sexta-feira, 3 de março de 2017

Não deixe o samba morrer...


A recente obra de Lira Neto, em seu primeiro tomo: “Uma história do Samba – as origens”, não esconde a vasta bibliografia e o excelente trabalho de pesquisa, a trazer consigo a mensagem de preocupação, mudança e otimismo – como irreverência – que à festa condiz.

Dispensado de enaltecer o estilo e demais atributos de obra de fôlego, há que relevar a narrativa dedicada a Noel Rosa, em suas implicações e submissão imposta por Almirante, quando participante do Bando dos Tangarás, além da descrição irrepreensível e contida da morte de Sinhô. Outras e muitas cenas mereceriam destaque, mas ambas se mostram suficientes para indicar o escritor e o trajetória árdua de Autor.

Quem dele conhece a biografia “Getúlio”, igualmente, dispensa maiores elogios e comentários.

Acresce, ao cabo, que a leitura durante o feriado de Carnaval, coincide com as mudanças alvissareiras impostas ao de 2017, a parecer que todos, carnavalescos, bloquistas, escolares do samba, foliões, rufiões, polícias e prefeituras, além de tudo e mais o restante, coincidem com a fala de Lira e o retorno do Carnaval às suas origens populares. E, desta forma, a se escapar ao confinamento imposto a mais esta Festa popular, por um inescondível domínio midiático daquilo que se convencionou chamar de “grande imprensa”.

O Carnaval retoma suas origens de alegria, devassidão, excessos e quejandos, como deve e como sempre foi e será; finalmente, o povo se liberta da escravidão dos vídeos e das cordas e invade cidades, às vezes, até, esparramando sem licenças o conteúdo de mictórios químicos.

O momento não pode ser melhor, quando atravessa o país mais uma crise de governança, corrupção, obscurantismo e incapacidades diariamente postas a nu – como ao seu rei e seus acólitos – expoentes de sem-vergonhices condizentes ao fim de qualquer império.

Voltam os foliões, fantasias e máscaras ao deslumbramento e à veracidade que, às caras-limpas, não conseguem escapar os colarinhos sujos e os punhos puídos.

Ô abre-alas que eu quero passar!

Caetano Lagrasta


quinta-feira, 2 de março de 2017

OITO PERGUNTAS A PENAS com VALÉRIA TARELHO


Valéria Tarelho, natural de Santos/SP (1962), residente em São José dos Campos/SP, separou-se da advocacia devido a um caso com a poesia. Seus primeiros escritos datam de abril de 2002.
Publica no Livro da Tribo, desde a ed. 2004, tem poemas em livros didáticos do ensino fundamental e ensino médio, antologias, poemas musicados e encenados no projeto Poeta em Cena, 2009, da Casa das Rosas. Escreve no site "escritoras suicidas" (http://www.escritorassuicidas.com.br), em seu blog pessoal, "textura" ( http://valeriatarelho.blogspot.com ).
É autora de “O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP”, Ed. Penalux, 2016, mãe de quatro, esposa de um, avó em exercício, advogada em extinção. Quando crescer, quer ser poeta.





entre o sol e a solidão
amores chegam
e saem
amores cegam
e sabem
semear
o que impressiona
ser
o que impulsiona
são degraus
na escuridão
amores
sempre serão
míticos
egoísticos
apocalípticos
ego & psique
narciso & eco
apolo & jacinto
céu & chão 

Valéria Tarelho,
em “O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP”,
pgs. 18/19, Ed. Penalux, 2016






BAP1: O que a motivou a ´se divorciar da advocacia´ e ´casar com a poesia´? Foi uma decisão repentina ou está ideia já existia antes?

