudo no mundo, contém maravilhas e porcarias, ofertas para todos os gostos, e a gente deve ter a liberdade de fazê-la segundo nosso ritmo pessoal.

6. Cada ilustração e cada palavra devem ser mostradas. Uma dúvida, uma hesitação? Pare, explique, volte atrás. É decisivo não perder o fio da meada. Compreender direitinho a história para gostar dela.
Sabem que a verdadeira leitura não é ler só uma vez? A verdadeira leitura é RE-LER. Porque na releitura (como quando vemos uma pessoa mais de uma vez) é que a gente começa mesmo a enxergar detalhes importantes que num primeiro olhar passam desapercebidos, que num primeiro olhar nem é possível perceber.

7. A criatividade da criança deve ser encorajada. Antes de cada cena seria interessante perguntar o que ela acha que vai acontecer.
Ora, naturalmente é o que fazemos a vida inteira, desconfiando de uma cena num filme, imaginando as possibilidades do desenvolvimento em certa altura em um texto. Somos (que bom!) incuravelmente curiosos e imaginativos, e estamos sempre nos antecipando ao que pode acontecer. É muito bom observar com atenção e paciência, para deixar rolar. Mas é ótimo também exercitar nosso dom de perceber qual o próximo lance do jogo.

8. O ato da leitura – nessa fase inicial – deve ser em conjunto. É uma ótima oportunidade para pais e filhos se sentirem juntos, unidos. Manifestando carinho, calor, o adulto envolve afetivamente a criança e a faz lembrar desse momento – a leitura – como um instante prazeroso.
Aí crescemos, e, claro, lemos sozinhos. Certos livros são fundamentais que sejam lidos na solidão. Mas outros livros e revistas, bem, é bastante legal compartilhar com a galera uma leitura em grupo, como quando alguém conta uma história em voz alta e o restante da turma se liga, estabelecendo assim vínculos e laços de amizade e de entendimento cada vez mais fortes.

9. Se a criança reagir negativamente ou não quiser terminar o livro, é importante deixar que isso aconteça. O livro não pode ser uma obrigação, uma sentença, um castigo.
Eu, por exemplo, já desisti de tanto livro nesta minha vida. Livro é como gente. Tem gente bacanérrima e gente muito mala. Tem livro mala. E livro pra lá de sensacional. A gente só precisa ter humildade para não decretar só por impaciência que o livro é mala e ponto, estamos conversados. Não. É fundamental agüentar um pouquinho para ter certeza de que não é má-vontade da gente. Se for mesmo má-vontade do livr

10. Terminado o livro, deve-se conversar com a criança sobre a história lida. Pede-se que a criança conte o que acabou de ser lido. Pode-se ir escrevendo a história, agora contada pela criança, observando o nexo entre as partes, a correta ligação entre as diversas cenas do enredo. Com isso, a criança vai aprendendo que o pensamento tem uma estrutura com começo, meio e fim.

11. Não é raro a criança solicitar que se leia mais de uma vez a mesma história. Satisfaça-a, sem maiores preocupações quanto ao retorno, repetidas vezes, ao mesmo livro. Isso serve para fixar uma identificação com determinada trama, determinado estilo, determinado assunto. Não esquecer, entretanto, de oferecer livros bem diferentes, comparando-os, indicando assim a diversidade de opções de leitura


CONSELHOS PARA UM JOVEM LEITOR

A leitura é uma ação delicada, difícil – só na aparência simples. Pega-se um livro que se elegeu, com certa incerteza (como ter certeza acerca do que vamos encontrar no miolo do volume?), e abre-se, como abrimos uma porta para entrar numa casa, num auditório, em algum espaço no qual coisas acontecerão. Não sabemos o que vai acontecer. E isso nos deixa curiosos, às vezes ansiosos, às vezes pressionados pela atenção que é preciso colocar durante o ato da leitura, essa visita a esse espaço onde muita ação e muitas personagens surgirão diante de nossos olhos.

