quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A AVENTURA DE UM ESCRITOR

por Paulo Bentancur


A vida, sabemos todos, está em toda parte. Longe daqui, perto daqui, e aqui! A vida está na rua, na escola, na praia, no estádio de futebol, na tevê, no computador, na convivência com os amigos, nos livros – e no blog. Eu vivo tudo isso. Tudo. O que se esconde e brinca de pegar com nossas emoções no inconsciente de cada um. Cada ser humano tem mais um por dentro. Somos um eterno mistério e somos várias pessoas em uma só. Isso não deve nos confundir, mas, pelo contrário, fazer com que nos sintamos ricos, um ser que vale por uma humanidade inteira.

Vejo, pela tevê a cabo, de madrugada (quando paro de ler ou de escrever por cansaço ou fastio ou porque o texto chegou numa encruzilhada na qual não sei para aonde vou), filmes de que gosto: de vários gêneros, alguns impensáveis. Tento assistir aos jogos de futebol do meu time quando acho que ele anda confiável. Ultimamente acho-o bastante irregular, e assim, quando o time entra em campo, me escondo debaixo da cama e rezo que os 90 minutos passem logo. Se o time ganha, nem vibro tanto assim. Sinto, na verdade, um grande alívio. No dia seguinte estarei livre da flauta dos torcedores fanáticos do inimigo, espécie com a qual, admito, não tenho a menor paciência. Fanatismo é muito besta – em qualquer coisa, seja no futebol, na religião, em política... E não sê-lo acho bonito. Uma espécie de vitória maior que qualquer outra. Gosto de assistir tênis. Os grandes jogadores: Novak Djokovic, Rafael Nadal, Roger Federer. Enfim, os dez melhores no ranking da ATP – Associação de Tenistas Profissionais. Meu único vício é o cafezinho. Não bebo nem fumo. Mas cafezinho, chego a beber uns dez por dia. Talvez por causa do meu ritmo acelerado (sou mesmo um menino maluquinho, já um TAAAANNNNTO crescido). Sabemos que a cafeína é um estimulante, e o café ajuda a me manter alerta, na ponta dos cascos, com fôlego para viver, ler, escrever.

Aliás, ler faz parte de viver. Escrever faz parte da vida. Parte essencial, essas duas ações criativas. E vida é criar, criar-se. Quando leio, leio sobre vidas que se somam à minha. Quando escrevo, escrevo sobre vidas imaginárias que, de alguma forma, vivem o que eu gostaria de viver ou o que eu jamais gostaria de viver (se, por exemplo, escrevo uma história dramática). No entanto, lendo sobre outras vidas e escrevendo sobre outras vidas, é, de certa forma, como se eu vivesse muitas vidas, além desta vida aqui, externa, na qual estou mergulhado e neste instante compartilho com vocês, que me leem. Gosto muito de conversar, outro vício além do cafezinho. Acho que em sua maioria as pessoas não sabem conversar, não sabem escutar. Não sabem nem olhar direito. Tudo porque não leem. Eu, a cada papo, ganho um novo amigo ou acrescento mais amizade na amizade que já tinha. A cada novo papo torno um desconhecido em conhecido. Um estranho num parente. Um inimigo, talvez, num amigo possível. Vivo assim, com sede de descobrir, e trato de ir atrás, como um detetive corro atrás de tantas coisas que, neste mundo de infinitas possibilidades, ficariam paradas como um poste e fechadas como uma porta trancada dando para uma sala vazia se eu não tomasse a iniciativa de conquistar esse novo espaço e utilizar a maior de todas as forças, a do conhecimento, a mais eficiente das ferramentas, a das palavras a me proporcionarem ideias sólidas, capazes de me ajudarem a atravessar as fronteiras entre o que ignoro e o que descubro logo a seguir, e que muitas vezes alguns tentam destruir com bobagens, preconceitos – coisa de quem não lê.

Ler é ver. Uma caneta é uma caneta, para todo mundo. Mas se alguém sabe como se fabrica uma caneta, certamente saberá enxergar essa caneta muito melhor do que quem olha esse artefato e não sabe como o construíram. A desinformação nos impede de entender o que os olhos capturam. É nossa mente brilhante que conta tudo aos nossos olhos, e então SA-BE-MOS o que efetivamente estamos vendo. E, desta forma, vemos mesmo. Vemos muito melhor. É com o olhar das palavras que eu os vejo. E, espero, tomara que seja com esse olhar que vocês estejam me vendo também. Nosso entendimento será grande e nossa simpatia e admiração de uns pelos outros maior ainda.

Tudo porque escrevo. E há gente que me lê. O encontro, marcado, então se dá – e é perfeito.



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PAULO BENTANCUR, nascido e residente em Porto Alegre,
é escritor, crítico, oficineiro, tradutor e assessor editoral.

5 comentários:

  1. Este texto de Paulo Bentancur, é antes de mais nada, um chamado, um convite a que iniciemos viagem pelo mundo da escrita e da leitura. A sua humanidade se revela nesta descrição do seu cotidiano, com o qual muitos se identificam, por amantes das Letras.
    Seu olhar através da Palavra, nos instiga ao conhecimento, que uma vez adquirido, será sempre um conteúdo a ser expressado àqueles que tem sede de saber.
    Uma maravilhosa apresentação, onde o autor encerra o desejo
    de que possamos nos unir neste contexto de novas possibilidades, através da escrita e leitura, resultando numa relação de respeito e admiração mútuas. Parabéns a todos por mais este projeto!

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  2. Li-o Paulo Bentancur. E sei um tantinho sobre vidas e sobrevividas! Haja palavra! Bem-haja!

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  3. Que maravilha de comentários. Agradecemos muito, Helena e Tere!
    Abraços poéticos!!

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  4. Belíssimo, generoso e estimulante comentário, poeta Helena da Rosa! Pelo que agradeço e nada tenho a acrescentar após minha postagem e teu comentário tão sumarento, envolvido com o texto lido. Estás também de parabéns, querida amiga. Beijo e um bom domingo.

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  5. Tere Tavares, poeta, ser lido por ti é sentir-se lido de fato. O artigo ganha eco e se enriquece com tua recepção. Abraços e um ótimo domingo.

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