Valéria Tarelho: Na verdade, eu jamais cogitei escrever algo além das minhas petições. A própria leitura era voltada para livros jurídicos e afins. E não posso culpar a falta de tempo, simplesmente não havia interesse. A poesia passou por mim aos 18 anos, quando ganhei uma antologia de poemas de Vinicius de Moraes. Gostei, lembro que fiz diversos grifos, mas não me aprofundei em leituras, gostava mais de cantarolar Vinícius, do que ler seus poemas. A segunda vez foi através de um livro de literatura do Anglo, onde fui apresentada a Gregório de Matos e Camões (entre outros que não recordo), mas ficou apenas o registro mnemônico de algo agradável. Fui conhecer autores como Leminski, Cacaso, Alice Ruiz, quando ganhei uma agenda da Tribo (1997) e me encantei, sem sequer imaginar ou ter a pretensão de escrever e publicar na agenda que, futuramente, seria o maior e melhor veículo de divulgação do que se tornou um compromisso de fidelidade com a minha existência: escrever poemas.
O caso e posterior casamento com a poesia aconteceu repentinamente. Em 1999 mudei de cidade e fechei meu escritório, passando a advogar esporadicamente. Em 2000 nasceu meu quarto filho e dediquei-me integralmente a ele, até que em 2002 ele foi para a escolinha e fiquei “caçando” o que fazer, comecei a fazer alguns layouts para sites e criei um próprio, de envio de mensagens. Começou aí uma busca incessante por autores para publicar no site e fui me fascinando com esse universo, até então, nebuloso. Não houve nem tempo para flerte, foi namoro sério e casamento relâmpago, quando percebi eu já estava rabiscando uns versos sem técnica alguma ou conhecimento (minha leitura mal alcançava os poetas contemporâneos, imagine os clássicos, ou seja: bagagem zero que desencadeou em uma escrita intuitiva).


BAP2: Seus primeiros escritos datam de abril de 2002. A internet a influenciou, ou os primeiros poemas não foram publicados na rede? 

VT: Sim, a Internet teve total papel de cupido nesse meu relacionamento com a poesia. Assim que me envolvi com os textos de autorias diversas, fui invadida por uma necessidade de me expressar não somente através do olhar do outro, eu precisava gerar meus próprios filhos.
Passei a frequentar grupos de poesia no Yahoo (Gaiola Aberta, Poetas Urbanos, Orpheu, etc...), divulgar poemas na Usina de Letras, blogue pessoal, até que em 2004 tive dois poemas publicados na agenda dos sonhos, o Livro da Tribo, onde me publicam desde então. Foi a primeira vez que vi meus versos impressos no papel , e experimentei a inusitada sensação de que havia algo de valor naquela “brincadeira”.
No fim de 2004 conheci Frederico Barbosa, que foi o maior divulgador do trabalho que eu, timidamente, vinha apresentando (e ainda considerava um hobby). O Fred inseriu poemas meus em suas apresentações no Itaú Cultural, levou-me ao centro do “furacão”, onde a poesia fervilhava em São Paulo, divulgou-me em palestras, entrevistas e onde quer que fosse falar de poesia, especialmente a poesia divulgada pela Internet. Sou especialmente grata a ele pelo impulso que deu ao meu nome no meio literário, cujo ápice, considero a dramatização de meus poemas em 2009, no projeto Poeta em Cena, que ocorreu na Casa das Rosas.
No meio desse trajeto, aconteceram outros felizes encontros como publicação em revistas literárias (Germina, por exemplo), parcerias musicais, publicação em livros didáticos, o grato convite para escrever no site Escritoras Suicidas, e posterior antologia (Dedo de Moça). “Trair e coçar, é só começar”, de fato! A partir do momento em que traí o Direito e o abandonei, não houve um instante sequer de pausa ou paz, porque poesia é um constante estado de alerta e de transbordamento.


BAP3: Como você definiria sua poesia? Se preferir, responda com um poema.

VT: Deixo para os que entendem do assunto essa definição, pois realmente não sei “rotular” o estilo (ou falta de). Sou apaixonada pela palavra e suas múltiplas facetas, amo brincar com jogos de sonoridade, neologismos, já fiz muito uso de estrangeirismos, mas não sei definir esse tipo de escrita (que, muitas vezes, fica mais explícita no papel, do que ao ser declamada). Há um poema que foi publicado em 2015 no livro didático Vozes do Mundo, Ed. Saraiva, do terceiro ano do Ensino Médio, em que falo dessa liberdade de escrita, de voos cegos , que transcrevo abaixo. Detalhe: o voo é tão às cegas, que não sei responder às questões formuladas no livro (risos envergonhados)

livre para voar

quanto mais penso
mais propensa fico
a cometer lapsos
então disperso
dispenso o caso pensado
preencho o poema
com passos errados
traçados em labirinto
sobre linha tirolesa
um porre de letras bêbadas
invadindo o espaço
rindo alto
do abismo
ao salto

VT

Este outro, abaixo, toca mais no lado do gosto pessoal, pois considero que minha escrita não é unanimidade (como nada neste mundo é, graças aos céus ou infernos) em termos de aceitação pela grande massa:

mal ditos 

exercito a língua
excito o verso
exorcizo a rima
- práticas nem
sempre exatas
meus poemas têm
espí
rito
de poucos –

VT

BAP4: “Poetas não leem poetas.” Esta afirmação, para você, é verdadeira?