A ação pode ser pouca lenta, complicada (mais psicológica que movimento externo) – e nos aborrecer.
Pode ser vertiginosa, cheia de detalhes, e nos deixar sem fôlego, emocionados pelos acontecimentos.
Pode ser uma ação delicada, uma única trama sem grandes lances acrobáticos ou perigosos, mas no entanto repletos de riqueza humana no que os protagonistas realizam. E isso pode nos tocar fundo. Fixar raiz em nossa memória.

Quando se fala em ação, pensa-se logo em diversão, distração. Isso faz parte, sem dúvida, porém (e que ótimo “porém” esse) uma obra literária sonha geralmente com algo maior: comover o leitor, deixar-lhe sinais de que a vida é mais rica ainda do que aparenta. E é fundamental estarmos alertas para captar esses sinais.

As personagens. Pode-se dizer “os” personagens ou “as” personagens. É substantivo comum de dois gêneros. Alguns estranharão: por que “a” personagem? Porque uma de suas fontes vem da palavra latina “persona”, que quer dizer máscara. E ser uma personagem é vestir uma máscara, cumprir à risca um papel. O autor não perdoa. Mas a personagem também não. Muitas vezes, enquanto estou escrevendo, a personagem resolve fazer coisas que eu nem imaginaria ela fazendo. A personagem tem, sim, a sua independência. Controlada por mim, mas ainda independência. Sob esse aspecto, a personagem nunca é um “túmulo”, expressão que utilizamos para definir pessoas tímidas, discretas, que não dizem nada sobre si e sobre os outros ou dizem quase nada. Num livro, as personagens são expostas cruamente, impiedosamente pelo escritor. E o leitor tem a afortunada oportunidade de (como um espião) descobrir tudo, os segredos mais invioláveis, na vida jamais mostrados, na literatura sempre, de um jeito ou de outro, exibidos. Sem, claro, que a personagem saiba.
Você, leitor, fica a par de tudo. E a personagem não irá persegui-lo, fique tranqüilo. Ela ignora o quanto você sabe.
Basta ler como se espiasse por uma fresta que o levasse a um mundo paralelo.

Sim, a literatura é um mundo paralelo. E um mundo – uau! – com a ambição saudável de examinar quase microscopicamente tudo o que neste mundo, o real, de onde escrevo, não se examina, exceto os cientistas (descobertas que só ficam entre eles no momento em que ocorrem, e que só são divulgadas tempos depois, já de uma forma um tanto simplificada). A literatura não, a literatura é um mundo secreto mas o mais democrático dos mundos secretos. O mais popular.

Por isso peço-lhe, jovem amigo que ainda está treinando olhar a página impressa pelo menos uma vez a cada dois dias: aguce os ouvidos. Ouça as palavras que o autor utiliza, o seu vocabulário. Socorra-se no dicionário se alguma delas lhe soar estranha. Escute a harmonia das frases, o ritmo dos parágrafos. A música do texto todo. A linguagem de que se utiliza um autor é como o modo de falar de uma pessoa. E uma pessoa mostra muito quem é pelo jeito como se expressa, mesmo que minta.

Ler com todas as antenas ligadas ajuda-nos a flagrar a mentira, a achar a verdade até em lugares que ela parecia nem existir, de tão singelos que são (uma estrela cabe num grão de areia, é uma idéia e uma imagem a se pensar). E, mais que tudo, a beleza. A beleza é a verdadeira verdade, a verdadeira bondade, a arte expressa com toda sua musculatura à mostra.

E, por fim, leia procurando, não só ao autor, à história que ele conta, aos personagens que ele pinta, aos cenários que descreve, à linguagem com a qual ele conversa com você. Leia procurando a si mesmo. Em algum trecho, no meio do caminho, ou até no fim, quando menos esperar, você poderá se deparar com algum fragmento do livro que diz tudo aquilo que você sempre desejou dizer ou precisou dizer e não sabia como. Agora sabe. Agora pode.

Porque leu, e, lendo, pode escrever-dizer a voz que se somou à sua e, desta forma, ajudou a sua voz a então poder, a partir da leitura, começar a desenhar o rosto que você de fato tem (até então ilegível para você), a história que é sua (e que você nem sabia que havia uma história possível de ser contada). O jovem leitor em geral não descobriu ainda que somente com a leitura ele conquista não apenas o conhecimento “externo” do que muitos escritores quiseram dizer e incontáveis histórias e as figuraças que vivem essas histórias, conquista não apenas uma “cultura”, a permitir-lhe ser, inclusive, um bom falante e um bom ouvinte. Mais que isso, conquista a si e começa enfim a infinita aventura de desvendar os mistérios que ele próprio carrega, há anos.