VT: Eu não me reconheço, enquanto poeta, sem que a leitura (e até escrita, pois muitas vezes sou instigada a cometer “diálogos”) fosse outra que não a de meus pares. E, como pares, me refiro aos autores que estão no mesmo barco, alguns à deriva, outros no rumo, nas águas mansas ou turbulentas da poesia. A maioria dos livros de poemas de minha estante são de poetas contemporâneos , mas de uma contemporaneidade e atuação semelhantes à minha. Quase todos conhecidos através dos blogs e redes sociais. Sinto o maior prazer quando posso comparecer a lançamentos de livros e me alegro com suas conquistas, como se fosse comigo. E não deixa de ser, pois a poesia obtendo o mínimo destaque, é motivo de satisfação pessoal, por vê-la valorizada.

BAP5: Você passou por momentos muito delicados de saúde. Esta experiência deixou rastros conscientes na sua poesia? Quer trazer um poema que aborde esta temática?

VT: Em 2013 descobri um câncer de mama, passei por cirurgia, quimioterapia, radioterapia e atualmente me encontro em tratamento (hormonioterapia), mas apenas para diminuir as chances de recidiva. Tive sorte de detectar a neoplasia logo no início, mas é sempre um susto e , a princípio, perdi o chão, mas logo me apoiei no que considero um grande trunfo nessas ocasiões: o bom humor. Ri de minhas “zicas”, escrevi ironizando várias situações e isso me manteve forte no decorrer do tratamento, que é extremamente invasivo. Não creio que exista um rastro ou que o câncer tenha sido um marco na minha escrita, abordei o assunto, mas não senti que houve esse tipo de “sequela”. Passeando por meu blog no período de outubro de 2013 em diante, poucos foram os poemas que encontrei que remetiam ao fato. Pessoalmente sim, aconteceu uma reviravolta interior, diria até que um renascimento, pois passei a valorizar mais a vida e me certifiquei que não é só com o vizinho que o mal acontece. Sou mortal, veja só, jurava que não! Também passei a usar de minha experiência para auxiliar quem está passando pelo mesmo problema, seja orientando, doando lenços, ensinando a “pentear” os novos cabelos de pano, com lindas amarrações e o que mais estiver ao meu alcance.
 

O poema a seguir relata uma fase em que eu fazia diversos exames de imagens e de muitos medicamentos:

posologia

a poesia
precisa
de pausa
em drágeas
a loucura
procura
uma paz
mais líquida
tem dias
que sou
- subcutânea -
e dias
de pura
ira
intrave[ne]nosa
rasgo
a rima


VT

BAP6: Existe uma tendência a criticar certos temas na poesia contemporânea (amor, céu, estrelas, lua, borboletas, etc.) como sendo um clichê. Como você vê isso?

VT: Vejo, então, que sou clichê, segundo a crítica. Falo de amor, quase que de uma forma “monotemática”. Meu livro “O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP” aborda os amores mal resolvidos, platônicos, proibidos, enfim, amores que por algum motivo, não habitam o sentimento em si. Falo muito de flor, das nuances do céu, tenho poemas em calendário lunar, poemas onde “eustrela / youniverso” reinam e as borboletas do estômago são as coisinhas mais lindas!
Que venham as críticas, porque enquanto a poesia acontecer como manifestação do “olhar”, absorção celular, encantamento, estranheza, incômodo ou qualquer causa que gere o efeito poema, irei abordar o tema e espero que outros autores também sigam a sua tendência.


Citando o Poeta:

"Parece que o poeta serve para desacomodar as palavras.
Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto.
Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia.
Celebrar moscas é um exemplo de como podemos ampliar o mundo.
Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa.
Poesia não presta para demonstrar nada.
Ela só presta para dar néctar." 


Manoel de Barros em entrevista a Douglas Diegues.
— Silêncios, nadas e borboletas. Uma entrevista de Manoel de Barros a Douglas Diegues. Prólogo de Wilson Bueno. Edição de Walther Castelli Júnior, Campinas, SP; 1997)

BAP7: Na sua opinião, o que falta para a leitura de livros de poesia ficar mais presente nas escolas?

VT: Em 2005 e 2006 participei do Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves-RS, especialmente no projeto do autor em sala de aula e acredito que se tal ideia fosse levada às escolas em geral, haveria mais interesse na leitura dos livros de poemas. Apresentar autores que falam a mesma língua da juventude também aproxima o aluno desse tipo de leitura que muitas vezes pode parecer maçante pela forma que o tema é abordado. A publicação em livros didáticos, de autores da atualidade é um fator relativamente novo, lembro que só li autores mortos em meus tempos de escola. Creio que essa mentalidade está mudando e que essa mudança só agrega benefícios tanto para quem escreve, quanto para quem lê.

BAP8: Como surgiu o livro „O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP”? Fale um pouco do projeto à publicação.

VT: Como tudo que faço nesta vida, o livro surgiu sem muito planejamento, aliás, foi no atropelo que tudo foi acontecendo porque tive problemas de saúde na família, depois me submeti a uma cirurgia e não pude me dedicar ao livro como gostaria.
Os meus queridos editores Tonho França e Wilson Gorj há muito que tinham intenção de me publicar, mas eu tinha um contrato com outra editora desde 2012, de um livro intitulado Sol a Cio que (desconheço o motivo) não foi publicado. Graças à insistência e paciência de Tonho França, acabei aceitando a oferta e passei a selecionar poemas nessa linha dos (des)amores, assim que decidimos o título. A Penalux foi uma mãe para mim, desembaraçando todos os meus nós e carregando no colo esse projeto. Como eu vivia no hospital acompanhando sogro e sogra adoentados, a seleção dos poemas ficou a cargo da editora, só palpitei nas cores da capa (linda) criada pela Patricia Paulozi, mas devo a eles a realização desse sonho. O primeiro livro, aos 54 anos, é mais que um filho, já nasceu sendo um neto mais que amado. O livro tem prefácio de Múcio Góes e orelha por Sidnei Olívio, poetas queridos e admirados, dos quais sou tiete. Pense em uma felicidade!




__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli


quarta-feira, 1 de março de 2017

Amor ao próximo



Hoje, para começar a conversar com vocês, meus queridos leitores, preciso citar um pequeno trecho de um artigo; que, ao ler, me tocou realmente...

Atentem, por favor!

“A terra se tornaria inabitável, se cada um deixasse de fazer por polidez, o que é incapaz de fazer por Amor; o mundo seria quase perfeito, se cada um conseguisse fazer por amor, o que se faz por polidez” (C. G. Thiban).

Ao analisar com calma esses pensamentos, vejo-me diante de uma grande verdade no nosso dia: nos preocupamos com ser socialmente delicados, mas nos comportamos, ao enfrentar determinadas ações, apenas com “gentilezas”; demonstramos nossa compreensão – e com isso tudo queremos que reconheçam a nossa boa vontade com o próximo, que nos solicita humildemente.

Segundo meu ponto de vista, estou agindo bem e posso tranquilizar a minha consciência. Mas – o célebre mas – após ler o pequeno pensamento que eu transcrevi, comecei a considerar as minhas atitudes diante do próximo que me procura... E então cheguei à  conclusão de que ainda está faltando algo mais, nas minhas atitudes bondosas.

Sim, é claro: está faltando o verdadeiro sentimento, tão e tão solicitado pelas pessoas carentes: AMOR.

Faltou, repito: faltou amor de verdade. Vamos praticá-lo!

Meus amigos e amigas, eu sei que por em prática o que eu estou pedindo não é fácil.

Vamos, então fazer um pacto sentimental com todos os meus queridos leitores neste ano de 2017: nós queremos e seremos verdadeiramente amorosos com os que nos procuram nas horas mais difíceis das suas vidas!

VIVA O AMOR AO PRÓXIMO!

Obrigada a todos,

Nida.