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Paulo Bentancur é Escritor, poeta, crítico, oficineiro on line em 6 gêneros. 
 Autor de A solidão do Diabo (contos), Bodas de osso (poemas) e Três pais (infanto-juvenil). 

Foi premiado com o Açorianos em três categorias diferentes 5 vezes.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Três mil curtidas do BAP no facebook, comemoremos!!


POESIA & MÚSICA NA BOCA: "Tu Estrella" de Maite Voces

POESIA & MÚSICA NA BOCA
"Tu Estrella" de Maite Voces
Voz: Adriana Aneli
Música: SalamanRai

Tua Estrela

Terás que deixar de acreditar
Para ser verdade
Terás que parar de querer
Para amar
Terás que cair
Para curar tuas feridas
E morrer mil vezes
Para existir
Deverás fechar os olhos
Para ver
E calar
Para encontrar tua voz
Dormir no bosque
Para ouvir teu coração
Morar no deserto
Para encontrar os outros
Deverás, enfim.
Aninhar-te na dor
Para conhecer o gozo
Enxergar o horror
Para reconhecer a beleza
Alojar o tigre
Para ver o cordeiro
E dar a tua roupa
Para encontrar o ouro
Deverás desnudar-te
Para construir tua casa
E andar
Andar indefeso
Para forjar tua espada
Saber que na lama
Encontrarás tua estrela
E no metal mais duro
Os coração mais terno
Deverás, enfim.
Desmembrar-te
Voltar para trás.

- maite voces

* tradução livre de poema musicado pela banda espanhola  SalamanRai.

( Assista ao videoclipe no Youtube )

Tu Estrella

Tendrá que dejar de creer
Para ser fiel
Tendrás que dejar de querer
Para amar
Tendrás que caer
Para curar tus heridas
Y morir mil veces
Para ser
Deberás cerrar los ojos
Para ver
Y callar
Para encontrar tu voz
Dormir en el bosque
Para oir tu latido
Arraigar en el desierto
Para saber de los otros
Deberás, en fin
Anidar en el dolor
Para conocer el gozo
Mirar el horror
Para saber de la belleza
Alojar al tigre
Para ver al cordero
Y regalar tus ropas
Para saber del oro
Deberás desnudarte
Para construir tu casa
Y andar indefenso
Para forjar tu espada
Saber que en el barro
Encontrarás tu estrella
Y en el metal más duro
El corazón más tierno
Deberás, en fin
Descuartizarte
Volverte del revés
Sevér led etrevlov

POESIA NA BOCA. "Siamesas" de Cristina Arruda

POESIA NA BOCA
"Siamesas" de Cristina Arruda
Voz: Adriana Aneli


Nascemos numa biblioteca
E lá enamoramos
de nossos talentos
Amizade brotando
Flores,versos
Desenhos,pinturas
Também brotaram
Filhos,amores
Em nossas vidas-irmãs
Ligação de vida,sina
Braços unidos num só abraço
Filhas da Arte
Amigas no sempre

- Cristina Arruda (poema e ilustração )
Para Adriane Garcia

POESIA NA BOCA. "Desexistir" de Frederico Barbosa

POESIA NA BOCA
"DESEXISTIR" de Frederico Barbosa
Voz: Adriana Aneli

Quando eu desisti
de me matar
já era tarde.

Desexistir
já era um hábito.

Já disparara
a autobala:

cobra-cega se comendo
como quem cava
a própria vala.

Já me queimara.

Pontes, estradas,
memórias, cartas,
toda saída dinamitada.

Quando eu desisti
não tinha volta.

Passara do ponto,
já não era mais
a hora exata.