NIDA DEL GUERRA FERIOLI (96 anos) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014);  Professora de italiano; Autora dos livros “Vivendo a Vida” e "Le Ricordanze". Colunista do “Papos de Anjo”, na página literária Boca a Penas (BAP).
É mãe de Eliane, avó de Marcello e Valeria e bisavó de Thais e Maitê.



domingo, 26 de fevereiro de 2017

De princesas e sombras


 "A cada dia respiro o pó do outro dia"


Sombras, sempre dúplices: existem sombras quando o sol poente atravessa folhas e se esparrama no chão.

Moro, (não aquele dos processos e sentenças; o das condenações vesgas e turvas sombras más) declina histórias, mulheres e spleens – às custas de Baudelaire e um tanto de cheganças ao sexo e aos goles – na sensação de incompletude, a beirar ao trágico, quando não à farsa.

Mas, “existem praias tão lindas e cheias de luz”, onde criança espera encontrar a “princesinha do mar” e lá se vai ele... De um Rio de Janeiro tão distante dos americanenses ou paulistanos... à casa de um velho tio, tão pesado que jamais se imagina ir, dentro dos 40 graus da cidade e “vive a murmurar/só a ti Copacabana eu hei de amar”. Táxi tomado, desapoitam da Lapa à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sem tugir ou mugir, por entre suores, bufos e spalanzanis: navegantes!

A criança que em qualquer um nunca morre, desce do táxi com olhos brilhantes, ao sol sem ver as sombras dos oitis, mulheres, biquínis, a adivinhar princesinhas ou putinhas; na praia, areias murmuram, esperando a longa caminhada pelo avenidão de portugueses ladrilhos, a imaginar o aluguel da cabine: vestir o calção e mergulhar num mar gelado de esperança e luz...

Mas, o cansaço do tio, arfando e com a camisa toda ensopada, chega-se:

- Está vendo este prédio?

- Sim, responde Moro (por todas as crianças), aflito.

- Pois é, daqui até o fim é tudo igual, vam’bora!

E o táxi, nem bem faz a curva, passageiros retomam o trajeto melancólico ao Jardim de Alah.


Caetano Lagrasta, livre-inspirado em “Alameda das Sombras”, de Marcelo Moro (Ed. Scenarium, 2016), no Carnaval de 2017.







domingo, 19 de fevereiro de 2017

...um fantasma percorre o Brasil

Resenha: Os Despossuídos: debates sobre a lei referente ao furto de madeira, de  Karl Marx (Ed. Boitempo, 2017).

Por: Caetano Lagrasta Neto.



Sou eu, perdoem-me; sou eu, Karl Marx.

Acredito que não será nem o primeiro e nem o último de meus esvoaçantes retornos a este país e seu Continente. Enquanto vagueio de um lado a outro, muito à miúde, me pego com ganas de promover uma verdadeira Revolução e sempre a perder o pelo, mas, o vício cresce.

Tentamos nos sertões, com Conselheiro; Prestes, Gregório Bezerra e Marighela; Gramsci o fez com Leandro Konder ou Carlos Nelson Coutinho; acredito que nestas andanças cruzei com Rosa Luxemburgo, o que não faz muito tempo, mas em todas não foram ultrapassados medíocres ensaios.

Outro dia, num desses maravilhosos desvãos em que se metem os mortos, caiu-me às mãos, três antigos escritos que enviei para a Gazeta Renana, lá pelos idos de 1840 (aqui publicados sob sugestivo título: “os despossuídos”, pela editora Boitempo) onde escrevia eu, sob os ardores da juventude, sobre a lei do furto de madeira.

Num país como este, pus-me logo a pensar, a madeira, as terras da Amazônia e de outros Estados bem grandes, os aborígenes etc, forneceriam uma temática – ainda que requentada – útil, ao desencadear de algum espasmo.

Os ingredientes, com algumas alterações, estavam postos: um congresso eleito, (coisa que lutei para conseguir através do voto universal, direto e secreto, ainda que antecipando dificuldades através da facilitação ao capital de eleições dirigidas e muito bem sustentadas, a congressistas corruptos e dependentes).

Por sua vez, a madeira e a terra, além daquelas demarcadas para os índios é outra questão enfrentada sob os auspícios de um neoliberalismo atroz.

A lei aqui, fiquei pasmo, é a própria Constituição – diariamente menosprezada, rasgada e usada até para fins menos nobres, por políticos e seus partidos, juízes, economistas, industriais e tudo o mais que se preste a cegamente servir aos interesses do capitalismo mais selvagem que gravita eterno neste Continente.

Pois bem, temos a lei que é interpretada no sentido de nunca alcançar o furto (seria melhor dizer roubo, ou mesmo latrocínio, tendo em vista as violências e mortes praticadas contra os proprietários indígenas ou o bem público), detidos alguns peões escapando-se madeireiras e seus proprietários a uma verdadeira perseguição pela polícia da federação ou dos estados e à prisão, quando existem indícios veementes de chacina ou morte de lideranças, que na Renânia daqueles idos como aqui, nos de hoje, pode-se novamente concluir: “... o Estado se comporta como um vulgar segurador dos proprietários”.

Por sua vez, a propriedade demarcada é sumariamente espoliada e roubada aos legítimos donos que, diante da posição de vulnerabilidade não conseguem contrapor sequer o direito de viver, superior aos tais direitos humanos que o sucedem (liberdade, felicidade etc).

Desta forma, os capitalistas donos das serrarias (facilmente localizáveis por intermédio de objetos voadores não pilotados e satélites) continuam vivendo à rédea solta, deixando que se mostrem apreensões para justificar os salários dos policiais e o movimento do judiciário, prestando-se o sistema de governo não para garantir a todos os cidadãos proteção ou que usufruam da exploração da madeira de forma a não consumar – desde os tempos da descoberta – o mais sórdido extrativismo.

Quanto às terras, garantidas à sobrevivência indígena, ora, ora, o que o Estado garante mesmo é a exploração fundiária e o agronegócio, pois parece elementar que dar terra e não providenciar o escoamento da produção ou – aqui, sim, ao argumento de se evitar o contato desagregador à cultura indígena – não fornecer maquinário adequado para uma correta sobrevivência. Mas, nada acontece ao ladrão ou usurpador, enquanto as demarcações aguardam nos fóruns e tribunais por uma decisão definitiva – ainda que seja para ser desrespeitada.

Há que se pensar, como àquela época que ao direito de viver se sobrepôs o direito de propriedade, mas é evidente – ao menos para mim – que ambos ao visar o bem-estar e a felicidade do ser humano, se igualam e não pude deixar de continuar pensando, como o fiz n’ O Capital:

Entre direitos iguais, quem decide é a força”.


CAETANO LAGRASTA NETO  é jornalista, juiz, escritor; colunista da Revista Plural, colaborador do Tempestade Urbana,  advogado, mediador e árbitro das Câmaras da CIESP/FIESP e CAMITAL.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

OITO PERGUNTAS A PENAS, com JOSE COUTO


José Couto é professor de geografia, história, filosofia e sociologia. Pós-graduado em Educação Ambiental no Centro Universitário La Salle. Cursou como aluno especial os cursos de Literatura Brasileira e o Educação na área de Estudos Culturais na UFRGS, e o mestrado em Educação Ambiental na FURGS. Publicou "A Impermanência Da Escrita", poesias, 2010. Editora Alcance. Participou de diversas Antologias de poesias, crônicas e contos em diversos livros e periódicos da imprensa cultural do País. Escreve semanalmente no jornal O Alvoradense sobre poesia. Lançará em breve o livro "O Soneto de Pandora", poesias. Além da obra autoral, o poeta também abre espaço para divulgar novos talentos e obras de já consagrados escritores.
E-mail: jrobertocouto@ig.combr - Blog: http://oalvoradense.com.br/opiniao/josecouto



O Templo*

eu penso no hálito de gim e café frio
do solitário cafetão sifilítico
quando vejo a magreza das meninas
contabilizando minguados michês
de seus corpos ocres de não tempo

eu penso no odor do liberal
em sua singela sinceridade
distribuindo moedas
nos semáforos do tempo interrompido

um desolhar de revés
tempo desassossegado fluindo indo in

eu penso no êxtase de jimi rendrix compondo little wing
o ácido no pico exercendo a não liberdade
quando ouço um acorde dissonante ou iluminado
transmutando-nos em seres delicados altruístas
ressignificando perversas desumanidades

eu penso em charles baudelaire
alucinado de ópio e insight desfigurado
reescrevendo a modernidade
"é que nossa alma arriscou pouco ou quase nada."
quando escrevo o que minha anima inspira
nessas horas onde o tempo germina
auroras luminosas de nossa impermanência

um desolhar de revés
tempo de sincronicidade
relâmpagos dissipando-se em silêncios

José Couto

*Inspirado no poema “Púlpito”   de Joelma Bittencourt






BAP1: Fale das suas preferências de leitura e quais foram/são suas maiores influências?