- frederico barbosa, Na Lata

POESIA NA BOCA: Homenagem à Leila Míccolis

***** POESIA NA BOCA - EDIÇÃO ESPECIAL *****

*****  HOMENAGEM À LEILA MÍCCOLIS *****

TRÊS POEMAS DA AUTORA
nas vozes de Chris Herrmann, Adriana Aneli e Paulo Magalhães

TOCAIA

Quando te encontro sem que te assustes,
sem que te encoste contra a parede,
sem que puxes o cabelo,
desesperado,
sem que peças o último pedido,
como um condenado desperto na madrugada da execução,
sem que te sintas sufocado e preso entre dois andares,
sem que te firam vidros e te cortem pulsos,
pressinto ser inútil a emboscada.


NOVO AMOR

Meu coração nunca pára
pra comparar, solta amarras,
vive seu tempo presente:
se ferido, em mim se ampara;
mas quando sara e se sente
contente, fica eloquente,
feito algazarra de araras.


ATIRADOR DE FACAS

Arrancar as vendas
e acompanhar,
de olhos abertos,
a trajetória do punhal,
cravado em nosso corpo, em nosso peito,
a cada amor desfeito.


- Leila Míccolis:
Carioca, Mestre, Doutora e com Pós-Doutorado em Teoria Literária (UFRJ), escritora de livros (30 editados, poesia e prosa, com obras publicadas na França, México, Colômbia, África, Estados Unidos e Portugal), escritora de novelas de TV, entre elas: “Kananga do Japão”, “Barriga de Aluguel” e “Mandacaru”, teatróloga, roteirista de cinema. Elaborou verbetes para a “Enciclopédia de Literatura Brasileira” (MEC/OLAC). Coedita, com Urhacy Faustino, Blocos Online, na Internet há dezoito anos. Em 2012 publicou pela Annablume, SP, o livro “Desfamiliares” – Poesia Completa 1965 – 2012.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

""" POESIA NA BOCA """ EDIÇÃO ESPECIAL COMEMORATIVA""

A OFICINA DO ESCRITOR – II

por Paulo Bentancur 


DEZ MANDAMENTOS PARA ESCREVER O MELHOR QUE FORMOS CAPAZES DE FAZER E, ASSIM, O MELHOR... 

7) Escolha um gênero. E fique nele. Dificilmente um único escritor é um bom contista, um bom poeta, um bom romancista, um bom cronista e um bom ensaísta. Isso até existe, mas são exceções, tão raras, que entre 500 nomes que facilmente lembraremos de gente que acertou num único gênero encontraremos somente dois ou três nomes que acertaram em mais de um. Até dois gêneros pode ser, mas gêneros, digamos assim, irmãos. Como prosa de ficção e crônica, vide Luis Fernando Verissimo. Ou o argentino Julio Cortázar, em narrativa longa (seu romance O JOGO DA AMARELINHA, por exemplo) e os contos, pelos quais ele é mais conhecido (AS ARMAS SECRETAS, OCTAEDRO e mais uns dez títulos). Exceções. A regra é Drummond: poeta, mesmo que tenha escrito um livro de contos e uma meia dúzia de livros de crônicas. Erico Verissimo é romancista, mesmo que tenha escrito livros de viagens, de contos, de memória. Na verdade, muitos autores aventuram-se em mais de um gênero, mas acertam, plenamente, em só um. É normal. Todos nós, afinal, temos uma dicção, um ritmo, um olhar sobre o mundo, os homens, as coisas, a vida. Essa ótica é uma das definições de gênero. Erico Verissimo tinha fôlego de romancista, e seu fôlego contaminava sua imaginação, que convocava várias personagens e várias situações só cabíveis numa narrativa longa, como o romance, nunca como o conto. Uma vez eleito qual o gênero para o qual você se sente vocacionado, aconselho a que leia os melhores autores desse gênero, para que você fique na freqüência certa do gênero que escolheu. Quando dedicar-se a praticá-lo, vai já estar familiarizado com os desafios naturais do gênero que desejava desenvolver. E poderá vencer seus desafios com mais facilidade. Como no futebol, goleiro é goleiro, centroavante é centroavante, na literatura, romancista é romancista, poeta é poeta, autor de literatura infanto-juvenil é autor de literatura infanto-juvenil. Quem não conhece Ziraldo? Quem não conhece O MENINO MALUQUINHO, FLICTS, ABZ? Certo. Mas sabiam que ele escreveu um romance para adultos? Deu tão errado que ninguém lembra nem o título do livro. Nem eu. 