José Couto: Leio de tudo. De gibis a clássicos da literatura universal. Difícil dizer as maiores influências. A soma. A bagagem, extraída dessa outra percepção da realidade. Literatura é esse mergulho, na dimensão mais sutil de humanidade. Assim como toda arte, trata-se de um encontro enriquecedor, verdadeiro, de onde emerge o melhor de cada ser. Para não parecer tão vago, então fico com cinco momentos na trilha, que zeraram, reiniciaram os passos. As Flores do Mal, de Charles Baudelaire. O Jogo da Amarelinha (Rayuela), de Cortázar. Los conjurados, de Jorge Luis Borges. Grande Sertão Veredas, João Guimarães Rosa e Poema Sujo do Ferreira Gullar.

BAP2: Como surgiu e se desenvolveu o projeto do livro “O Soneto de Pandora”?

JC: O Soneto de Pandora são cinquenta poemas que escrevi e reescrevi nesses últimos dois anos. O livro está pronto, esperando uma editora. Uma obra com importantes participações. Capa e prefácio do artista plástico e escritor Artur Madruga. Orelhas das Poetas Lourença Lou e Joelma Bittencourt. Revisão técnica do poeta Antônio Torres. Contra capa do escritor Clóvis Malta, dos poetas Wander Porto e Rossyr Berny. Tive o privilégio de ouvir a opinião de alguns leitores, aos quais submeti os originais do livro antes de dá-lo como terminado, com liberdade para subtrair, acrescentar, sugerir.

BAP3: “Professor de geografia, história, filosofia e sociologia”... Em que medida a formação humanista contribui para a criação de uma literatura crítica e reflexiva?

JC: “Este é o mundo em que vivemos, banal e delirante, mas onde se torna cada dia mais clara a necessidade de despertar e cultivar o que há de humano no homem.” (Ferreira Gullar) Primeiramente. obrigado por observar essa qualidade em minha poesia. A poesia e a literatura pode e deve ajudar a humanizar novamente os homens. Acredito que minha formação acadêmica contribuiu para isso, porque somos o resultado de nossas bagagens. As experiências. A poesia tem sido historicamente o antídoto para os excessos de perversas desumanidades, da opressão, das desigualdades, para o bem ou para o mal. Mas não é fundamentalmente esse seu papel. Porém, a poesia tem ajudado a refletir e questionar essas inquietações. Não há nada mais complexo e obscuro que a alma humana. E é aí que a poesia pode contribuir, iluminando, revelando, fazendo repensar e potencializando a capacidade do homem de sentir e se reconhecer na desumanidade do outro. Que também é a sua própria. Pode ser, mas também são abstrações. Não tenho certeza de nada. Ainda estou tentando melhorar-me, que também pode ser um caminho de fugir do umbigo e da torre de cristal.

BAP4: Como você vê as novas tendências da poesia contemporânea?

JC: Com otimismo. Me encanta a variedade de vozes poéticas em circulação hoje nas redes sociais. Para a literatura e particularmente à poesia, é benéfico esse ciclo luminoso de exposição, tendências, encadeamentos e de renovações literárias. Obviamente existe a questão da permanência e impermanência. Porém, isso é uma demanda do tempo e seu poderoso filtro. O cenário mundial de crise, por qual passamos, também é favorável. Sabemos que historicamente são esses momentos de rupturas, de quebra de paradigmas, que surgem as transformações, as mudanças necessárias. Assim repensamos outras possibilidades, capazes de medir o homem e sua humanidade em uma outra dimensão de unicidade de ser, em harmonia consigo e com o outro. Vivenciamos uma lei desmesurada do ego. Não que o ego seja ruim. Mas se você só enxerga através dele, estaguinou. E não há nada pior que a inércia para a literatura e para a evolução.

BAP5: Qual o papel do poeta na sociedade?

JC: "E é suficiente, para o poeta, ser a má consciência do seu tempo." (Saint-John Perse)
Acredito nisso!

BAP6: E qual o papel das redes sociais nessa história?