8. Publicar mal é pior que ficar inédito. Uma vez escrito seu livro, da melhor forma e com opiniões confiáveis, é hora de publicar. E aqui entra uma revelação que poucos sabem. Publicar bem é tão difícil quanto escrever bem. E publicar por publicar é publicar mal. Nesse caso, melhor ficar inédito. Seu livro ainda tem chance em concursos literários para inéditos e continua a ter chance com uma boa editora, vá lá se saber. Publicar bem é simples, embora complicado. TEM DE SER somente com as boas editoras, que são RARAS, repito, RARAS no Brasil, umas oito ou dez, não mais que isso, entre mais de 300 editoras associadas na Câmara Brasileira do Livro. Só estas oito ou dez farão: 

1) uma edição visualmente atrativa e com um acabamento caprichado e seguro, costurado, com capa plastificada; 

2) uma boa distribuição e comercialização, o que é fundamental para seu livro circular e, portanto, ganhar visibilidade; 

3) uma boa divulgação junto à mídia, proporcionando chances de você ser comentado nos espaços culturais; 

4) promoções em Departamentos de Marketing (as boas editoras, RARAS, repito, têm departamentos de marketings). 90% das editoras nunca tiveram, não têm nem terão isso. No Rio Grande do Sul só existem duas editoras que se pode chamar de profissionais. Uma publica literatura, outra, só livros técnicos. Todas as outras estão em Rio e São Paulo. Nenhum outro estado possui uma editora decente. 

 9. Antes de publicar, teste seu livro em concursos literários. Os concursos literários são a melhor vitrine que existe para o autor ainda não consagrado. Mas existe um importante cuidado que devemos tomar: o mesmo da crítica do compadrismo e o da crítica para valer vale para os concursos. Só vale a pena participar de concursos sérios. Poucos são. A maioria dos concursos são caça-níqueis, cobram inscrição (nunca participe de um concurso que lhe cobre inscrição) e dão de prêmio apenas diplomas, troféus ou publicação numa coletânea com mais uma dúzia de gente que nada tem a ver com a literatura que você faz. Concurso sério SEMPRE tem dotação orçamentária para pagar um prêmio ao vencedor, e isto já é um atestado de seriedade, de acerto em dar a devida valorização ao ganhador. No Rio Grande do Sul, prêmio sério é o Josué Guimarães, da Jornada Nacional de Passo Fundo, por exemplo. No Brasil, o Prêmio Luiz Vilela de Contos, o Ignácio Loyola Brandão, de Araraquara, em São Paulo. Estes todos para contos isolados. Já o Prêmio Minas de Cultura, e o Prêmio Nacional de Ficção da Bahia são para livros inéditos adultos. Para infanto-juvenil, o Barco a Vapor, das edições SM. E ainda tem o Casa de las Américas, em Cuba. A cada ano mudando de gênero (conto, romance, infanto-juvenil, ensaio). Para livros publicados, o Jabuti, o Portugal Telecom, o Cidade de São Paulo, o Biblioteca Nacional e o da Academia Brasileira de Letras. Nos prêmios para livros inéditos, você beliscando um desses, já terá a porta aberta de alguma editora. Os editores consideram um prêmio desses que citei um aval mais que suficiente para eles publicarem você. Vale a pena tentar, não é? 

 10. Não ser premiado não significa nada. Insista! Conheço maus livros que ganharam importantes prêmios (às vezes a comissão julgadora é muito heterogênea e não chega a acordo algum nos seus votos, levando a um resultado imprevisto) e conheço ótimos autores que concorreram a, digamos, dez prêmios, não ganharam nenhum, e depois de publicados caíram nas graças da crítica. Portanto, ganhar um prêmio é ótimo, ajuda na sua carreira, mas não ganhar não significa que seu trabalho não tenha valor. 


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Paulo Bentancur é Escritor, poeta, crítico, oficineiro on line em 6 gêneros. 
 Autor de A solidão do Diabo (contos), Bodas de osso (poemas) e Três pais (infanto-juvenil). 
Foi premiado com o Açorianos em três categorias diferentes 5 vezes.