JC: De facilitar a aproximação. As trocas de experiências. Dar visibilidade às várias vozes poéticas e literárias em ebulição. Tenho dois projetos literários prontos, realizados a partir das redes sociais. "Breves considerações poéticas, sobre arte em exposição de Artur Madruga" é um catálogo poético com as obras do artista plástico e escritor, onde convidamos cinquenta poetas com perfis nas redes sociais, para que cada um fizesse uma releitura poética de um quadro do artista. Depois registrasse o poema releitura em vídeo ou áudio para participar do catálogo e da exposição multimídia, que acontecerá provavelmente ainda este ano. Estamos aguardando parcerias. Esse trabalho ficou belíssimo e também aguarda a oportunidade de um registro permanente em livro.
No outro projeto, organizamos uma antologia poética com os melhores poemas das redes sociais, publicados no jornal O Alvoradense, na coluna de poesia que edito há três anos. Com o título "100 poemas desconcertantes e uma canção inexorável ( à maneira de Pablo Neruda) " com notas biográficas e bibliográficas dos participantes, além de um estudo introdutório dessas novas mídias onde circula essa nova poesia brasileira. Nele tentamos traçar um perfil desse novo leitor. Também aguardando parcerias para publicação.

BAP7: O que o motiva a, num mundo tão preocupado com o próprio umbigo, abrir espaço para divulgar novos talentos?

JC: Tenho um poema com esse tema.

Antena

Reverberações fragmentadas
Das incertezas. És antena sensível
Do vir a ser, do indizível, da intrincada verdade
Oca. O muito pouco
Se excessivo, a não palavra desconstruída.
Dizer minimamente, raridades.
Em tempos de louvações, eloquentes elogios
Ao umbigo. A partícula de Higgs
Nos subjuga e revela:
eu e você leitor, ilusões.

E o poema, brilho de uma estrela
Que não existe mais.

José Couto

Porém, meu mantra é o poema O CINZA de Paulo Hecker Filho

Se a verdade pode nos iludir, a glória excessiva pode se revelar uma prisão. Então, apostei na dúvida e na soma de todas as partes. Somando, dividimos percepções e experiências. É da natureza do poeta ser o contraponto, trilhar na contramão. Se a maioria está olhando para seu próprio umbigo, vamos experimentar outros olhares. Outras possibilidades na visão. Olhar muito de perto atrapalha, confunde. É preciso criar perspectivas, ampliar horizontes. Se você realmente deseja enxergar vai precisar criar alternativas, sair da sua zona de conforto. Comecei dividindo com meus irmãos poetas meu espaço no Jornal O Alvoradense, para que também pudessem expressar suas artes e verdades. Não sei se esse é o melhor caminho. Porém, o retorno tem sido gratificante e maravilhoso.

O CINZA
Paulo Hecker Filho

Eu sempre preferi esta névoa sem névoa,
este ar enfim humilde como o humano.
Me diz mais do que a chuva,
a chuva hostil, mas doce de se olhar,
a chuva forte, que embriaga beber.
Me diz mais do que o sol,
cuja glória excessiva nos obriga a outra glória.

Eu sempre agradeci no fundo mais ao cinza,
como quem se surpreende com uma dor que alivia.
Me atrai com a sonhadora força de um pecado,
e quem sabe é um pecado, o pecado mortal...
Ó cinza, ó puro cinza, que és o tempo sem tempo,
o tempo enfim sem tempo,
tão macio como a morte.

BAP8: O brasileiro lê pouco, dizem as estatísticas. Na sua opinião, este quadro pode ser revertido? Como?

JC: Antes de finalizar gostaria de manifestar minha gratidão a vocês, Chris e Adriana, pela possibilidade desse pertinente e prazeroso colóquio, e a generosidade da acolhida e ajuda na divulgação dos meus versos. Acompanho e admiro o trabalho de vocês e nunca imaginei que um dia pudesse estar aqui.
Penso não haver saída possível sem investimentos maciços na educação, a multiplicação de bibliotecas públicas, o barateamento e o acesso ao livro, principalmente nas camadas economicamente mais carentes. O incentivo material e apoio às manifestações das artes populares. A arte autêntica que surge espontaneamente como espelho da alma de seu povo. A tocha ardente a iluminar. A que indica o caminho longínquo a ser percorrido, que a literatura pode romper no tempo e espaço com sua permanente capacidade de nos transmitir ressurreição, transmutação e sabedoria.

__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli